quarta-feira, 4 de agosto de 2010

[Tales of Revolution] 04 - Tempo de mudança


A pequenina criatura esperava naquele confortável e aconchegante buraco no tronco da árvore, no pequeno parque próximo a estação de trem da cidade. Era de manhã e poucas pessoas passavam por ali, no máximo estudantes conversando animadamente indo para a escola, sorte a sua que não havia sido notado por ninguém, por que com certeza isso teria causado um incomodo tumulto como o da última vez que havia conhecido a prisão junto com sua amável dona. Realmente os humanos são estranhos, fazendo confusão desnecessária.
                Alias, onde estava sua dona naquele momento? Nunca havia passado uma noite sem sua amada criadora, ainda bem que era bem adulto e não tinha medo por coisas bobas, mas de todo modo se preocupava com ela: estaria bem? Talvez tivesse sido presa por algum motivo aleatório!! Ou pior.... dormido na rua, por ai.... isso o assustou muito realmente. Tinha que procurá-la! Ele era afinal o guardião dela! Como ousava ter repousado tranquilamente (nem tãaaao tranquilamente assim) naquele confortável buraquinho sem saber onde sua dona estava??? Droga, mais um pouco e poderia chamar-se de rato, apesar de que algumas pessoas já o haviam chamado assim, mesmo sem ele entender o porquê.
                Sacudiu a poeira da noite paradinho ali na árvore e olhou ao redor, talvez tivesse e procurar um bocado, mas com certeza a encontraria! Nossa, por que tudo nos últimos tempos tinha que resultar em uma busca? Provavelmente tinha adquirido a mania da dona, é o que dá dividir a cama por tantos anos:
                - Ele deve estar em algum lugar por aqui, tenho certeza. – escutou uma voz calma falando de um pouco mais além da árvore, ele se assustou porque estava prestes a saltar para o chão e teve que se segurar abruptamente. Estaria enrascado se as pessoas o levassem para o tão abrigo de animais! Mas, aquela voz........?
                - Como é que consegue saber a localização dele assim Himemiya? – perguntou outra voz feminina mais forte. O animal se arrepiou totalmente ao escutar aquilo. Não podia, simplesmente Não podia acreditar no que tinha escutado!!! Depois de tanto tempo! De tantas aventuras perigosas que enfrentara com sua dona.... finalmente... não podia acreditar!!
                Esperou durante mais alguns instante escondido até que Anthy Himemiya e Utena Tenjou entraram no seu campo de visão, andando lado a lado, como há tantos anos atrás. Estavam mais velhas agora, mas ainda assim tinham a mesma aura de antes, andando lado a lado, procurando de um lado para o outro por algo.... algo? Estavam procurando por ele! E ele esteve os últimos anos todos esperando por aquele momento!! Sim, era a Utena!!!
                - CHUUUUUUUUUU!!!! – berrou o pequenino macaco saltando da árvore direto para cima da cabeça da garota que se protegia do frio com um blusão grosso. Utena quase berrou ao ver a forma arroxeada vindo na sua direção, mas seu jeito ‘príncipe’ a impedira. Anthy abriu um enorme sorriso ao ver a amiga quase cair no susto.
                - Chuchu!!! – berrou a garota de cabelos rosa agarrando o animalzinho e abraçando com sua força descomunal, fazendo o bichinho até reclamar em meio aos berros de alegria. – Que bom te ver Chuchu!!
                - CHUU!! – concordou o macaquinho balançando os bracinhos de cima da mão da garota. Ele guinchava sem parar olhando para Himemiya e Utena, estava realmente feliz demais.
                - Sim chuchu! Encontramos! – concordava Anthy feliz, demonstrando como dividia a alegria e agitação da mascote. Realmente aquecia o coração da ‘príncipe’ ver como sua princesa tinha crescido. Sua?! Desde quando ela achava que Himemiya a pertencia?! Que tipo de pertencer era aquele?! Bem, se fosse de um modo um pouco diferente do que na época que ela era a Noiva da Rosa.... hein?! Mas que diaxo estava pensando afinal??
                Depois de alguns minutos de agitação os três se sentaram na grama para comer os sanduíches que a morena misteriosamente preparara, mesmo sem Utena saber quando (ela dormia?). Comeram um bocado antes de a própria puxar o assunto mais urgente a ser tratado, com o Chuchu(?!):
                - Chuchu.... eu e a Utena precisamos te dizer algo... – a outra engoliu em seco, sabia que o macaquinho não seria nada a favor do que elas haviam decidido. – É sobre o Fim do Mundo...
                Utena observou calada enquanto a outra resumia o fato de que estavam novamente muito encrencadas, e que aquilo afetaria ele, Chuchu, também, de um modo que ele não iria gostar nada:
                - Por isso, Chuchu, não queremos que você corra riscos, não deve viajar conosco. – terminou Anthy esperando a pancada atingi-la. E esta veio, na forma dos berros de protesto do macaco. Chuchu incrivelmente parecia ter até esquecido da comida para reclamar, a mais alta não conseguia entender a linguagem dele como Himemiya, mas tinha certeza de que estava protestando veemente contra deixá-las enfrentar aquele perigo todo sozinhas.
