quarta-feira, 4 de agosto de 2010

[Lives] 25 - Felicidade


            O golpe foi fulminante.
            Setsuna atacou com tanta velocidade e precisão que foi apenas por meio milímetro que Setsuna-P esquivou-se de um ataque que seria o único da batalha. O impacto do ki emanado pelo corte que acertou o ar foi tão forte que a ex-shikigami foi empurrada mais de três metros a frente, afastando-se de Konoka.
            A quase-maga, por sua vez, só percebeu a cena quando viu Setsuna um pouco a sua frente, a Yuunagi esticada ao lado logo após executar o ataque, seus olhos voltados na direção de Setsuna-P. A shinmei na verdade nem pareceu tocar-se naquele instante da existência de Konoka que arrepiou-se ao perceber isso. Só não se sentia mais atordoada com a súbita interrupção por que, desta vez, ela não queria MESMO a aproximação da quase-garota. Desta vez ela não havia feito nada que pudesse ser repreendido. Mesmo que fosse bem humilhante, ela era a vitima desta vez.
            Setsuna, porém, apenas pensava em destruir. A verdade é que, dentro de toda aquela história, o seu maior medo era o de sucumbir ao ódio que o sangue dos uzokus lhe trazia. Mas, ao ver Konoka sendo... atacada(!) por aquela criatura nojenta que era Setsuna-P... qualquer medo ou receio sumiu completamente de sua mente deixando apenas espaço para um instinto primitivo de ferir e fazer sofrer.
            Pee surpreendia-se com a força e velocidade do ataque que recebera. Sua “criadora” era muito poderosa, mesmo fazendo-se de “guarda-costas-dedicada-e-amorosa” ela era uma espadachim mortal... Isso era perigoso. Porém algo dentro da ex-shikigami a fazia sentir-se muito excitada pela luta. Aquela era sua oportunidade perfeita: Setsuna estava completamente cega pelo rancor, era a oportunidade perfeita para vence-la em pequenas falhas. Era a sua hora de vencer.
            Porém aquela ela uma batalha muito mais importante do que poderia sugerir o local e ocasião. As três pessoas ali lutavam umas contra as outras e contra si próprias. 



Ansiedade fazia o coração de Setsuna-P acelerar em demasia antes mesmo do esforço físico. Aquela era a oportunidade que tanto esperava. Mesmo que todo o Universo achasse absurda sua idéia fixa de se tornar Setsuna Sakurazaki, ela sabia que o Destino a ajudaria. Exatamente como estava fazendo agora. Estava marcado para ser assim. Era o sentido da sua vida. Ela havia nascido para isso. Necessitava disso... porém sua mente lhe dizia a verdade por detrás de tudo: ela amava. Como uma shikigami havia se apaixonado verdadeiramente? Por que Konoka não percebia que ela era a pessoa certa, mesmo que tenha iniciado sua existência de uma maneira meio “inusitada”? Sentir a rejeição da quase-maga a havia cortado a alma recém-criada. Mas isso mudaria assim que ela matasse a sua.... “criadora”.
            “Eu tenho o direito de ser feliz”.




