quarta-feira, 4 de agosto de 2010

[Lives] 26 - O ecoar do trovão


            - Aquela vaca fez isso!?!?
            Asuna e Setsuna caminhavam por um dos corredores da república estudantil do colegial de Mahora. A noite já caíra há algumas horas e o frio se espalhava por causa da fraca neve que caía sonolenta marcando o definitivo inicio do inverno. A ruiva andava de um lado para o outro na mesma parte deserta do corredor, não muito distante do apartamento de dividia, bufando. Acabara de ouvir boa parte da narrativa da amiga sobre o que acontecera no salão de banho uma hora e meia antes. Parecia mesmo muito revoltada:
            - A-Asuna... – o volume da voz da garota fizera Setsuna despertar um pouco do seu transe e se preocupar com a possibilidade de alguém ouvir a conversa. Observava de lado a amiga encostada no parapeito do corredor do terceiro andar.
            - Foi mal. – desculpou-se a baka red sem para no mesmo lugar. – É sério isso que você me disse? Aquela.... sei lá o que fez mesmo isso com a Konoka??? – não conseguia acreditar assim tão facilmente que realmente algo assim acontecera, era absurdo demais.
            - ... – a espadachim hesitou. Era difícil falar sobre o que acontecera, só o estava fazendo por que sabia que quando a amiga colocava na cabeça que queria saber de algo, nada a faria parar. – Foi... e se eu não tivesse aparecido... não sei o que mais teria acontecido...
            Asuna engoliu em seco. As possibilidades passaram como um relâmpago pela sua mente e ela corou:
            - Que horrível... não é a toa que você e a Konoka tenham chegado com aquela cara... e que a Konoka tenha ido direto pra cama sem dizer nada... puxa...
            - Hunf... – era, realmente não era estranho que sua Kono-chan reagisse daquela maneira... não era nada estranho que a quase-maga não dissesse uma palavra sequer depois de tudo o que presenciara naquela sala.
            O coração de Setsuna doía intensamente. Era uma dor diferente das outras que a ex-shikigami já lhe havia feito sentir. Antes tudo o que havia era o ódio, porém dessa vez havia algo diferente: remorso. Como poderia ter se deixado levar pelas emoções daquela maneira? Como podia ter feito sua Kono-chan presenciar uma luta tão feroz e terrível? Parecia que aquela batalha lhe havia roubado toda a força:
            - Ei, não é estranho que você tenha partido com tudo pra cima daquela... coisa, depois de ver o que viu! Por que essa cara afinal? – questionou Asuna sem entender o porquê de tanta sombra no rosto da amiga. – Você não se saiu melhor? Agora está provado que Setsuna-P não vai poder te vencer.
            - Eu... perdi a cabeça Asuna... eu não devia... – respondeu a shinmei sem fazer questão de completar as frases. Era impossível fazer a outra entender o que sentia.
            - Mas você salvou a Konoka! Quando vocês chegaram até pareceu que foi o oposto! Você nem conseguiu dizer um “boa noite” pra ela! Por quê?! – a ruiva já estava começando a se irritar com a amiga. Como podia gostar de complicar tanto as coisas?!
            - Eu não devia ter feito tudo aquilo... eu.... agi como...
            - Como? – Asuna estava prestes a pular de curiosidade por uma explicação decente para tanto escândalo.
            - Como uma hanyou de uzoku? – perguntou uma voz atrás das duas garotas que viraram-se surpresas.
            - Negi-sensei?! – exclamou Setsuna. Não acreditava que acabara de escutar tais palavras do garoto, mas não havia dúvidas, o olhar sério que ele lhe dirigia era incontestável.
            - Negi? – Asuna não conseguiu entender o significado das palavras do mago. ”Todo mundo gosta de falar estranho aqui, droga?!”.
            - Você está se sentindo mal por que agiu de acordo com seus instintos não é Setsuna? – questionou o garoto sem se mover. Como um menino podia impor respeito com aquela cara fofa? Isso era um mistério, mas o fato é que Setsuna sentia profundamente mexida com aquelas palavras.
            - N-Negi-sensei... você...
            - Negi, o que você ta querendo dizer? – questionou a baka red ainda mais confusa.
            O mago respirou fundo antes de falar:
            - Até quando você vai ter nojo de si própria Setsuna?
