quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Por que Arte existe e por que ela não é a mesma coisa que Entretenimento?

Essa semana começou com discussões agressivas na internet, como é de costume. Dessa vez um dos tópicos centrais foi o cancelamento da exposição QueerMuseu, aqui em Porto Alegre. Um grupo conservador organizou protestos agressivos em âmbito físico e online e levou a direção do Santander  Cultural a encerrar a exposição.

Gritaria digital a parte meu ponto hoje é falar sobre o conceito de Arte e o fato intrínseco de que ela existe para nos deixar desconsertados de alguma forma.

Desde o surgimento da chamada indústria cultural os conceitos de Arte e Entretenimento acabaram se tornando mais misturados na mente do agora consumidor de produtos culturais. Vamos ao cinema para ver um filme que irá nos entreter, emocionar ou mesmo falar de questões que queremos pensar, seja uma época histórica ou um acontecimento contemporâneo.

Entretenimento pode ser Arte, mas nem toda a Arte existe para nos entreter de alguma forma. Não, a Arte está bem longe de existir para isso.

Arte, em todas as suas formas (à qual sou mais familiarizada à Literatura) é aquilo que nos tira do nosso lugar comum. Através da aproximação da realidade e de suas distorções a Arte é capaz de nos fazer experienciar intelectualmente coisas que nossa vida cotidiana não nos permite. Uma narrativa constrói em nós um raciocínio e emoção contínuas com um objetivo, de transmitir uma mensagem profunda a qual dificilmente compreenderíamos apenas por um raciocínio lógico sucinto.

A distorção da realidade é ao mesmo tempo, e de forma aparentemente contraditória, afastamento do concreto e aproximação da essência das coisas. É um Jesus Cristo fundido à Shiva e a símbolos da cultura pop mundial, como na QueerMuseu. Ou como nos fazer refletir sobre o preconceito sofrido por crianças que fogem dos padrões com o Criança Viada.

A Arte busca nos transformar, nem que seja com uma porrada na nossa consciência. Ela não se importa realmente se você vai ficar muito irritado, se vai chorar ou se vai dar risada. O importante é causar um efeito em nós, se possível, um efeito eterno na massa disforme da nossa consciência.

Dizer que Arte é apologia à isso ou aquilo é não saber nem de longe o que Arte realmente é e porque ela existe. Querer compará-la às manifestações hediondas de ódio racial que ocorreram nos Estados Unidos é não saber que existe diferença entre Ato Odioso e Expressão Artística. O Criança Viada não está humilhando crianças, mas está nos lembrando de maneira dolorosa que tem crianças sofrendo de verdade com o assédio e abusos por terem um jeito de ser que não se encaixa nos padrões antiquados da cisnormatividade.

Então, se não ficou claro, recapitulo:
  • Arte existe para nos incomodar de alguma forma;
  • Entretenimento está aí para nos contentar de alguma forma;
  • Pode existir Arte no Entretenimento;
  • Mas nem toda Arte precisa nos contentar de alguma forma;
  • Você não precisa gostar da Arte para que ela seja válida e necessária em sua existência independente.
Fui acusada de defender pedofilia por tentar construir um diálogo sobre os conceitos que falo neste texto. Depois de alguma tentativas inúteis de conversa, entendi que esse caso foi transformado em uma bandeira dos neo-fascistas que tem transformado nossa sociedade em uma máquina de maniqueísmo sem freio.

Porém não podemos nos deixar calar por grupos de conservadores, ou de odiosos que tentam se aproveitar da baixa instrução da maioria da população para impor narrativas falsas. Cada um dos que ainda sabem o poder do diálogo precisam se manifestar.

Talvez seja doloroso, mas ei, nem a Arte escapa de nos causar um pouco de sofrimento no processo.

Ficam ao final algumas das reportagens veiculadas sobre o caso. Tem se produzido uma quantidade enorme de conteúdo de discussão sobre o caso, o que é um reflexo positivo deste triste acontecimento.

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/11/politica/1505164425_555164.html
https://www.nytimes.com/aponline/2017/09/11/world/americas/ap-lt-brazil-art-show-cancelled.html?mcubz=0
http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2017/08/video-exposicao-queermuseu-promove-discussao-sobre-diversidade-nas-artes-visuais-9869570.html



quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Quando verdade e ficção são vistas como coisas iguais

Uma das minhas intuições pessoais favoritas é a de que para nós a ficção e a realidade tem o mesmo peso. Essa intuição só foi se fortalecendo com o tempo e leituras sobre o tema. Descobri que ao lembrar de algo não fazemos mais do que uma encenação mental de detalhes que registramos dos acontecimentos. Por termos uma capacidade limitada de guardar as informações que muitas vezes lembramos das coisas de maneira muito diferente do que outra pessoa que estava lá.