                - Eu sei que você é muito importante durante essa batalha Chuchu, mas não é disso que estamos falando... – argumentava a morena, realmente era uma cena no mínimo pitoresca, ver a mulher e o macaco discutindo o que fariam para enfrentar um homem tão poderoso que era conhecido como o Fim do Mundo. Alias que mulher linda era aquela que discutia com o animal. HEIN?!?! “DESDE QUANDO EU VIREI RETARDADA????”.
                -Chuuuu..... – Chuchu realmente não estava conformado, pra falar a verdade as duas garotas também não. Sentia tantas saudades daquela época que os três eram como uma família que o desejo delas era de poder reviver logo aqueles tempos, porém.... não faria sentido algum reviver aquilo se fosse fugindo do Fim do Mundo, enfrentando constantemente o perigo da morte.
                - Chuchu, tudo o que queremos é acabar logo com tudo isso.... – tentou confortar Utena, sendo realmente sincera. – Não sabe como eu quero poder logo voltar àquela nossa rotina boba, mas tão divertida. – completou sorrindo, sorriso que pareceu acalmar um pouco o animalzinho.
                Apesar de saberem que corriam risco quanto mais demorassem a partir daquela cidade, elas deixaram as horas daquela manhã correr sem pensar muito. Ficaram ali com Chuchu, brincando, conversando e rindo. Era como se Utena e Anthy tivessem firmado um pacto sem palavras de reviverem um pouco o passado antes de enfrentar o duro futuro que as esperava logo à frente.
                Para Utena, poder novamente sentir aquela sensação de conforto, como quando se esta com sua família, seus entes mais queridos, era reanimador. Havia tido sonhos nada agradáveis na última noite, flash de lembranças terríveis e cenas imaginárias de um destino não muito melhor. Naquele momento tudo o que queria era desfrutar do seu milagre, da companhia de Anthy, de seus sorrisos agora tão mais leves, de suas palavras que soavam tão belas aos seus ouvidos, não importa quais eram. Era ela, que tanto queria libertar, a pessoa que a fazia ter se tornado o que era, um projeto mal acabado de príncipe, ou simplesmente uma garota com idéias completamente alheias a realidade do mundo.
                Anthy sentia o coração aquecido de uma felicidade pura, o sentimento que tanto esperara durante esses anos de busca. Tantas coisas passou por aquilo, desde o começo na verdade. Desde que se tornara a Noiva da Rosa ela esperou, esperou apenas para poder ser feliz. Por muito tempo deixou de acreditar que a felicidade era possível para todos, afinal vivia na mais cruel prisão, para sua alma e seu corpo. Mas aquela garota revolucionária tivera a coragem de mudar seu destino.... para salvá-la.
                - Er.... Himemiya? – chamou sem jeito a garota de cabelos rosados, vendo o olhar perdido da outra na direção dela se prolongar por longos minutos.
                - S-Sim?! – estalou a garota corando, apesar de a sua pele morena disfarçar bem o rubor.
                - Er.... – Utena notou do mesmo modo desajeitado da outra, ficando também envergonhada por isto. – Talvez.. seja melhor nos apressarmos, não acha?
                - O que? – Anthy olhou rapidamente o relógio, percebendo que já passava da metade do dia. – Nossa! O tempo passou rapidamente mesmo! – surpreendeu-se.
                Chuchu ficou instantaneamente com uma cara tristinha, deitado na perna de Utena que sentiu uma dorzinha no coração. Por mais que amassem o Chuchu... alias, exatamente por amá-lo, elas tinham que ir sozinhas. Rapidamente Himemiya guardou tudo o que haviam espalhado e pegou o macaco no colo:
                - Chuchu, sei que vai saber encontrar seus amigos, então fique com eles até que tudo tenha passado. – pediu a garota séria para o animal.
                - Chu... – concordou emburrado Chuchu.
                - Chuchu... nos te amamos... ta? – disse Utena. Droga, como logo ela, uma garota durona estava tão afetada por aquela despedida? Bom, talvez o sentimento forte que tinha pela pequena mascote fosse o culpado, ele era quase um filho, tão próximo, tão amoroso.... “Droga! Controle-se Utena!”.
                O macaquinho ficou sem palavras diante da declaração da garota, parecia que se ficasse muito parado as lágrimas escorreriam do seu rostinho. Então sem dizer nada ele pulou na árvore e partiu pelas copas o mais veloz que pode, sem nem parar para um último olhar:
                - Assim até eu ia chorar Utena... – comentou com um sorrisinho triste Anthy.
                - Ah Himemiya, não precisa falar assim!! – ela já estava se sentindo culpada e mexida o suficiente para escutar aquela opinião. – B-bom, de todo modo temos q              ue voltar e preparar nossas coisas. – disse a garota firmando a voz e começando a caminhar na direção da saída do parque acompanhada pela morena.
