quarta-feira, 4 de agosto de 2010

[Lives] 08 - Do fundo do meu coração


Konoka lambia seu sorvete olhando distraidamente para o horizonte totalmente laranja do fim daquela tarde de outono. Tentava parecer relaxada sem sucesso e Setsuna estava ficando nervosa ao perceber a agitação de sua "amiga". As duas voltavam sem pressa para a república estudantil. Estranhamente as ruas estavam desertas, não havia estudantes de um lado para o outro como se costumava a ver no fim das tardes de treino dos clubes esportivos do colegial feminino de Mahora. O silêncio entre elas estava perdurando a mais de cinco minutos até que Konoka parou de andar sem aviso fazendo Setsuna colidir com ela:
            - O que houve Kono-chan?
            - A Árvore Mundo... - Konoka respondeu simplesmente como se aquilo fosse a resposta para todos os enigmas do universo. Como se tudo o que precisasse na vida fosse encontrar aquela árvore. Setsuna ergueu uma sobrancelha.
            - O que tem a Árvore Mundo Kono-chan?
            - Set-chan... que tal se fizéssemos um pedido de coração a Árvore Mundo? Que nem a Eva disse que fez. Um pedido pra mim e um pra você? - sugeriu Konoka sem desgrudar os olhos da árvore mais ao longe.
            - Um... pe... Pedido de c-co-coração?! - Setsuna deu um salto para trás ao ouvir a sugestão, isso por que a primeira coisa que lhe veio a mente foi pedir coragem para raptar Konoka para si de uma vez por todas. Konoka ergueu as sobrancelhas para a espadachim que parou de se agitar diante do olhar de sua protegida.
            Sabendo muito bem o que fazia, Konoka se aproximou novamente da espadachim que apenas observou e, com a cara de inocência mais convincente do mundo perguntou:
            - Não tem nada que você queira pedir a Árvore Set-chan? Nada mesmo?
            Aquilo era demais para os nervos da amorosamente confusa Setsuna. Não conseguiu evitar corar violentamente diante do olhar e da pergunta de Konoka que fazia um esforço absurdo para segurar uma risada de satisfação por perturbar tanto sua "amiga de infância". Gaguejou algo indecifrável por alguns segundos até perceber que teria que responder sinceramente àquela pergunta e respirar fundo para se acalmar:
            - Na verdade eu tenho mesmo algo que desejo do fundo do meu coração Kono-chan. - admitiu séria e dessa vez foi Konoka quem corou violentamente diante da sinceridade da protetora. A Konoe sentiu o coração dar um salto no peito, mas percebeu no mesmo instante que realmente o dia certo era algo mágico.
            - Então vamos! - afirmou voltando ao seu animo típico e começou a puxar a "amiga" pela mão em direção a Árvore.
            Setsuna não fez menção de resistir ao chamado. Na verdade poderia ser arrastada até a boca de um dragão por Konoka que não se importaria. Era estranha aquela sensação do calor da mão de sua Kono-chan, não queira mais perder aquilo nem por um segundo e só se tocou de algo novamente quando esta a soltou. A espadachim abriu a boca para protestar quando percebeu que estavam sob a Árvore Mundo.
            A visão que se tinha dali era incrível. O céu totalmente dourado iluminando Mahora que parecia realmente mágica daquele jeito. Setsuna apreciou a paisagem por um momento esquecendo-se do porque se deixara levar até ali. Konoka andou por debaixo da Árvore. Incrivelmente não estava mais nervosa, tinha certeza que faria o que tinha que ser feito e isso era o suficiente naquele momento. Respirou fundo mais uma vez antes de encostar suas costas nas de sua Set-chan:
            - O dia fica lindo a essa hora, não acha Set-chan? - perguntou Konoka olhando para partes distantes de Mahora. Pode sentir o coração da espadachim bater mais forte.
