Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Como o acordar de um sonho

Se existe uma coisa que não existe realmente é esse tal de tempo. Pode parecer bem esquisito falar sobre isso, mas o fato é que o tempo é uma convenção que tem tanta utilidade prática quanto um lado desfavorável: o de nos tornar distante de coisas que poderíamos estar sempre próximos. Tudo porquê acreditamos realmente que dias, meses e anos são algo relevante.

Apenas ontem percebi que faz mais de dez anos desde o lançamento de uma das séries de animação que mais influenciou meu pensamento criativo: Suzumiya Haruhi no Yuutsuu. Aquilo foi uma pancada no peito. Nossa, dez anos, mas isso é tanto tempo!

Espera, é realmente tanto tempo?

De maneira inevitável meu pensamento se tornou um mar de historiografia pessoal: a época em que era uma feliz tola que organizava eventos de karaokê de músicas de anime; os dias trabalhando eventos; a capacidade de cantar mais uma vez "God Knows. . .", uma das músicas presentes na primeira temporada de Haruhi; Depois veio o desafio de mudar de um canto para o outro do país; afastamento de amigos e uma inevitável perda de boa parte da confiança e obstinação para realizar o que quer que fosse, pelo fato de ter que lidar com a jornada nada simples de aprender a viver sozinha, trabalhando para pagar aluguel em uma cidade nada convidativa como Rio Grande; então veio Porto Alegre, uma nova faculdade, a construção de novas amizades verdadeiras e então. . . Haruhi outra vez.

A música tem a capacidade de gerar um sentimento único em cada um de nós e esse sentimento não está necessariamente preso ao passado. Ouvimos música para sentir novamente o que sentíamos na época em que aquele som ficou marcado, mas nada diz que não possamos dizer que esse tempo realmente passou.

Qual a diferença entre ouvir God Knows há dez anos e ouvir agora se a sensação de ser capaz de fazer qualquer coisa no mundo em busca de sonhos ingênuos é a mesma? E daí que as leis secretas da sociedade dizem que você não pode mais ter sonhos depois dos vinte e cinco? O tal "mundo adulto" é uma chatice sem fim, com empregos medíocres e rotinas que destroem qualquer capacidade de ir além. Qual o problema de trazer de volta a força de vontade que já mudou a vida uma vez para si?

Parece uma asneira sem tamanho pensar que somos realmente incríveis e temos capacidade de realizar o que desejamos. Somos críticos e sabemos muito bem de nossas limitações, de que o caminho é longo e doloroso. Acrescentamos no nosso olhar a dose de negatividade diária e sabemos que é impossível. É impossível.

Mas precisamos enganar nossa mente viciada no fracasso. Lembrar de algo bom, fingir que ainda estamos fazendo aquela prova na qual nos saímos perfeitos. Fazer de conta que somos aquela pessoa que em um único momento de bravura deu aquela resposta certeira à uma pessoa inconveniente. Mentir pode nos tornar muito mais próximos de fazer tudo o que não faríamos se pensássemos de maneira, digamos, sensata.

Realmente faz tanto tempo desde que cantei Haruhi com meus amigos antes de partir sozinha para o outro lado do país por acreditar em amor?

Claro que não, dez anos são quase nada. Sinto como se tivesse acabado de acordar de um sonho maluco como o da Alice. Não sou mais aquela garotinha de 18 anos, mas ainda tenho toda a força para fazer o que só ela faria, enquanto cantarola a mesma God Knows.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Paralisia da insônia

Todo mundo já procrastinou alguma vez na vida sobre alguma coisa. Na verdade podemos realizar esse pecado capital moderno algumas vezes durante o dia, todos os dias, e ainda continuarmos sendo cidadão exemplares dentro dos parâmetros da exigente máquina de produção na qual estamos inseridos. Porém sempre há o risco de cair em um ciclo onde esse processo não seja mais agudo, mas crônico, nos levando ao que vou chamar de Paralisia da Insônia só para ilustrar de maneira fácil de lembrar.

Você faz sua lista de tarefas para o feriado de três dias: um exercício de língua estrangeira, a revisão de um conto, o estudo de uma matéria, três textos para ler, dois resumos, um questionário. . . Logo sua página está inteira preenchida e você se lembra de que tem uma família para dar atenção, um jogo que adoraria retomar, uma série para assistir, aquele encontro com amigos que já estava marcado há dois meses. . . Você então entra em pânico.

