quarta-feira, 4 de agosto de 2010

[Lives] 18 - Uma chance para viver


            “Eu sou um monstro.”.
            Konoka Konoe estava sentada sozinha na sala do clube de artes esotéricas. Era o inicio da madrugada, mas ela não tinha a mínima vontade de ir para seu quarto ou dormir. Olhava para o céu parcialmente coberto por nuvens que se podia ver da janela aberta. Sentia-se fraca e desolada com tudo que ocorrera. Principalmente sentia uma amargura mortal contra si mesma.
            Como havia se deixado levar daquela maneira por Setsuna-P? Havia perdido completamente o senso do que estava fazendo, mesmo sabendo do risco que havia em se envolver. Mesmo sabendo que se arrependeria, ela não havia conseguido impor limites a shikigami, e agora... O pior havia acontecido: Setsuna havia descoberto sua falha antes que ela pudesse minimizar seus efeitos ou mesmo explicar pessoalmente como havia sido tola.
            Seu anjo protetor agora devia odiá-la. Nem sequer havia lhe olhado no terraço, como se talvez desprezasse agora a sua figura. Não havia nem lhe chamado pelo apelido... “Ela não vai mais perturbá-la, Konoka Ojou-sama.”. A frieza na voz da espadachim havia cortado toda reação que Konoka poderia ter tido naquele momento para tentar explicar-se ou desculpar-se. Fora uma voz sem sentimento algum, como se estivesse falando a uma desconhecida. Ela havia conseguido o que era praticamente impossível: destruir o sentimento puro que Setsuna guardava em si durante todos esses anos. Sim, era um monstro.
            Mesmo que agora Setsuna-P já não existisse mais, Konoka não via como iria poder se reaproximar de Setsuna. Sua Set-chan.... não teria mais coragem de encara-la depois de tê-la ferido tão cruelmente. Não conseguiria nem mesmo se perdoar por ter feito o que fez... sim, ela tinha feito e não podia se esconder sob a desculpa de “deixara ser feito” por que realmente havia retribuído a “Pee-chan” (sentiu desprezo ao lembra-se do apelido). Não poderia nunca tirar a culpa de suas costas. Nunca.
            Observando o céu noturno enquanto consumia-se na própria culpa naquela noite que provavelmente nunca esqueceria, Konoka só conseguia repetir a cada alguns minutos uma única palavra:
            - Set-chan...