            - Sim... diante de seus olhos tudo fica belo Kono-chan.- Setsuna não acreditou nas próprias palavras, mas estranhamente não temeu estar sendo insolente ou coisa do gênero. Nada parecia errado naquele momento.
            Konoka corou forte ao ouvir a resposta sem temor da espadachim. Não esperava que Setsuna fosse lhe dar logo essa de cara. O silêncio recaiu novamente entre elas, Konoka sentia-se meio anestesiada, finalmente tinha chegando a hora de confessar o que sentira por tanto tempo, nem conseguia acreditar que aquilo realmente estivesse acontecendo.
            Os olhos de Setsuna percorriam a paisagem enquanto ela própria navegava por suas lembranças. Lembrou-se de cada dia de treino em que se esforçou por querer ficar mais forte, lembrou-se de cada batalha que enfrentou em seu caminho, de cada noite em que dormiu só e até ao relento. Tudo aquilo no fundo era por um mesmo objetivo: estar perto de Konoka. Ao perceber isso nem pode acreditar que agora estava ali, ao lado dela, com suas costas encostadas nas dela. Devia ser louca por venerar tanto assim alguém, alguém que nunca perceberia esse seu sentimento:
            - Bom, vou fazer meu pedido primeiro, tá Set-chan? - perguntou a Konoe sentindo um vácuo no estomago. - Depois você pode fazer o seu também.
            - T-tá. - a espadachim já havia compreendido que o pedido fora um pretexto da garota para dizer o que queria.
            Konoka  olhou distraída uma ultima vez para o horizonte respirando fundo antes de fechar os olhos como se fosse se atirar de pára-quedas:
            - Eu desejo poder ter sempre a Set-chan perto de mim...
            Setsuna parou de respirar ao ouvir aquilo.
            "... por... por mais que as pessoas achem que tenho tudo e nada pode me faltar, sei há tem algo que faz toda a diferença...".
            O coração de Setsuna batia descompassado. Não podia estar querendo dizer o que ela pensava que estava.
            "... mesmo que eu sorria por dentro sinto um vazio quando ela não está comigo..".
            Até mesmo a consciência de Setsuna ficou muda diante do que ouvia.
            "... quando estou com a Set-chan me sinto de um jeito diferente... como não me sinto com mais ninguém... é uma alegria que não posso descrever...".
            Por um instante Setsuna temeu acabar desmaiando por falta de oxigenação no cérebro.
            "... quero ela sempre perto de mim por que... sei que não conseguiria ser feliz de verdade longe dela... por que...".
            Parecia que o tempo havia parado para escutar as palavras da Konoe.
            "... por que eu a amo como a mais ninguém".




            O silêncio era tangível. As duas garotas estavam imersas em uma profusão de sentimentos. Ao longe se ouviu o sinal que tocava no fim da tarde.
            Setsuna simplesmente não conseguia mais processar nenhuma informação. "Kono-chan disse que... disse que...". Sua consciência também não se manifestava, vai ver nem ela esperava algo assim. Então seu sentimento não era uma fantasia? Então não estava condenada amar a vida inteira sem ser correspondida? A espadachim teve vontade de sorrir e chorar ao mesmo tempo. Uma silenciosa lagrima escorreu pelo seu rosto agora pálido. Era tudo o que sempre quisera ouvir. Konoka havia lhe dito exatamente o que dizia em seus sonhos (isso excluindo outras coisas que dizia em outros sonhos que a guerreira tinha às vezes). Mas... estava errado! Como a pura e inocente Konoka Konoe fora se apaixonar por uma meio-uzoku amaldiçoada como ela?! Isso era infame! Por que então tinha vontade de saltitar abobalhadamente até ficar tonta a cair? Sua mente dava voltas sem parar...