Aproveitar o feriado se torna um massacre e trabalhar sem parar nos seus afazeres também, pois você está negligenciando sua família, cachorro, tamagochi ou seja lá o que for. É uma situação onde você perde ou perde. E daí você escolhe a "terceira via duvidosa": não fazer nenhuma coisa, nem outra. Você entra na Paralisia da insônia.

Procrastinar gera uma sensação de culpa que é difícil de engolir. Porém não somos máquinas guiadas por um programa de computador que leva em consideração as prioridades pragmáticas. Lembramos à todo momento que somos humanos, que (talvez) nos amemos e queiramos nos proporcionar algum tempo de prazer nos raros momentos em que não somos impelidos para o trabalho, estudo, ou qualquer outra obrigação para convívio dentro da sociedade que tenhamos. Queremos ter a ilusão de ser livres e ter escolhas sobre nossa rotina, mas esse desejo não é capaz de desligar o senso de dever e culpa que esse prazer "mundano" trás.

Sem alternativa, nos tornamos como vegetais, incapazes de fazer uma coisa ou outra. Nos escondemos de tudo em aplicativos, em navegação inútil ou em algum livro que nem temos mesmo interesse em ler, só estamos usando de escudo para encarar os fatos.

Assim, uma lista de tarefas se torna uma bomba que explode no nosso colo nos tornando incapazes de dormir, de nos divertir, de nos sentir satisfeitos com os três dias de descanso proporcionados pelo feriado que nem sabemos o sentido. Estamos paralisados, insones, frustrados e irritados. Escrevemos um texto para fingir que superamos tudo, mas na verdade temos toda aquela lista nos esperando, pronta para nos degolar na manhã seguinte.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Nada Pessoal


Abstrair conceitos da realidade é parte da nossa rotina. Abstraímos lugares para assim os conhecer; abstraímos acontecimentos e fazer relações que escapam do óbvio. É assim que compreendemos o mundo. Porém existe um tipo de movimento de abstração que é ao mesmo tempo necessário e perigoso:  somos capazes de separar o conceito das pessoas de quem elas realmente são.

Quem nunca ouviu a frase “não leve isso para o pessoal” após receber alguma ofensa que com certeza já lhe tirou da seriedade de ânimos? Dia desses descobri que uma antiga amizade com a qual tinha contato atualmente só pela internet havia perdido o interesse no nosso vínculo e me excluído de suas redes. Não leve para o pessoal, ela disse em seu perfil, após ter feito a operação com várias pessoas além de mim, é que quero que minhas atualizações mostrem apenas coisas que me sejam de interesse.

E pra que lado eu poderia tomar aquele que não o pessoal? Havíamos trabalhado juntas em projetos artísticos, em um grupo que havia sido quase uma segunda família para os membros naquele ano. Agora que meu contato não era mais interessante era algo nada relacionado ao pessoal sair excluindo à mim e a outros colegas do mesmo período?

Abstraímos pessoas o tempo inteiro, tornando-as conceitos com os quais lidamos de maneira mais simples do que lidaríamos com essas massas de carne e incredulidade tangível da qual surgem essas abstrações. Precisamos simplificar e agrupar algumas vezes para entender como devemos nos comportar em determinadas situações. Pessoas da empresa, colegas da faculdade, amizades da época da escola. . . Criamos grupos conceituais e encapsulamos os outros modelos metafóricos que representam vagamente as pessoas com quem convivemos.

Ninguém faz isso com o objetivo de ser frio simplesmente. É que somos incapazes de dar total atenção para cada uma das pessoas que estão em nosso convívio. Nossa consciência é incapaz de suportar a quantidade de informação necessária para ter uma visão complexa e completa de cada um dos vizinhos, dos clientes do lugar onde se trabalha ou de alunos das ênfases mais desconhecidas da Letras. Precisamos desse espaço precioso de raciocínio para trabalhar outras coisas inúmeras que nos assaltam a todo o momento. A música na playlist do celular, ou o tamanho da fila do R.U. precisam de espaço e para isso simplificamos aquelas centenas de pessoas enfileiradas à um grupo sem distinção que está tornando nosso horário de almoço mais caótico.

Tornar pessoas coisas com as quais não fazemos relação ao lado pessoal é também perigoso. Todos se tornam coisas e coisas podem ser colocadas de lado com facilidade. Tratadas como quantidades ou apenas como acúmulo de espaço.