            Setsuna golpeou novamente com uma força fulminante. Pee mal teve tempo de sacar a espada para bloquear, ainda assim sendo arremessada mais alguns centímetros para trás. Que força brutal era aquela?! Realmente se surpreendia com o poder que sua “criadora” demonstrava. Realmente o ódio era um sentimento poderoso. Ergueu o rosto para a adversária mostrando seu típico sorriso sarcástico. Gostava daquilo. Era mesmo uma luta incrível que marcaria sua passagem para a verdadeira vida.
            Entrementes a espadachim shinmei sequer piscava. Não enxergava nada além de seu alvo. Tudo o que importava era matar. O sorriso no rosto da “shikigami” aumentava sua ira. Aquilo era confuso, afinal era o seu rosto o que encarava com tanta ferocidade. Mas essas questões filosóficas podiam ficar para depois.
            Pee só teve tempo de avaliar a situação antes de ter que esquivar-se de outro ataque altamente destrutivo. Porém desta vez Setsuna havia errado feio demais. Exatamente como a praticamente-garota esperava que ocorresse. Durante um único segundo Setsuna viu-se com as costas expostas a um ataque certeiro da inimiga. Pee alargou mais o sorriso antes de emitir um golpe formado de ki contra as costas de sua “ex-chefa”.
            O impacto foi fulminante, arremessando Setsuna na parede mais distante de onde estava Konoka. A shinmei apoiou-se na parede para levantar sentindo o sangue na garganta. O mundo girava ao seu redor. Fora descuidada. Se continuasse se deixando levar cegamente pelo rancor acabaria morta. Na verdade não sabia como ainda não o havia.
            Na verdade Setsuna havia sido poupada pelo instinto suicida de Pee de “brincar com a comida”. Ganhar apenas não bastava, tinha que fazer a garota sofrer toda a humilhação que a fizera passar. Só assim se sentiria bem para viver a sua nova vida que a aguardava. Pee era só confiança enquanto caminhava lentamente na direção de Setsuna. Seu sorriso enlouquecido era enorme, quase demente. Konoka não gostava nada da virada que a batalha estava tendo.
            Porém, a experiência da “shikigami” não chegava aos pés da de sua ”criadora”, infelizmente a segunda não podia nunca ignorar essa fato sem conseqüências. Setsuna nunca desistiria tão fácil de sua felicidade:
            - ZAN TETSU SEM!!! - berrou a meio-uzoku com um golpe diagonal veloz como um raio.




            O golpe fora completamente inesperado. Por uma questão de sorte, ou quem sabe de capricho do Destino, Setsuna-P estava com a espada larga e curta na frente do corpo, bloqueando parcialmente o golpe, do contrário aquele teria sido fatal. Antes mesmo de ser atirada pelo impacto do ataque, Setsuna-P pode sentir o corte profundo abrindo-se na calça de couro negro e na sua coxa esquerda.
            CRASH!
            A garota foi atirada pela sala até o canto oposto, quebrando parte da parede. De cara no chão, Pee sentiu tudo rodar ao seu redor. Que sensação horrível era aquela?! Mas não foi pior do que a dor que logo se alastrou pela coxa ferida profundamente que sangrava. A "shikigami" apertou os olhos pela dor ainda caída e gemeu baixo. Nunca havia sentido dor na vida, ainda mais de um ferimento sério como aquele. Não conseguia pensar em nada além da dor lancinante que rasgava sua perna. Como podia existir algo tão terrível assim?!
            - Surpresa?
            Pee ergueu com dificuldade a cabeça para tentar encontrar o dono do comentário. Viu Setsuna caminhando lentamente na sua direção. Não sorria, mas o tom de satisfação na voz da garota era evidente. Por um momento a quase-garota não conseguiu reconhecer o rosto que via tamanha a sua confusão. Somente um instante depois percebeu que havia marcado feio. Que praticamente havia entregue a vitória nas mãos da adversária:
– Isso se chama dor. E isso é tudo o que você vai ter nessa sua curta vida miserável. – continuou sobressaltando Konoka que fintou sua protetora. Quem afinal era aquela pessoa que dizia coisas tão terríveis e destrutivas? Podia mesmo sua amada Set-chan ter um lado “assim”? Konoka ainda não havia percebido algo muito simples nesse instante:

Todos têm um lado “assim”.




