quarta-feira, 4 de agosto de 2010

[Heart] 02 - Coisas que não se pode escapar


A neve caía lentamente pelo vidro da janela fechada. Evangeline apreciava um maravilhoso chá preparado por Chachamaru enquanto observava os flocos brancos dançando calmamente:

- Os mortais são muitos idiotas. - comentou a vampira em seu leve agasalho negro para a robô sem tirar os olhos da janela. Chachamaru ainda tentou compreender aquelas palavras, mas resolveu perguntar, já que seus processadores não tinham com compreender inúmeros dos estranhos pensamentos dos seres vivos.

- Como assim mestra?

- Nada. Só estou um pouco irritada com o que está para acontecer.

- Fala do teste da Konoe-san?

- Não. Falo da burrice daquela Uzoku...

- Sakurazaki? Mas o que...

- Esqueça Chachamaru, melhor não entender a burrice humana, pode ser contagioso. - disse Eva num tom finalizador deixando transparecer sua exasperação.

- ...

“Humanos são todos idiotas”.







- Uma porcaria de livro em código! Grande poder esse!!

Asuna, Negi, Konoka e Kamo estavam ao redor da mesa de centro no quarto deles. Todos ali olhavam para o grosso livro ilegível a frente do garoto. Asuna estava totalmente aborrecida com a situação:

- Asuna, é só questão de decifrarmos o livro para encontrar o tal poder... - argumentou Negi que não parava de folhear as paginas que continham alguns desenhos que pareciam ser de maquinas.

- Quer tanto assim saber mais das coisas que teu pai fez quando era Magister Magi, pirralho? - questionou a ruiva sem a mínima vontade de saber mais daquele monte de papeis sem sentido.

- Anesan, também não precisa ficar tão irritada, esse livro não é tão barra assim... - tentou dizer Kamo para acalmar a garota

- Não é por causa do meu pai Asuna... - respondeu o professor falando num tom sério que chamou a atenção dos presentes ali.

- Não? - estranharam Asuna e Kamo.

- Na verdade... este poder. Magno buscou esse poder com muita determinação. Provavelmente é algo realmente muito poderoso, acredito que é perigoso se ficar por ai...

- Mas Aniki, ele não esta “por ai”, tá é muito bem escondido pelo que agente pode perceber...

- Eu sei, mas......... - Negi ficou em silencio observando as paginas que não podia ler.

-Tá afim de pegar o poder pra ti moleque? - perguntou Asuna confusa e curiosa pela atitude do garoto.

- Hein?! Não é isso! - sobressaltou-se o garoto não acabando com as suspeitas dos outros. - Algo me diz que preciso descobrir o que está escondido, não sei..... é apenas uma sensação... - o tom de Negi foi tão introspectivo e sério que Asuna pode perceber que ele dizia a verdade.

- Tá certo. Vamos então desvendar esse tal código, mas peça ajuda pro trio biblioteca, porque eu sou completamente inútil pra essas coisas.

- Asuna....

- Quem sabe agente encontra algo que dê muito dinheiro Aniki! Vamos pesquisar! - sugeriu Kamo animado com cifras no olhar.

- Kamo!

Asuna porém não prestou atenção na conversa furada dos dois, havia parado para observar Konoka. A garota tinha passado a conversa inteira completamente calada e tinha um ar distante e até entristecido:

- Tudo bem Konoka?

- Hm? Ah.... sim Asuna. - respondeu a quase-maga sorrindo, mas era evidente que havia algo ali e como uma boa amiga a ruiva ia perturbar mais a outra para descobrir do que se tratava.

- Onde está a Setsuna a essa hora? Ela sempre passa as tarde contigo de um lado pro outro...

- Ah... - Asuna pode notar instantaneamente o olhar de Konoka tornar-se levemente mais apagado ao mencionar a espadachim. Teriam brigado? Se tivesse ocorrido algo a sua mestra de kendô poderia esperar por uma boa surra por magoar a “quase alguma coisa” (“e por que elas usam esses termos estranho?! Affs”). - A Set-chan tinha treino de kendô, está chegando o campeonato nacional, os outros membros da equipe precisam dela....

