quarta-feira, 4 de agosto de 2010

[Lives] 20 - Preciso ter o seu sorriso


O grupo das garotas que era mais próximo de Negi já havia percebido que algo havia dado errado na passagem de Setsuna-P por Mahora, mas comentavam isso apenas entre si. Já fazia quatro dias desde que Setsuna voltara a escola e o estranhamente o tempo parecia se arrastar para todas as pessoa próximas a ela e Konoka. Todas faziam um ar de “eu não sei de nada”, principalmente depois da briga que Asuna tivera com a neta do diretor em plena sala de aula porque Konoka havia conseguido tirar a nota mais baixa nos exames preliminares do semestre que haviam se realizado logo que Setsuna voltara.
            Claro que Paru e Asakura já haviam inventado mil possibilidades do que poderia ter acontecido. Incrivelmente suas teorias pervertidas e sem-noção desta vez estavam muito próximas da realidade. Asuna apenas dizia que não deviam se meter naquilo, apesar dela própria estar fazendo questão de discutir com a quase-maga todos os dias criando um clima ainda mais pesado dentro do grupo. Yue comentava que provavelmente todas estavam contagiadas pela falta de alegria de Konoka e por isso os dias pareciam durar séculos a mais.
            Era de tarde e estavam todos no resort de Evangeline. Negi treinava contra Chachamaru enquanto as garotas assistiam Kotarô e Kuu Fei lutando. Konoka havia se isolado de todos indo para um lado solitário do lugar, Asuna e Setsuna tentavam retomar o treino de kendô, mas a ruiva não parava de reclamar e esbravejar:
            - Que droga, não agüento mais a Konoka! – disse ela entre dentes sentando-se no chão coçando o queixo. – Por que você não vai logo falar com ela e acabar com toda essa coisa? – perguntou a mestra encarando-a severamente.
            - ... – Setsuna olhou de volta para a amiga sem dizer nada por alguns segundos e desviou o olhar, a ruiva não sabia, mas estava olhando na direção em que estava Konoka, mesmo sem vê-la, apenas para sentir sua presença mágica. A verdade é que os dias iam se arrastando e a dor de Setsuna ia se transformando em algo que ela não entendia. Tudo o que sabia é que ver Konoka naquele estado a consumia como um ácido. Mesmo assim não havia conseguido sequer trocar um olhar com a garota, de que tinha medo afinal? Será que não mais conseguiria consertar tudo aquilo e as duas viveriam como zumbis para sempre? Não... não era isso que ela queria...
            - Vocês me dão raiva... – comentou Asuna olhando com raiva para o lugar onde estavam as outras garotas e viu que Negi (todo machucado e com marcas de mordida no braço) e Evangeline se aproximavam das duas.
            - Ainda está fazendo-se de “garota traída”? – provocou a vampira com um sorrisinho maléfico e Setsuna desviou os olhos de onde estava Konoka para encará-la.
            - Ah... mestra... – Negi fez uma careta à provocação. Vinha tentando conversar com a espadachim todos os dias para tentar convence-la a ir falar logo com a quase-maga, mas nunca pensara em ser tão direto assim.
            - Sei que foi uma baita sacanagem o que aconteceu, mas pretende ficar nesse “chove e não molha” pra sempre garota? – continuou Evangeline encarando profundamente os olhos negros e cheios de duvidas e dor de Setsuna. – Sabe, até um Evangelho Negro pode errar nos assuntos amorosos, o que se dirá de uma maga branca mimada e folgada?!
            - ... – Setsuna desviou o olhar dos da vampira. Já sabia de tudo aquilo, não precisava da “grande” ajuda da imortal para saber de tudo aquilo. – Por que isso te interessa?
            - Hu... por que já basta eu ter me dado mal no amor. – Asuna e Negi se surpreenderam com essa resposta e encaram abobados a “menina”. – Não gosto de ver alguém fazendo idiotices quanto a isso...
            - Ah... Setsuna... – Negi chamou e a espadachim olhou-o. – Sei que você não quer ver a Konoka daquele jeito triste...
            Setsuna sentiu o peso das palavras dos três. Sim, erros podem ocorrer... sim, não queria ver sua Kono-chan triste como estava... sim...
            Sem dizer nada Setsuna começou a caminhar na direção em que estava Konoka. Os três apenas assistiram a garota sumir em uma esquina que levava até o outro lado do resort. Evangeline abriu um sorriso maquiavélico:
            - Esses jovens são tão idiotas... – comentou antes de voltar para seu quarto para continuar uma leitura. Negi e Asuna ainda ficaram em silêncio por um tempo até que o mago falou.
            - Será que vai dar tudo certo Asuna?
            - Eu espero. E se não der... eu quebro a cara da Setsuna.