No fim eu também excluí aquela antiga grande amiga de projeto do meu feed do Twitter e do Facebook. Não quero gastar meus olhos lendo suas opiniões inconstantes ou vendo suas divulgações de projetos que não me interessam. Não é nada pessoal, eu só quero poder deletar a abstração dela da minha realidade.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

[Crônica] Clair



Faz tempo que deixei de acreditar em amor. Não existe amor para uma garota comum nesse lugar.

Eu até já gostei de sonhar com um futuro feliz e brilhante, onde o mundo era branco e azul claro e existia sol, eu era uma pessoa feliz até, porém isso não era pra mim. Eu tive medo desse mistério chamado felicidade e dei as costas para o mundo. Entrei em lugares escuros pra me esconder e agora não posso mais voltar. Esse é o chamado mundo real.

Depois de um tempo vendo a realidade passei a ver o que antes não via e acreditar em coisas que as pessoas não ousam nem sonhar. Talvez só assim elas possam ser felizes, sem conhecer o gosto amargo da sujeira do mundo sobre si. A mim que vivo aqui o jeito foi escolher caminhar junto a isso, foi me tornar essa sujeira.

Neste Lugar só existe a dor e a escuridão, gostaria realmente que existisse alguém que pudesse me salvar. Eu rastejo apenas esperando, afinal já ouvi falar que existe uma luz em algum lugar, mesmo que ninguém nunca tenha visto. Venham me salvar.

Estou meio cansada desse sangue, dessas coisas inacreditáveis. Eu sou chamada de drogada e doente pela sociedade comum, mas não é essa a verdade. Eu não escolhi vir para este lado, e vocês não sabem do que falam, existe um mal bem pior do que o que vocês conhecem. Espero realmente não ver ninguém falando essas bobagens na minha frente. Ultimamente quem o faz não tem saído vivo.

Gostaria de lembrar o que era a esperança, uma simples esperança por um dia bom. Queria não estar me consumindo por culpa deles. Onde está a luz desse mundo?

[Crônica] Parada Obrigatória

Ele era apenas uma pessoa como todas as outras, ou ao menos queria que assim fosse, mas isso estava bem longe da realidade. Porque deveriam existir pessoas diferentes no mundo se é tão mais fácil ser igual? Essa com certeza deveria ser a questão que mais atormentava a mente daquele jovem homem que sonhava não precisar realizar sonhos.

Se essa fosse uma estória comum esta seria apenas mais uma noite onde ele estaria indo tarde para casa por causa do seu trabalho. Não era realmente um trabalho dos mais tradicionais, mas ainda assim era a coisa mais normal que havia na sua vida. As ruas estava já desertas e frias, o que o fazia tremer, mas de medo, pois não era nada comum uma metrópole como aquela ter ruas vazias, mesmo próximo a meia-noite.

"Ser diferente é a coisa mais detestável do mundo", esse era o seu lema. Porque não tinha sido uma criança bagunceira? Tinha mesmo que ter sempre adorado se enfiar em bibliotecas só para ser chamado de cdf na escola? E depois, quando chegou na adolecência... a vida tinha mesmo que ser assim para ele? Todos os dias desejava que nunca tivesse acreditado que realizar sonhos era possível, pois foram graças a aqueles sonhos ingênuos que tinha parado naquela situação, fugindo de tudo e sendo seguido pelos fantasmas que tinha criado para si.

O vento soprou forte e as árvores foram agitadas, ele podia sentir que não chegaria em casa do mesmo modo que todas as noites nos últimos seis meses, não, mas queria, queria tanto apenas sentar na frente da televisão e assistir programas inúteis no início de fim de semana, mas não.... Fazer o que, ele também não era capaz de assistir a esses programas, era diferente demais para atura-los. Como são abençoadas todas as pessoas que podem contribuir livremente para os índices do Ibope.

Nada era possível, nada era possível, tinha que acreditar nisso, a noite não trás nada, nada, ainda tinha esperanças de acordar de volta nos seus 19 anos, antes de tudo ter começado. Sim, era a única explicação lógica, afinal sua vida era absurda demais para ser real, não, não devia ser mesmo, estava sonhando! Sonhando, escutaram?

Caminhando por uma rua mais clara, porém com um ar ainda mais deserto ele sentiu: mais a frente havia alguém que o esperava. Teve muita vontade de voltar correndo e correr até desmaiar, mas não adiantaria, se não adiantou das últimas duzentas vezes, não seria hoje. Ele parou a cinco metros do ser e escutou a sua voz:

- Hoje, meu amigo, você uma parada obrigatória aqui, comigo.