            Konoka, por sua vez, sentia um misto de alívio e temor que a sufocava. Finalmente havia confessado o que sentia, não precisaria mais esconder seu sentimento tão profundo ou mesmo disfarça-lo em uma simples amizade boba. Não mais se censuraria por querer abraçar a espadachim e talvez ir além disso. Não precisaria mais usar a desculpa esfarrapada de pacto provisório para tentar beijar sua protetora. Mas... ao mesmo que isso era maravilhoso, um medo se precedentes lhe corroia sem cessar: e se Setsuna não quisesse aquilo? Claro que sabia que a espadachim também sentia algo diferente por ela, mas... e se fugisse? Com certeza aquilo devia se enquadrar na descrição de "insolência absoluta" da garota. Setsuna era muito fechada e sempre colocava seus sentimentos abaixo da razão. E se partisse por temer estar corrompendo a jovem herdeira das associações de Kanto e Kansai? E se fizesse alguma besteira?! Não, não! Não devia ter dito aquilo! Devia ter escondido o sentimento para pelo menos poder estar perto de sua "amiga"! Agora provavelmente perderia a companhia de sua Set-chan para sempre! Não! Se isso acontecesse ela sim faria uma bobagem bem grande! Quem sabe suicídio ou até...
            - Eu desejo poder proteger a Kono-chan sempre...
            Konoka despertou de seus devaneios de horror num estalo. Aquilo era... o pedido da espadachim?
            "... durante toda a minha vida eu me dediquei a lutar e me aperfeiçoar... tudo para poder ser digna de protegê-la...".
            Se... será que...
            "... a minha vida sempre foi confusa mas... a única coisa de que tenho certeza é que não posso viver longe dela...".
            Konoka deixou lágrimas rolarem pelo seu rosto ao ouvir aquilo.
            "... ela é o sentido de eu estar aqui... é o sentido de eu continuar em frente... ela é o meu sentido...".
            ...
            "... por isso eu peço para estar junto a ela... mesmo que seja de longe... mesmo que eu a veja apenas uma única vez em um ano todo... eu preciso disso...".
            Setsuna também não conseguiu conter as lágrimas que ela nunca deixava ninguém ver, mas que ainda assim estavam quase sempre ali.
            "... isso tudo por que... por que eu a amo mais do que a qualquer coisa na minha vida".



            A noite começou a cair e o céu começou a ficar coberto de estrelas de todos os lados. Konoka ainda deixava as lagrimas correrem, sua Set-chan não fugiria por enquanto afinal, isso era motivo de sobra para estar feliz. Setsuna olhava para as folhas da Árvore Mundo que se mantinham verdes mesmo no fim do outono, mesmo achando que estava traindo a confiança depositada nela pela família Konoe , percebeu que há momentos em que simplesmente não se pode ir contra a correnteza da vida, apenas se pode deixar levar como estava fazendo naquele momento.
            O tempo foi passando e a noite esfriando. Em breve estariam com muito frio se ficassem paradas ali. Percebendo que Setsuna não teria coragem nem mais para respirar alto Konoka quebrou o silêncio:
            - Temos que ir jantar Set-chan. - disse ainda encostada na espadachim. Ainda temia um pouco que esta saísse voando e nunca mais voltasse.
            - É... é verdade. - concordou Setsuna com a voz baixa e envergonhada.
            Konoka foi para a frente da protetora em um movimento e a encarou nos olhos. Setsuna corou absurdamente com aquela proximidade. A curandeira sorriu. Não precisava mais fingir que não tinha intenções mais ocultas em seus atos. Acariciou levemente o rosto em brasa da "amiga" com a mão e sentiu está tremer sob seu toque:
            - Ko-Kono-chan... - Setsuna mal conseguia juntar alguns fonemas de tão nervosa. Sua respiração estava rasa e desigual.
            - Set-chan...
            Setsuna fechou os olhos quando a maga se aproximou. Tremia por inteiro. Se parasse para raciocinar provavelmente se puniria de maneira cruel por estar naquela situação. Felizmente a última coisa que queria naquele momento era parar para raciocinar. Sentiu a respiração de Konoka no seu rosto e não resistiu ao impulso de acabar com o último centímetro que as separava, beijando-a.