Ódio era tudo o que havia no coração de Setsuna. Os pensamentos eram como raios de luz em meio as trevas do rancor profundo que sentia e não conseguia mais suprimir. A traição de Setsuna-P nunca lhe desceria pela garganta. Havia lhe confiado a segurança de Konoka e ganhara uma apunhalada nas costelas quando mais temia que algo acontecesse. Era injusto, era cruel. Aquela criatura infeliz dizer que ela era quem merecia ser Setsuna Sakurazaki! Que absurdo! Mesmo que sua vida não fosse a mais bela e calma de todas, ela tinha o mais importante: sua Kono-chan. Demorara tanto tempo para começar a viver o amor que sempre carregara no peito... logo quando seu maior sonho se tornava realidade... Pelo menos iria terminar com esse pesadelo naquela noite. Iria matar, pela primeira vez com gosto, por que lutava por algo que era único.
“Eu vou recuperar a minha felicidade!!!”.




- Sua... – tentava contra-ameaçar Setsuna-P, porém sem conseguir pela dor que sentia. Era mesmo uma criatura que não merecia a vida maravilhosa que tinha aquela espadachim confusa.
Setsuna parou de caminhar a alguns mestros de Pee, encarando-a sem alteração alguma. Interiormente a espadachim shinmei deliciava-se com o sabor da vingança. Era mesmo ótimo ver a ex-shikigami, quase humana, se contorcer de dor. Seria certo sentir aquilo? Não estaria se tornando igual a Setsuna-P agindo daquela maneira?
“Droga! Você não é a tampinha da Yue pra ficar filosofando uma hora importante como essa!” disse bruscamente o único pensamento que chegou a sua mente naquele momento. Sim, não tinha tempo naquele momento para bobagens como ética ou moral. Tinha um assunto pendente muito sério para resolver.
- Você vai pagar... por... tudo... – disse Pee apoiando-se nos braços para se levantar com muita dificuldade. – Eu... vou ter a... vida que... – continuou estabilizando-se fragilmente sobre as pernas. -  Mereço!
A ex-shikigami apoiou-se fragilmente sobre as pernas, uma expressão de dor surgiu em seu rosto no lugar do sorriso debochado e frio. Ofegava pelo esforço de suportar a agonia, o suor escorria-lhe pela face pálida. Precisou utilizar a espada que por milagre ainda estava em suas mãos para não desabar novamente. Encarou com toda a força que conseguiu reunir os olhos da sua... criadora! Como sentia desprezo e repulsa pela espadachim que tinha tudo o que não merecia e ainda era tão audaciosa a ponto de achar-se capaz de decidir quem merecia ou não viver:
- Prepare-se para deixar de existir. Este vai ser o último ataque. – disse Setsuna que também suava pela adrenalina.
- É... só é preciso mais esse ataque para que você pereça... espadachim shinmei. – rebateu Pee com a voz quase sem falhar. Reunia todas as forças que possuía no seu quase completo corpo para desferir o golpe final.
- Set..... chan... – Konoka não conseguia respirar diante daquela situação suspensa no tempo. O medo dominava seu coração.




Medo. Este era o sentimento que ecoava no coração de Konoka. Ver uma luta tão violenta entre Setsuna e Setsuna-P a apavorava imensamente. Era terrível. Qual das duas sairia vencedora? Quais seriam as conseqüências daquela batalha? Por que era tão difícil ser feliz?! Droga, tudo o que a Konoe queria era poder viver uma vidinha reles e tranqüila, contanto que fosse ao lado de sua Set-chan... Set-chan, como havia sido incrível ter se entendido com a espadachim... A vida era mesmo uma peça muito sem graça!
            “Eu só quero ser feliz!”.




Um trovão distante. Foi o sinal. As duas guerreiras avançaram para o confronto.   




