quarta-feira, 4 de agosto de 2010

[Lives] 17 - Sentimentos


            O vento soprava forte à vinte metros de altura nos arredores de Mahora. Setsuna-P voava numa velocidade espantosa como se fugisse da forca. E era mesmo isso que estava fazendo. Já estava a vinte minutos rumando na mesma direção e já estava um pouco além dos limites da escola comandada pelos magos. Um vórtice de emoções e pensamentos se passava em sua mente. Sim, ela tinha uma mente e pensamentos confusos também.
            Estava a beira da inexistência, a qualquer momento Setsuna iria desfazer seu feitiço e ela simplesmente deixaria de existir para todo o sempre. Por que as coisas tinham que ser assim?! Ela se esforçara tanto para ganhar uma chance de poder continuar existindo durante o período em que ficara em Mahora no lugar de sua criadora. Aquela havia sido a semana mais incrível da curta vida dela, por que tinha que acabar assim? Não se conformava.
            Claro que havia escolhido métodos nada seguros para tentar garantir sua existência, mas... o que podia fazer? Era um shikigami de Setsuna, seria natural que também fosse completamente apaixonada por Konoka. Queria tanto poder ter a garota para si, mas esta havia resistido bravamente a suas investidas e seu tempo se esgotara. Agora não havia mais como fazer-se necessária à Konoe. Estava condenada e havia no fim perdido tudo que tinha lutado para conquistar. Konoka e a própria vida. Ela tinha vida? Sim, claro que tinha!
            De repente uma dor aguda tomou o coração de Setsuna-P, não uma dor puramente emocional, era uma dor física, como se seu peito fosse rasgar a qualquer minuto. Era o inicio do ritual para desfazer o feitiço de conjuração dela, ou seja: era o começo da morte.
            - Argh! – a dor era tamanha que desequilibrou o vôo da shikigami que caiu com um baque sonoro no gramado de um parque da cidade vizinha a Mahora. O lugar estava vazio e ninguém viu a garota alada desabando desajeitada. – Aaah....
            A “garota” levantou-se em meio a seus gemidos de agonia e caminhou as cegas pelo parque sentindo a dor se intensificar sem poder fazer nada. Caminhou alguns metros até sentir a dor se alastrar por todo o seu corpo. Setsuna-P gritou em desespero caindo na grama com o peito para cima. Não conseguia pensar em nada além de que aquele era seu fim. Não conseguia nem abrir os olhos, tamanha sua agonia:
            - Por quê?! Por que eu não posso existir?! – perguntou aos berros para o céu percebendo que não conseguia mais sentir os braços, estavam dormentes, a um passo de não existirem. Com certeza era muito grande a agonia de deixar de existir pouco a pouco. Talvez fosse uma vingança sádica da espadachim a destruir de maneira tão lenta, talvez isso fosse apenas pela grande distancia que estava desta. Provavelmente havia escolhido sofrer ao fugir da morte.
            Os sentidos iam diminuindo enquanto a dor crescia. Ela perdia a noção de onde estava. Não ouvia mais ou via. Tudo o que conseguiu perceber foi uma luz azul difusa que vinha de debaixo do seu corpo. Com certeza fazia parte do feitiço sendo desfeito. Logo ela, um shikigami com potencial inimaginável iria terminar de maneira tão humilhante, como um simples boneco inútil. Estava tão afogada na agonia que não pode ouvir uma voz masculina não muito distante dizendo calmamente e ela:
            - Não se preocupe querida, não vou deixar você terminar assim.
            Setsuna-P chegou ao limite entre a existência e o nada, mas, ou invés de deixar de saber qualquer coisa, começou a sentir-se novamente, o ar gelado da noite entrando por seus pulmões. Nunca havia sentido a própria respiração realmente, como estava fazendo isso agora? Depois de morrer? A dor foi sumindo pouco a pouco e ela passava a sentir o chão sob seu corpo e o suor que escorria pela sua face. Estava mesmo morta? Parecia sentir-se muito mais viva do que antes... Como era possível. A voz masculina lhe falou novamente, dessa vez ela conseguiu ouvir seu tom sereno e grave:
            - Você vai ficar muito bem querida.
            O cansaço começou a tomar conta do corpo da “shikigami”. Quando abriu os olhos viu a figura de um homem que trajava uma longa capa preta como a de um mago. Tinha um rosto já de idade e sorria de maneira gentil para ela. Tentou dizer algo, mas o cansaço ia derrubando-a rapidamente:
            - Não se preocupe querida, quando acordar tudo será explicado. Agora durma, tenha o primeiro sonho de sua vida.
            Setsuna-P não tinha idéia de quem era aquele homem, mas dormiu, não por que confiasse, mas por que não restaram forças no seu ser depois de tanto voar q quase morrer. Dormiu e teve seu primeiro sonho, um sonho onde ela era real.