            O silêncio recaiu a cena como se todo o frio do inverno invadisse o lugar. Setsuna encarou os olhos escuros do mago, estupefata. O garoto por sua vez manteve seu olhar firme e determinado, não parecia ter o mínimo receio das próprias palavras proferidas. Asuna, porém, estava boquiaberta: como o menino tinha coragem de dizer algo assim? Nem parecia o mesmo Negi de sempre. Que jeito de falar era aquele?
            - N-n...não é... – tentou dizer a espadachim sem conseguir terminar a frase, percebeu que seu corpo tremia e apertou com força o corrimão ao seu lado.
            - Claro que é isso Setsuna! – esbravejou o garoto. – Todo esse remorso que você está sentindo é puramente por culpar-se por ter se deixado levar por seu instinto de uzoku e ter atacado ferozmente Setsuna-P diante dos olhos da Konoka! Você não que ela soubesse que você também pode ser alguém feroz como um uzoku, não é?
            A respiração de Setsuna estava descompassada. Como podia um mago de 12 anos achar que sabe tudo sobre seus sentimentos? E o pior, como ele podia estar absolutamente certo? Reuniu determinação para responder:
            - Você não sabe o que um hanyou tem que enfrentar por ser...
            - Um monstro?! Era isso que você ia dizer Setsuna?! – esbravejou Negi agora claramente perdendo a calma. Asuna estava assustada com aquele confronto. Quem era aquele ali? Não podia ser o Negi-bouzu que conhecia...
            - É essa a verdade. – respondeu Setsuna mantendo a voz firme. Por que era tão insuportável ouvir um humano falar essas coisas? – Eu sou um monstro.
            - NÃO É VERDADE!! – berrou Negi fazendo uma ventania correr o corredor. VOCÊ NÃO É UM MONSTRO! Sua..........
            O vento continuou soprando forte enquanto Negi parou e fechou os olhos lutando para não falar qualquer coisa realmente inútil naquele momento. Droga, nunca pensara que precisasse chegar a esse ponto, mas ao abrir os olhos e ver o choque nos de Setsuna o garoto percebeu que pelo menos havia conseguido chegar ao ponto que queria. Não precisaria mais ir tão longe para abrir os olhos da amiga. O vento parou:
            - Enquanto você tiver vergonha do que é, Setsuna você sempre vai se ver diante desse remorso tolo por não aceitar você mesma: uma hanyou de uzoku. – a voz do mago tremia, sabia que tinha que dizer tudo aquilo, mas ainda era difícil não sucumbir as lágrimas. Como era ruim ainda não ser adulto.
            - Negi.... sensei... – Setsuna estava estupefata. Aquelas palavras eram como um chicote invisível acertando-lhe o rosto.
            - Sinto muito te dizer essas coisas Setsuna. Mas você não pode punir-se e a Konoka por esse seu medo de aceitar-se. Ela não merece sofrer vendo sua protetora afastar-se por algo assim e tenho certeza de que era isso que pretendia fazer a partir dessa luta contra Setsuna-P. Eu só quero o seu bem.
            Mais um longo silencio se seguiu. Asuna assistia a toda a cena sem dizer nada. Estava impressionada com o professor-mago. Tanta maturidade na voz ainda infantil do menino a assustava e surpreendia. Não imaginava que o mago pudesse ser tão duro para ajudar alguém. Talvez estivesse mesmo subestimando-o:
            - Sei que você passou por coisas difíceis hoje, mas não torne tudo ainda pior com essa b-besteira. – agora definitivamente a voz de Negi falhava, não estava mais quase conseguindo conter as lágrimas. Por que ainda era tão infantil? – Melhor descansar, ainda vai acontecer muita coisa...
            E sem dizer mais nada o garoto virou-se e tomou o rumo do apartamento. Orgulhoso, mas ainda assim receoso do que fizera. Teria sido duro demais? Mas algum dia a shinmei precisaria ouvir isso para cair na real, melhor que fosse antes de causar ainda mais dor a si própria e a Konoka. Esperava ser entendido e perdoado, afinal é dever dos magister magi lutar pelo bem das pessoas, e era isso o que tinha acabado de fazer.