O que se passou no segundo seguinte foi como um raio. Os brilhos das lâminas cortando o ar com rajadas audíveis como chicotadas. Yuunagi voou longe ao ser atingida pela lâmina pesada de Pee. Outra rajada de vento de espadas. No momento seguinte as duas “setsunas” estavam encarando-se a dez centímetros de distância. Pee podia sentir a respiração da adversária contra a sua face.
Uma respiração fora do compasso.
A ex-shikigami apoiou-se dando dois passos para trás. Pode sentir a lâmina de sua espada que proferira o golpe desprender-se de algo. Ergueu-a, estava ensangüentada. Definitivamente era sangue o que havia ali. Mas era mais do que isso. A quase-garota não conseguiu conter o sorriso que tomou conta do seu rosto, um sorriso selvagem e quase fanático. Aquele não era apenas sangue.
Era o símbolo de sua vitória.
Encarou os olhos de Setsuna que permanecia na mesma posição de antes. Recebeu seu olhar em resposta. Sério e concentrado. A espadachim endireitou-se, sua mão sem a Yuunagi encoberta pelas sombras. A espada caída como uma varetinha ao canto. Não havia expressão distinguível em seu semblante:
- Eu... venci. – anunciou Pee erguendo a lâmina de sua espada ocidental. O seu sorriso frio e homicida cresceu. – Eu vou viver... – havia vencido afinal, nada mais importava. Nem o corte na coxa, ou a pontada que sentia no ombro esquerdo, próximo ao pescoço.
Mas Setsuna não demonstrou fraqueza ao ouvir aquelas palavras. O que havia? Devia estar dobrando-se em dor, afinal fora um golpe fatal.
- O que há?! Por que você não admite que perdeu?! – Pee estava irritando-se com a falta de reação da adversária derrotada. Aquilo era estranho. Mas por que aquela pontadinha no pescoço incomodava tanto afinal.
Ao invés de dizer algo, Setsuna ergueu a mão que devia segurar Yuunagi. Estava sangrando, afinal estava cortada em dois pontos. Mas o que isso queria di....
- Dois cortes?...... Dois? – as idéias começaram a formar-se com clareza para Pee. Dois cortes, como se tivesse segurado uma lâmina de dois gumes com ela, uma lâmina exatamente como a de sua espada... – Não pode ser....argh!
A pontada no pescoço doeu intensamente e a garota levou a mão ao local e sentiu o estomago contorcer-se: havia uma espada de uma lâmina de mais de trinta centímetros cravada até o cabo no seu pescoço:
- Shika........... Shi...shik-kushiro? – gaguejou sentindo o sangue invadindo-lhe a garganta. Provavelmente era sangue do pulmão perfurado que devia estar agora. Porém em alguns minutos o sangue seria também o de seu estomago ou até quem sabe do coração. – S-s-ua....
- Você perdeu Setsuna-P... – disse a espadachim para o horror da ex-shikigami.
Isso porque era a absoluta verdade: havia sido vencida e provavelmente morreria em menos de vinte minutos mesmo que a shinmei nada fizesse. O golpe havia sido mesmo fatal.
Tremendo por inteiro Pee puxou a lâmina do pescoço. A dor não era o maior problema, sabia que não sobreviveria aquele ferimento e em pouco tempo não teria forças sequer para tentar fugir. Não tinha um segundo a perder. Correu com toda a velocidade pela porta desaparecendo pelo corredor:
- Covarde! – exclamou Setsuna fazendo menção de ir atrás da “shikigami”. Queria ver a garota morrer sentindo dor. Precisava daquela vingança. Mas a falta da presença da quase-garota, mesmo que por um segundo, fez sua consciência voltar a funcionar.

“Ela está acabada. E mesmo que não esteja você tem alguém que precisa muito mais de você agora”.
Sim, como poderia ter pensado em seguir a shikigami?! Virou-se para o canto onde Konoka parecia prestes a desmaiar. Como deveria estar se sentindo?
“Como você se sentiria depois de ser atacada covardemente e ainda ter que assistir a pessoa que você mais confia agir como uma psicopata sanguinária?”
...
O silencio permaneceu por mais de um minuto enquanto Setsuna e Konoka se encaravam. A espadachim não encontrava palavras. O que havia para se dizer?
“Que tal: ‘Kono-chan, sinto muito por ser uma criatura destruidora e vil?’”.
Talvez fosse melhor não dizer nada. Apenas fazer.

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