- Treino? - a ruiva não esperava essa resposta, apesar de fazer sentido. - Bom, num precisa ficar com essa cara, ela volta logo. - consolou sem jeito sorrindo para a amiga. Realmente achava os apaixonado uns mimados, ficar triste por algumas horas sem falar com o outro...

- Arigatou Asuna. - disse Konoka sorrindo mais animada, levantando-se.

- Vai sair Konoka? - perguntou Negi que não prestara atenção na conversa delas.

- Vou ver umas coisas no clube. - disse com o mesmo sorriso simpatico saindo sem dizer mais nada, deixando uma Asuna ainda intrigada se enxendo de perguntas.

“Set-chan...”.

Konoka parou em algum corredor mais distante do quarto para pensar. Estava frio demais para sair sem casaco, mas precisava ficar um pouco sozinha. Não sabia o porquê, mas sabia que seu coração tinha algum motivo para ficar apertado. Talvez coisa de mago branco, ter esse tipo de percepção, vai saber. Tudo o que sabia era que sentia algo de errado, alguma coisa incomodava sua Set-chan e ela não lhe diria.

Se não bastasse esse temor estranho ainda tinha..... Sim, o fim do ano se aproximava e seu prazo também chegava ao fim. Logo logo estaria encarando uma nada amigável Evangeline para...... Não sabia se já estava pronta, ou se um dia estaria. Vinha se esforçando ao maximo durante esses últimos meses, mas sentia-se insegura do mesmo jeito. Daria seu melhor, por ela e por sua protetora tão perfeita, mas......... e se falhasse?

“Set-chan, o que vai acontecer?”.







O frio era congelante em toda Mahora naquela tarde. Setsuna Sakurazaki caminhava devagar na direção do templo Tatsumiya coberta por um sobretudo pardo. Não ia realmente até o templo, mas não tinha nenhum outro local em mente para ir, então andava naquela direção. Havia acertado ao dizer que o inverno não daria mais trégua aquela semana. Mas não era apenas o clima que estava frio, uma brisa gelada de medo e preocupação corria pelo coração da espadachim.

Ela amava Konoka. Sim, amava mais que qualquer coisa no mundo. Vivera todos aqueles anos apenas para ser capaz de ficar um pouco mais próximo da garota, nem que fosse apenas para vê-la ao longe, para protegê-la secretamente. Desde o dia que a conhecera a Konoe era a pessoa mais importante de sua vida, quem lhe fizera esquecer a dor de perder a família, de ser expulsa e quase morta quando ainda era muito nova. Desde o começo a herdeira da Associação de Kansai havia sido sua luz e objetivo na vida.

Sempre fora capaz de dar a vida por ela sem hesitar, a qualquer momento.

E agora..... ela e Konoka....

Não podia negar: estava completamente apaixonada pela pessoa mais importante do seu mundo. O que era mais incrível naquilo era que..... Konoka também a amava, amava sinceramente assim como ela. Nunca poderia sequer sonhar que seus sentimentos seriam os mesmos no coração da quase-maga. Cada dia na companhia dela, cada demonstração sincera que trocavam, cada abraço, cada beijo. Era melhor que qualquer sonho que pudesse ser imaginado, era uma realidade doce que fazia a shinmei ter uma felicidade sem igual apenas por existir junto de Konoka, sua “quase alguma coisa” que ela desejava secretamente que se tornasse “algo pra vida toda”. Sua vida só fazia sentido agora e por causa dela, do seu sorriso, do seu coração tão puro e gentil.

Setsuna poderia viver aquela realidade melhor que os sonhos por toda a sua vida se...........

- ..............

Se........ por que os “se”s tinham que existir?! Será que existe algo secreto que diz que sempre devem haver empecilhos na felicidade sincera?!

- Kono-chan......