            No corredor, Asuna e Setsuna permaneceram em silêncio ainda por mais de cinco minutos. A ruiva não sabia o que dizer a amiga, estava bem confusa também. Temia piorar ainda mais a situação. Por que Negi havia feito uma coisa dessas logo naquele momento? Será que não percebia o quanto a espadachim estava fraca pela situação? Será que era mesmo um pirralho incapaz de ver quando não é hora de um sermão construtivo?
            - Hu........ obrigada Negi-sensei. – disse Setsuna surpreendendo a amiga que se sobressaltou. - Você se tornou mesmo um bom educador. – disse ao vento antes de virar-se para ir em direção ao seu quarto, porém antes de virar-se Asuna pode ver uma lágrima escorrer pelo olho da garota.
            Sozinha, Asuna não pode concluir outra coisa em seus pensamentos:
            “Mas que coisa mais doida!”





            A neve caia lentamente diante da janela do quarto de hotel onde Mash Magno se hospedava. Dentro do aposento o mago que adorava apreciar a beleza da natureza via-se impedido de fazê-lo aquela noite devido as pequenas aventuras que sua querida e mimada “garotinha” havia aprontado:
            - Como você foi descuidada querida... – lamentava-se o mago terminando de curar o pulmão de Setsuna-P colocando a mão sobre as costas da quase-garota encolhida sobre uma poltrona. – Mais dois minutos e eu não teria como salva-la.
            Pee nada respondeu. Ainda repassava mentalmente a batalha de algumas horas antes. Não conseguia conformar-se com a derrota, era amarga. Porém algo a atormentava ainda mais do que a dor...
            - Por que você não esperou a hora certa querida? – continuou lamentando-se Mash. – Você sabe que só faltam 4 dias para que o processo do Chikarasei sobre o seu corpo terminar. Mesmo que já tenha um corpo que seja tangível, sangre e faça você sentir dor, ele ainda depende do amuleto para existir. Se tivesse sido arrancado você desapareceria.
            - Eu sei... Mas... – claro que sabia dos riscos que ainda corria nessa etapa final da transformação, como aquele mago velho era óbvio. – Eu precisava...
            - Encontrar com Konoka Ojou-sama? – completou o homem de cabelos grisalhos sem tirar a mão das costas da garota, terminando de reconstituir seus tecidos internos. – Eu sei que você a ama querida... e é por isso que a admiro ainda mais.
            - Como assim? – perguntou a garota fazendo uma careta de dor.
            - Não consigo deixar de me impressionar com você, querida, vendo como um shikigami pode desenvolver um sentimento tão puro e nobre.
            - Eu.... não amo Konoka Ojou-sama. – disse Setsuna-P observando os flocos de neve, mas Mash não levou a sério a farsa.
            - Querida... sei que você deve ter sofrido uma dor horrível... Não durante a batalha, mas antes dela, quando sentiu a rejeição. Senti isso quando você chegou, sua alma estava tão ferida quanto o seu corpo... Mas você não pode negar a si própria o que sente.
            - Você... é um velho idiota. – respondeu Pee mal-criada, mas o mago sorriu à agressão.
            - Você está condenada a amar Konoka Konoe até o dia em que provar o verdadeiro amor. – disse ele terminando a cura e sentando-se de frente para a quase-garota para encará-la. Ela expressou toda a sua confusão com a frase no seu olhar de volta a ele.
            - Ah... E você está condenado a seguir a sombra do “Alma de Gelo” para sempre. – contra-argumentou ela conseguindo tirar o sorriso convencido da cara do mago que preferiu olhar para a noite de neve.
            - Hu.... você é mesmo admirável querida... Agora só faltam 4 dias pra nossa entrada em Mahora...
            Setsuna-P estalou:
            - Não! Nós não vamos mais esperar! – retrucou como se ordenasse e Mash ergueu as sobrancelhas para ela.
            - Hu hu hu... Certo, certo... você é quem sabe. Ainda mais agora que eu lhe dei este pequeno segredo para não mais perecer diante de sua criadora... Você é quem decide a hora de invadir Mahora.
            Pee tirou do bolso algo pequeno como uma bolinha e analisou. Sim, se tivesse aquilo na hora da batalha contra Setsuna... Mas da próxima vez seria muito diferente... Ela não teria como ser derrotada:
            - Nossa vitória está próxima querida... muito próxima...
            Sim. A vitória e sua vida perfeita estavam muito próximas. A menos de 48 horas de distância...
            “Konoka Ojou-sama... Você vai me amar.”.

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