            Setsuna terminou o feitiço para terminar com a existência de Setsuna-P se sentou na beira da cama desolada, como se ela própria tivesse deixado de existir. Estava sozinha no seu quarto, as malas ainda feitas a um canto, o silêncio preenchendo cada espaço no lugar e dentro da espadachim. Estava sangrando na alma, um sangramento que não parava e nem diminuía, parecia que havia sido partida ao meio de maneira destruidora e lenta. Seus pensamentos estavam embaralhados e incompletos. Encarou o espelho solitário a um canto.
            “Você foi usada.” disse sua consciência sem parecer ter a mínima pena do sofrimento de Setsuna. A espadachim não conseguiu conter as lágrimas que começaram a cair pelo seu rosto quando ela deitou de lado na cama, ainda encarando o espelho:
            - É mentira... – sua voz estava cortada e engasgada pelo choro silencioso. Não podia acreditar, não depois de ter ouvido da própria Konoka uma confissão tão verdadeira sob a Árvore Mundo! Haviam até se beijado naquele dia! Como podia agora não passar de uma mentira?!
            “Ué? Mas você não a viu beijando a shikigami também?” contra-argumentou sua mente de maneira astuta e Setsuna engoliu em seco. Sim, tinha visto. Konoka e Setsuna-P beijando de maneira tão... intensa! Se realmente se importasse com os sentimentos dela, por que teria beijado Setsuna-P daquela maneira?!
            -  Não pode ser... ela não pode ter... – será que realmente havia sido um brinquedo nas mãos de Konoka? Sua mente dizia que sim enfaticamente, mas algo dentro dela, algo mais profundo que os pensamentos dizia que não era isso, deveria ter alguma explicação.
            “Explicação?! Qual?”.
            Ora, a maga poderia ter sido usada por Setsuna-P, ela mesma vira o quanto a shikigami podia ser egoísta e inconseqüente, seria bem lógico achar que a quase-maga fora usada!
            “Ninguém sendo usado, beija daquela maneira...”.
            O argumento de Setsuna fora a baixo. Sim, Konoka estava retribuindo os beijos de Setsuna-P à tarde no terraço, estava gostando deles! Gostando dos beijos de Setsuna-P!!! será que só queria mesmo aproveitar-se de seus lábios?! Todo esse tempo Konoka apenas se aproximara dela com o interesse de provar-lhe?! Seria apenas isso?! Mais lágrimas escorreram pelo rosto de Setsuna, não conseguia mais conter os soluços do choro, fechou os olhos para tentar silenciar sua consciência, porém não é tão fácil silenciar um inimigo tão próximo.
            “Você foi usada” repetiu com a mesma falta de piedade de antes e Setsuna se encolheu na cama, apertando o peito:
            - Não... eu a amo... isso não pode ser...
            “Mas é exatamente isso”.
            -NÃO!!! – Setsuna berrou sentando-se na cama, estava ofegante, as lágrimas borrando sua visão. Enxugou-as percebendo que conseguira o silêncio de seus pensamentos.
            Não era isso. Konoka não a tinha usado... também não tinha sido usada por Setsuna-P, então... o que era verdade ali? Bom, parando para raciocinar com mais frieza Setsuna percebeu rapidamente o que havia de fato ocorrido: um erro. Um grave erro da herdeira das Associações de Magia do Japão. Ou quem sabe não...talvez quisesse ter feito tudo aquilo, mas isso não importava... a espadachim sentia que o amor que sentia por Konoka não havia sido morto por aquele fato. Estava apenas ferido, marcado, traumatizado. Percebeu que demoraria algum tempo até que conseguisse olhar novamente nos olhos da maga sem temer ser usada ou enganada... será que um dia conseguiria? Talvez... esperava que sim, amava demais a garota para não mais falar-lhe.
            Setsuna esticou-se na cama olhando para o teto. Uma semana atrás sentia-se imensamente feliz por estar se aproximando tanto de Konoka. Agora estava completamente atordoada, confusa, questionando-se se não fora um erro ter se entregado por um segundo aos seus sentimentos pela Konoe que carregava consigo por tanto tempo em segredo. Seu pensamento foi até Tsukuyomi: sim, havia como evitar aquele sofrimento... na verdade Setsuna percebeu que aquela situação era um grande ponto a favor da espadachim. Mas... mesmo que houvesse uma saída do sofrimento que sentia e que talvez fosse ainda piorar... não podia evitar, amava Konoka mais do que qualquer coisa na vida... a confissão que fizera sob a árvore mágica da escola fora verdadeira, disso ela não tinha como duvidar... mesmo que fosse sofrer como estava sofrendo... amava Konoka... a única questão era saber quanto tempo seu coração precisaria para perdoar a atitude da garota... naquele momento parecia que ia demorar anos, mas quem sabe uma noite de sono não pudesse ajudar a diminuir esse tempo...
            Setsuna adormeceu embalada do sentimento de dúvida, um sentimento nada amigo na hora de dormir. Não sabia o que aconteceria com seus sentimentos dali pra frente, mas esperava que acontecesse logo, não agüentaria ficar muito tempo naquele vácuo.
            “Kono-chan...”

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