            Konoka olhava para o mar que refletia o sol se pondo no fim daquela tarde ilusória dentro do resort encostada em um parapeito. Seus pensamentos vazios e sem nexo. Não conseguia mais refletir sobre o que acontecera, na verdade não conseguia refletir sobre nada. Tudo o que tinha era a culpa cortando-lhe lentamente a alma. Não tinha coragem de falar com sua Set-chan, mas a cada dia sentia que acabaria morrendo por sentir sua falta. Queria tanto o conforto do abraço forte de sua protetora... por que tinha que ter estragado tudo?! As lágrimas tão comuns nesses dias desceram mais uma vez pelo seu rosto pálido e abatido.
            Setsuna caminhava silenciosamente em direção a quase-maga. Tinha um nó sufocante no peito. Podia sentir a tristeza e dor emanando desta e sua própria dor crescia. Tinha que consertar aquela situação, não agüentaria mais viver sem ver o sorriso de Konoka. Precisava dele para existir realmente. Por que fora tão estúpida em sua reação diante do que acontecera com Setsuna-P? Podia muito bem ter gritado com sua protegida (apesar de que tinha certeza que nunca teria coragem para isso) e perdoado-a em seguida. Mas não... tinha que complicar tudo...
            - Acho que precisamos conversar... – Konoka quase teve um enfarte quando ouviu a voz de Setsuna ao seu lado. Virou e constatou que era mesmo a espadachim quando seu coração deu um salto no peito. A mesma reação interna se passou na outra ao ver as lágrimas no rosto de sua protegida.
            - Ah... Set-chan... – a quase-maga não esperava pela iniciativa da outra de se aproximar para conversar. Setsuna encostou-se também no parapeito para apreciar a vista, não sabia muito bem como dizer o que na sua mente era tão fácil.
            Houve mais um minuto de silencio entre as duas garotas. Setsuna sem saber como remover a camada espessa de gelo entre elas e Konoka se sentindo indigna de falar qualquer coisa que fosse. Por fim a maga decidiu que as desculpas eram um bom começo:
            - Sinto muito por tudo, Set-chan.... – a espadachim prendeu a respiração ao ouvir aquilo: ela, uma reles meio-uzoku, recebendo desculpas da futura herdeira das Associações de Magia do Japão? Simplesmente absurdo. – Sei que você deve ter sofrido muito por ver... bem... o que viu entre mim e... a Setsuna-P...
            Setsuna notou o nome que Konoka usara. Um fio de alegria se instaurou no sei peito ao perceber que, apesar das coisas que havia feito Konoka ainda tratava Setsuna-P como devia: apenas como um shikigami:
            - É... – Setsuna percebeu o som que escapou de seus lábios como resposta a seus pensamentos. Konoka sentiu a coragem de falar diminuir muito: realmente Setsuna ainda a odiava. Entrementes a espadachim chegava a conclusão de que realmente a voz da maga,mesmo fraca e entrecortada, era um elixir que refrescava sua alma.
            - Sei que fui uma idiota Set-chan... – continuou a quase-maga reunindo todas as forças que tinha. Mesmo que não fosse mais poder viver o que sentia por sua guardiã, deveria contar a esta o quanto estava triste e arrependida. Mesmo que fosse para receber um adeus em seguida por ser a patricinha mais mimada e desprezível de todas. – Não queria que você sofresse... eu...
            - Todos erram, não? – Konoka ficou paralisada quando ouviu a espadachim tomar a palavra. Ia ouvir tudo o que merecia afinal. – Até mesmo herdeiras de famílias poderosas podem errar, não acha?
            A garota não conseguiu distinguir de primeira o significado das palavras de Setsuna. Observou o mar sem compreender, mas rapidamente o entendimento lhe chegou ao pensamento e ela olhou assustada para o lado dando de cara inesperadamente com os olhos castanhos que tanto a fazia sonhar. Não podia ser o que achava... seria bom demais... mas, pensando bem, seria uma atitude digna de um ser tão magnífico quanto sua Set-chan.
            Setsuna engoliu em seco. Os olhos de sua Kono-chan nos dela, depois de uma semana que mais parecera séculos de distancia. Tinha que terminar o que começara. Não poderia conter-se por mais tempo encarando aqueles olhos negros tão belos:
            - Por que não deixamos tudo isso pra lá... já passou mesmo. – disse a espadachim deixando uma lágrima escapar-lhe por um sentimento estranho que não sabia descrever: tudo o que sabia que estava a um passo de voltar a sonhar.
            - Você... Set-chan... você me perdoa? – perguntou Konoka sem acreditar no que ouvia. Era mesmo aquilo?! Tinha vontade de gritar e medo de morrer a qualquer momento. Como uma espadachim tão linda e perfeita podia amar-lhe daquele jeito? Não merecia tal benção...