                - Sim... afinal se a carta do Fim do Mundo já te alcançou... é melhor não esperarmos o que mais pode aparecer. – Utena fez uma cara mal humorada e ficou em silêncio uns segundos antes de retrucar.
                - Mas não estamos mais em Ohtori, ele não pode fazer nada contra nós aqui...
                - Utena...
                - Utena?!
                - Kaido?! – surpreendeu-se a garota-príncipe vendo-se de frente para o amigo, este por sua vez parou analisando a visão que estava tendo: sua amiga Utena lado a lado com a tal amiga que nem se lembrava que existia até ontem, as duas alias parecia que agora se lembravam muito bem uma da outra, afinal estavam conversando num tom reservado até agora pouco.
                - Porque você não foi à aula hoje Utena? – perguntou sem enrolação o garoto.
                - Bom... er... olha, eu a Himemiya, nós...
                - Himemiya? Então se lembrou mesmo da sua amiga, pelo tom que fala. – comentou Kaido com um tom anormalmente sério deixando Utena desconcertada.
                - Bom... sim.
                - Kaido-kun, eu e a Utena temos assuntos urgentes que precisam ser resolvidos, não podemos demorar muito. – interveio Anthy sorrindo para o rapaz que amenizou a expressão do rosto.
                - Assuntos? Como podem ter assuntos se Utena nem se lembrava de você ontem?
                - Bom.... – pelo visto o jovem ia ser mais insistente e inconveniente do que esperavam.
                - Utena Tenjou... – disse uma voz masculina rasgada às costas de Kaido. Os três jovens viraram para ver quem seria, afinal nenhum deles reconheceu aquele timbre.
                Eles deram de frente com um homem magro e alto, com feições amargas e um rosto cheio de cicatrizes. Ele trajava um sobretudo pesado com chapéu, o que o escondia quase por completo. Num primeiro instante Utena não entendeu porque se sentiu tão ameaçada por aquela presença, mas muito em breve saberia:
                - Quem.... – começou Kaido boquiaberto, provavelmente a aura do homem havia impressionado o jovem também.
                - Você não pode escapar do Fim do Mundo, Utena Tenjou. – disse o misterioso homem com sua voz nada amigável fazendo as garotas sentirem o mais profundo choque. Sem perceber Utena se colocou a frente de Anthy protengendo-a. Era difícil acreditar que tinha realmente escutado aquilo.
                - Hein? Fim do Mundo? Que papo é esse cara? – questionou Kaido esquecendo-se de ser polido na maneira de dirigir-se ao estranho.
                - Não se intrometa em assuntos que não lhe interessam garotinho. – disse o estranho tirando.... duas rosas negras do bolso do sobretudo. Rosas..... Ele prendeu uma na própria roupa e sorriu ameacadoramente na direção de Utena. – Crianças inocentes não devem saber das coisas dos adultos.... – riu-se ele, agora sacando uma espada que estava escondida sob o tecido pesado.
                - Hei! O que pensa que está fazendo?! Isso é uma arma! Eu vou chamar a polícia! – ameaçou Kaido com a voz mais grave e retumbante, uma tentativa sem efeito de intimidar o homem que o encarou com um sorriso malvado no rosto.
                - Garotinho... isso é uma batalha contra um príncipe fugitivo, plebeus deveriam ficar quietos.
                - Príncipe? Mas.. oQ!.... –ia questionar Kaido quando levou um golpe certeiro do cabo da espada na boca do estomago, a força aplicada foi tanta que ele tombou violentamente pra trás, completamente desacordado.
                - Kaido! – berrou Utena falando pela primeira vez desde que o homem apareceu. Não conseguia acreditar que realmente aquilo estava acontecendo, um homem, um duelista..... rosas negras, o que aquilo tudo significava?
                - Tome criança, precisa disso para duelar. – disse ele jogando a outra rosa negra para Utena que a segurou, fintando em choque a flor sinistra. – Essa rosa é especial sabe... se for despedaçada, você não terá como se mover e eu poderei te levar até meu mestre.....
                “Mestre........?
                - O Fim do Mundo.
                Utena pode sentir Anthy prender a respiração de medo logo atrás dela. Droga, mas não tinha escolha, como escaparia do duelo? Espere….. mas... para ser um duelo...
                - Como pode haver um duelo se aqui não é a praça dos duelos, sem nem os sinos tocaram? – questionou a garota revolucionária, tinha que haver um meio de impedir que aquele duelo se realizasse, afinal, nem sequer tinha uma espada para lutar, nem havia um castelo com Dios para ajuda-la, alias, o que aconteceu com Dios?
                - Príncipe da Revolução... não és tu que realiza milagres, então mostre um de teus milagres para mim.... neste duelo! – exclamou o desconhecido colocando-se em postura de ataque, neste momento sinos soaram...... sinos..... havia uma pequena igreja ali perto, mas nem sequer era algum horário de sinos soarem.... mas...
                Os sinos soaram, o sinal do inicio do duelo.
                “Não pode ser..... isso, não pode estar acontecendo.......”  foi o único pensamento de Utena antes que o homem avançasse como um raio em sua direção.

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