Era obvio que hanyou queria mais que tudo na vida amar Konoka, viver em paz, apenas para fazê-la sorrir todos os dias. Mas...... o mundo não é ameno nem para os corações verdadeiramente apaixonados.

Konoka era herdeira única da grande família Konoe. Família poderosa, tradicional no mundo dos magos, de grande influência e história. Ela estava destinada a herdar tanto um cargo no alto conselho da Associação de Magia de Kanto como a responsabilidade de Mestra da Associação de Magia de Kansai.

Era um fato histórico, as duas associações ligadas de modo tão forte depois de tantos séculos de discussões. Era um destino cruelmente grandioso e glorioso, era irônico que tanta glória fosse exatamente o motivo que fazia o amor delas ser destinado ao fracasso.

A família Konoe nunca permitiria que sua linhagem fosse comprometida por qualquer motivo, mesmo que esse motivo fosse a felicidade de Konoka. Era parte do “destino” da garota ter pelo menos um filho, fosse menino ou menina, para continuar a linhagem nobre e sublime dos Konoe. Apesar de conhecer Eishun-sama e o Diretor de Mahora, Setsuna sabia, que se fosse preciso, eles fariam absolutamente tudo para garantir o futuro dos Konoe, principalmente o patriarca.

Mesmo que.... fosse necessário um assassinato.

Setsuna parou de caminhar, observando os galhos secos das arvores sem vida do inverno. Tentava segurar um insistente nó na garganta que sentia quando pensava naquele assunto. Não se importava com sua vida, mas..... o que seria de Konoka se ela fosse tirada do caminho?

E ainda havia outro ponto.........

O vento soprou forte por um momento mas Setsuna deixou que ele arranhasse seu rosto sem piedade, talvez ela merecesse até castigos da natureza por ter nascido, por ser quem é mesmo que não tenha escolhido...... nascer como nasceu.

Ela era um meio-youkai, talvez para Konoka aquilo significasse apenas que ela parecia um anjo com asas brancas que a salvariam sempre, mas.... essa não era a visão do mundo sobre ela. Fora acolhida pelos shinmei para não ser morta pelos uzokus que a odiavam por suas asas brancas, para não ser morta pelos magos por odiarem aberrações tão pavorosas como um meio-uzoku. Sofrera a vida toda por ser tratada com nojo e desprezo por muita gente, sofrera por nem sequer poder voltar ao seu povo por causa de sua marca de maldição. As associações só não a impediam de ser guarda-costas dos Konoe porque ela tinha concentimento tanto de Konoemon-sama como de Eishun-sama, mas por eles..... ela nem estaria viva. Teria morrido junto com a grande catástrofe que causou aos uzokus com apenas dois anos de idade......

- ...................

Mesmo que Eishun-sama a tratasse como alguém da família.... ele não podia fazer os outros verem algo nela além de uma criatura bizarra e amaldiçoada. Sim...... era isso que ela era no fundo.

- Kono................................chan...............

Setsuna baixou a cabeça tentando controlar as lágrimas que teimavam queimar seu rosto, não conseguindo conter os leves soluços. Já estava acostumada a ser tratada daquele modo, isso não era novidade na sua vida, porém.....

- Kono-chan....... eu só quero......... ficar contigo...................... a vida toda..............

Mas era impossível.

Ainda que os Konoe fizessem a loucura de ir contra as associações, os próprios magos iriam querer impedir o absurdo de ter um hanyou na família dos Konoe, pelo bem dos magos de todo o oriente, pelo futuro da Sociedade Arcana.

Era um destino sem volta.

Mas........ não podia permitir que Konoka sofresse mais do que o inevitável. A pior coisa no mundo para a espadachim não seria morrer, mas saber que Konoka sofreria ainda mais por aquilo:

- Kono-chan........................

Ela não permitia que isso ocorresse.

Mesmo que tivesse que sacrificar toda a sua felicidade por aquilo.

Mas.... não tinha coragem, não tinha força, mas... não mudaria mais de opinião.

Era o certo a se fazer.

“Por que os sonhos têm que acabar um dia?”.

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