            Konoka acariciou os lábios de Setsuna com os seus de maneira suave e delicada. A espadachim não teve qualquer reação a não ser de receber aquele gesto. O calor dos lábios da protegida a fazia esquecer de qualquer outra coisa. Criou coragem para retribuir o beijo como devido e as duas ficaram mergulhadas naqueles toques calmos e leves por um tempo que não conseguiram perceber.
            Depois de alguns minutos, ou séculos sem fim depois as duas se separaram. Konoka abriu os olhos para ver que Setsuna ainda os mantinha fechados, como se não quisesse acordar de um sonho. Naquele momento a quase-maga percebeu que nunca iria querer mais ninguém além de sua Set-chan. Ninguém poderia ser mais perfeito do que o seu anjo de asas brancas que vivia por ela. Queria viver por ela também durante toda a vida.
A guerreira abriu os olhos lentamente e se viu diante do olhar de sua princesa. Como era doce o olhar de sua Kono-chan. Queria poder observá-lo pela eternidade. Quem sabe até tomar-lhe os lábios novamente algumas vezes nesse período...("Até parece que seria só isso mesmo..."). Setsuna teve o impulso de beija-la novamente, era difícil para ela tomar a iniciativa por isso não conseguiu se mexer nada mais que um centímetro:
- ... ? - Konoka percebeu o desconforto da "amiga", mas quando Setsuna conseguiu se aproximar um pouco mais de Konoka uma música as despertou para a realidade. Setsuna saltou cinco metros para trás com o susto e Konoka pegou o celular cantador do bolso extremamente irritada. Tinha que tocar logo agora que sua Set-chan tentava quebrar as próprias barreiras?!
- Alô? Asuna? - Konoka se surpreendeu ao ouvir a voz da baka red irritada. Ora, ela é quem deveria estar irritada! Setsuna ainda tentava recuperar-se do susto apoiando as mãos nos joelhos para tentar respirar.
-Ei Konoka! Onde é que você tá? Quem é que vai preparar o jantar?! - reclamou a bakaranger pelo aparelho e Konoka se tocou que já devia ter preparado o jantar àquela hora.
- Ah... eu já vou. Por que você e o Negi não pedem logo uma pizza? - sugeriu para acalmar a garota esfomeada do outro lado da linha.
- Hunf... tá certo. Mas vem logo! - e desligou na cara da quase-maga.
- Era a Asuna? - perguntou Setsuna já mais calma. Agora sentia um misto de raiva e alivio pele interrupção.
- Pois é. - confirmou Konoka olhando mal-humorada para o aparelho.
- Já está mesmo tarde. Precisamos ir.
Konoka olhou para Setsuna que não pode deixar de corar. Ainda mais depois de tudo o que ocorrera naquele dia. Sorriu de uma maneira bem Konoe e ergueu o indicador no ar:
- Duvido que ganhe de mim Set-chan! - disse e seu dedo brilhou levemente.
- Quê?
- Corrida! - exclamou Konoka que havia conjurado seus patins saindo em disparada em direção a escadaria que levava a república.
- Ei! Espera Kono-chan! - pediu Setsuna começando a corrida atrás.
As duas correram sem parar até chegarem ao apartamento onde Negi e Asuna devoravam esfomeados uma grande pizza e discutiam se iam ou não guardar a outra para elas. Nenhum dos dois percebeu qualquer diferença entre Konoka e Setsuna. Todos comeram e riram um pouco antes da hora de irem dormir.
No interior porém, as duas "amigas" estavam muito diferentes. Konoka só faltava sair flutuando de tanta felicidade e Setsuna pensava que devia amanhecer com pressentimentos muito mais vezes dali pra frente.
"Quem sabe se todos os dias fossem assim.".
"É... haveriam muitos beijos com Konoka Ojou-sama... he he he.".
"Quem sabe desligar consciências também pudesse ser feito todos os dias.".   
 "...".

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