            Setsuna-P foi abrindo os olhos vagarosamente. Não conseguiu enxergar direito o lugar onde estava, pois estava um pouco tonta. Sentia o corpo dolorido, mas.... como assim?! Era um shikigami! Não podia sentir dor!!! Não dores musculares como aquelas! Como estava sentindo então?! Ergueu-se de um salto sentando-se no que percebeu ser uma cama. Sua cabeça girou por um momento:
            - Que bom que acordou querida. – disse uma voz masculina que não lhe era estranha.
            A “shikigami” olhou para o lado e viu o mago de longa capa preta e ralos cabelos grisalhos sentado a uma mesa mais ao canto na penumbra do que ela finalmente reconheceu ser um quarto de hotel. O homem a observava como carinho enquanto tomava algo em uma xícara:
            - Quem é você? – perguntou a garota meio confusa com tudo aquilo. Só se lembrava de estar morrendo e agora... estava sentindo dores no corpo em uma cama de hotel com um homem misterioso. Isso chegava a soar estranho, mas era a sua situação.
            - Meu nome é Mash Magno.  – apresentou-se o homem repousando sua xícara na mesa e virando-se para ficar de frente para a menina. – Sou um mago ocidental como pode perceber pelo meu sotaque e vestimentas. Venho da Irlanda e estava esperando para encontrá-la há bastante tempo, Pee-chan.
            - Me encontrar? – Setsuna-P estranhou muito a fala do mago. Como a conhecia afinal? – Mas...
            - Eu sei tudo sobre você querida. – disse Mash antes que a garota fizesse a pergunta. – Estive te observando desde que surgiu, a oito meses.
            A “pseudo-espadachim” tentou entender a situação por um momento. Um mago que havia impedido sua destruição e a vinha observando a muito tempo... que diaxo estava acontecendo ali? E por que sentia dores?! Era um shikigami, não?!
            - Você é o tal assassino que está no Japão? – perguntou lembrando-se do comentário feito por Kotarô logo que voltara de Kyoto, na mesma data e que ela havia assumido a posição de Setsuna em Mahora. Mash riu da pergunta com entusiasmo.
            - Você é ardilosa mesmo! – comentou ele parecendo contente com a acusação de ser um assassino. – Infelizmente devo responder que não sou. Mas minha presença aqui tem relação com esse tal assassino sim, e por isso me impressiono com seu pensamento!
            - Heim? – Setsuna-P estranhava cada vez mais a situação.
            - Eu explico querida: na verdade eu estou aqui por que quero derrotar esse assassino. E é para isso que eu preciso de sua ajuda.
            - Para vencer esse outro mago?
            - Não. Preciso de sua grande ajuda para conseguir um poderoso item mágico que está em Mahora. – explicou o homem com simplicidade.
            -... entendo. – respondeu Setsuna-P começando a entender o por que da ajuda do mago.
            - Na verdade, estimo tanto sua pessoa que fiz uma grande busca para poder arranjar um modo de trazê-la para o meu lado querida. – disse Mash com um tom amável na voz.
            - Do que está falando?
            - Observe este pingente que está usando querida. – disse o mago apontando para o pescoço de Setsuna-P, só então esta reparou que estava usando um cordão com um pingente estranho feito de ouro maciço. – Este é o Chikarasei, um amuleto extremamente poderoso que obtive para poder salvar sua existência.
            - Salvar? – repetiu Setsuna-P levantando-se e caminhando até a janela para poder ver melhor o pingente mágico. Era um pouco pesado e tinha a forma de uma chama incandescente.
            - Sim, o Chikarasei é muito poderoso. Tive que investir em mercenários e em um amuleto falso para que a Associação de Magia de Kansai não soubesse que eu já estava com ele a algum tempo. – contou o homem parcialmente careca com orgulho de seu trabalho bem feito. – Fiz tudo isso para poder dar ele  você, minha querida.
            - Pra mim... – a garota sentia-se quase hipnotizada pelas formas do objeto que carregava. Podia perceber a energia que dele emanava, era algo diferente de tudo o que já havia visto em sua curta vida.
            - Você sonhou com algo bom antes de acordar querida? – perguntou Mash tomando um gole de sua xícara.
            - Eu sonhei que... – foi então que percebeu o que significava aquela pergunta: um sonho! Mas... shikigamis não sonham! Como ela poderia ter sonhado que... - ... eu era real.
            A verdade caiu como uma bomba na mente de Setsuna-P. Então... mas como?! Não existia nenhuma magia que pudesse fazer algo desse tipo! Mas era a única explicação para as dores, por estar sentindo o cheiro do chá que Mash tomava. A possibilidade de que fosse aquilo fez um sorriso enorme aparecer nos lábios da garota. Um sorriso como nenhum outro que já dera, isso por que sua mente chegou a única conclusão que poderia: seu sonho não havia sido um sonho:
            - É isso mesmo, minha querida. – disse Mash ao ver o sorriso de Setsuna-P. – Você agora não é mais um shikigami, é uma pessoa de verdade... ou quase...
            - Quase?! – a garota olhou para o mago com um tom de “você está me enrolando!!” e esta procurou corrigir sua fala rapidamente.
            - Sim, quase. Isso por que o processo que o Chikarasei esta efetuando sobre seu corpo ainda não está completo. Não pense que é simples fazer um shikigami tornar-se uma pessoa, mas em uma semana você poderá de fato dizer que é uma pessoa.
            - Uma semana... – repetiu Setsuna-P com um tom vago, sua mente estava processando a informação mais incrível e absurdamente maravilhosa do mundo num ritmo muito lento: ia ser uma pessoa, um ser real. Ia poder esfregar na cara de sua... “criadora” que não precisava mais dela para existir, poderia.... poderia... o sorriso se alargou novamente na face da futura garota. – Uma semana...
            - Sim. Em uma semana estaremos prontos para voltar a Mahora e... bem... bagunçar as coisas... – concluiu o mago de maneira misteriosa sorrindo serenamente antes de tomar mais gole de seu chá amargo, segundo o novíssimo olfato da ex-shikigami.
            Pee olhou pára o céu estrelado, admirava a beleza das coisas da natureza, mas dessa vez sentiu uma emoção única por poder ver aquilo tudo: o céu, as nuvens, as estrelas entre as nuvens. Estava  praticamente viva e em pouco tempo poderia enfim dizer que era real. Sim o que mais queria na sua mais nova existência era ser real, era ter a chance de viver. O sorriso no seu rosto mudou para um muito mais enigmático quando ela continuou seu raciocínio e concluiu que só havia mais duas coisas que queria depois de existir: Konoka Konoe e a morte de Setsuna Sakurazaki por suas mãos.
            “Eu vou ser real!”.

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