            Setsuna sorriu de lado. O sorriso mais incrível do universo para Konoka. O sorriso que dava uma vontade de viver sem precedentes na quase-maga branca. Precisava mesmo daquele sorriso para viver:
            - Eu não sou capaz de sentir raiva de você Kono-chan... – na mente de Setsuna não havia espaço para qualquer culpa ou vergonha agora. Podia expressar o que sentia da melhor maneira possível em palavras. – Eu não posso viver sem o seu sorriso... Kono-chan...
            O tempo pareceu parar. As duas garotas se encararam e suas mentes estavam vazias. Não pensavam, apenas se olhavam nos olhos como se nunca tivessem se visto. O olhar entre elas lembrava o do dia em tinham mesmo se visto pela primeira vez. Profundo e eterno, cheio de um sentimento inexpressável que surgia quando duas pessoas estavam se tornando parte uma da outra pela alma. Realmente Setsuna-P não existia mais e na vida delas. Um sorriso brotou nos lábios de Konoka enquanto o de Setsuna se abriu um pouco mais:
            - Você é um anjo.
            - E você a patricinha mais linda de todas.
            Konoka riu da piada inesperada de Setsuna. A espadachim sentiu a alma se iluminar ao ver aquela alegria. Teve certeza naquele momento que poderia passar a vida inteira fazendo a garota sorrir e sorrir novamente para ela. Seria uma vida maravilhosa com certeza. Não... talvez sorrir somente não fosse tudo o que quisesse.
            Setsuna encostou seus lábios nos da sua protegida num impulso. A aprendiz de magia se surpreendeu por um momento, mas rapidamente se localizou e se entregou a sensação de ter os lábios carinhosamente tomados pelos de sua guardiã. Setsuna podia ver a luz do pôr do sol pelas pálpebras, mas tudo o que percebia éramos beijos de sua, sim, novamente sua, Kono-chan. O momento pareceu durar vários minutos e quem sabe tenha durado até que Setsuna se afastou e contemplou o rosto mais feliz da galáxia que era o de Konoka.
            Konoka quase não conseguia conter-se para não sair pulando de felicidade: realmente seu anjo era uma criatura única e perfeita. Nunca haveria ninguém em seu coração além de sua Set-chan. Percebeu que, mesmo que cruzasse novamente com uma Setsuna-P, depois de sentir o quão grande e maravilhoso era o sentimento que havia entre elas, não cairia novamente na armadilha de se deixar levar por outros braços. Somente sua Set-chan a fazia sentir aquele sentimento indescritível, o que fazia ela achar que a vida só existia ao lado dela:
            - Eu te amo Set-chan. – a quase-maga não conseguiu deixar de expressar o que sentia na frase que mais se aproximava do tamanho de sua felicidade. Outra lágrima escorreu pelo rosto de Setsuna. Não gostava de chorar, mas sua emoção era maior que qualquer pudor.
            - Melhor voltarmos para junto do pessoal antes que venham nos caçar. – disse a espadachim. Claro que preferiria ficar a sós com sua Kono-chan, mas a prudência sempre vinha antes na mente dela. – Não acha, Kono-chan?
            - É... -  o sentimento de ouvir a voz de sua Set-chan chamando-a pelo apelido que somente ela tinha permissão de usar com aquele tom de voz carinhoso era mais do que Konoka imaginara ter depois de tudo o que havia ocorrido. Mas... pensando bem: o que tinha acontecido mesmo? Realmente era melhor deixar o passado bem enterrado no passado e só viver o hoje.
            Setsuna tomou uma das mãos de Konoka com a sua para conduzi-la de volta para a inevitável realidade. Ambas perderam-se na troca de olhares mais uma vez, espadachim admirando aquele sorriso que a fazia sentir-se viva e a quase-maga saboreando os olhos doces de sua guardiã e o calor da sua mão na dela.
            Konoka despertou de seu devaneio ao ouvir uma explosão distante. É... não tinham como fugir do mundo real. Mas isso não tinha importância na frente do fato de ter sua Set-chan novamente com ela. Esse pensamento fez o sorriso da garota aumentar. Dando um rápido beijo em Setsuna rumaram de volta para o mundo.
            “Como ela parece tão melhor só com a sua presença...” comentou a consciência de Setsuna referindo-se a cor que parecia estar de volta quase que normalmente ao rosto de Konoka. Apesar de desconcertada com o pensamento, a shinmei ficou feliz por ter certeza que dali pra frente não haveria mais ninguém entre elas (talvez excluindo os conselhos das Associações de Magia do Japão, mas ainda era muito cedo para pensar em qualquer coisa desse tipo).
            Eu e você mais uma vez...(pensou Setsuna).
            Uma nova chance... (pensou Konoka).
            “Ah... como o amor é lindo”
            ...
            - Adolescentes são mesmo ridículos e idiotas quando se trata de amor... – conclui Evangeline do conforto da sua leitura.

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