De certa forma lembrar é o mesmo que imaginar. Quando imaginamos uma cena de um livro estamos fazendo um processo bem similar ao de lembrar do primeiro dia de aula do Ensino Médio (aquela merda de dia). Ou seja, não há diferença mental entre coisas que realmente aconteceram e coisas que aconteceram em filmes ou livros.

Ficção e Realidade estão no mesmo nível. Ótimo! Comprovei minha intuição e todos foram felizes. . . Certo?

Hoje na aula de Estudos Portugueses I (a qual eu carinhosamente apelidei de Filosofia 2017/2) os debates culminaram em uma constatação no mínimo estarrecedora do momento em que vivemos: Estamos em um mundo onde alguém pode dizer que o Nazismo nunca existiu e isso ser tratado no mesmo nível do que uma declaração de um historiador com décadas de experiência do assunto sobre o oposto.

Indo para outros exemplos, estamos em um momento em que pessoas são capazes de defender a Terra Plana e dizer que toda a ciência dos séculos que nos antecederam são apenas "mentiras feitas para beneficiar os vendedores de globos terrestres pra aulas de geografia mentirosa". Não importa o quanto isso seja estúpido, simplesmente tudo é tratado como se fosse tão relevante quanto as descobertas feitas pelas pesquisas mais recentes dos astrônomos que dedicassem suas vidas nas missões bilionárias da NASA.

A mentira deixou de ser mentira para se tornar pós-verdade, para se tornar apenas mais uma versão da ficção que a verdade também se tornou. Mentira e Verdade são a mesma coisa.

Agora o que me parecia uma questão teoria interessante, que criava a possibilidade de que Sofia e Heidi e Nós estivéssemos numa igualdade de existências se ligou a um viés de violência ideológica e obscurantismo histórico que atormenta nosso convívio social diário. Vivemos em um tempo onde tudo acontece muito rápido, então não há como saber se essa onda de pensamento retrógrado irá passar em uma década e afundar nossa sociedade em um século de retrocesso perigoso em todos os níveis.

Vivemos uma histeria controlada ao limite. Aqui no Brasil estamos sendo enganados todos os dias pela classe política, engolindo um Golpe e ouvindo um bando de babacas falando em colocar um racista homofóbico como próximo presidente. Está tudo tão relativizado que isso outrora seria uma piada e agora é medo real.

Será que realmente é uma boa ideia que ficção e realidade sejam iguais?

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Como o acordar de um sonho

Se existe uma coisa que não existe realmente é esse tal de tempo. Pode parecer bem esquisito falar sobre isso, mas o fato é que o tempo é uma convenção que tem tanta utilidade prática quanto um lado desfavorável: o de nos tornar distante de coisas que poderíamos estar sempre próximos. Tudo porquê acreditamos realmente que dias, meses e anos são algo relevante.

Apenas ontem percebi que faz mais de dez anos desde o lançamento de uma das séries de animação que mais influenciou meu pensamento criativo: Suzumiya Haruhi no Yuutsuu. Aquilo foi uma pancada no peito. Nossa, dez anos, mas isso é tanto tempo!

Espera, é realmente tanto tempo?

De maneira inevitável meu pensamento se tornou um mar de historiografia pessoal: a época em que era uma feliz tola que organizava eventos de karaokê de músicas de anime; os dias trabalhando eventos; a capacidade de cantar mais uma vez "God Knows. . .", uma das músicas presentes na primeira temporada de Haruhi; Depois veio o desafio de mudar de um canto para o outro do país; afastamento de amigos e uma inevitável perda de boa parte da confiança e obstinação para realizar o que quer que fosse, pelo fato de ter que lidar com a jornada nada simples de aprender a viver sozinha, trabalhando para pagar aluguel em uma cidade nada convidativa como Rio Grande; então veio Porto Alegre, uma nova faculdade, a construção de novas amizades verdadeiras e então. . . Haruhi outra vez.

A música tem a capacidade de gerar um sentimento único em cada um de nós e esse sentimento não está necessariamente preso ao passado. Ouvimos música para sentir novamente o que sentíamos na época em que aquele som ficou marcado, mas nada diz que não possamos dizer que esse tempo realmente passou.

Qual a diferença entre ouvir God Knows há dez anos e ouvir agora se a sensação de ser capaz de fazer qualquer coisa no mundo em busca de sonhos ingênuos é a mesma? E daí que as leis secretas da sociedade dizem que você não pode mais ter sonhos depois dos vinte e cinco? O tal "mundo adulto" é uma chatice sem fim, com empregos medíocres e rotinas que destroem qualquer capacidade de ir além. Qual o problema de trazer de volta a força de vontade que já mudou a vida uma vez para si?

Parece uma asneira sem tamanho pensar que somos realmente incríveis e temos capacidade de realizar o que desejamos. Somos críticos e sabemos muito bem de nossas limitações, de que o caminho é longo e doloroso. Acrescentamos no nosso olhar a dose de negatividade diária e sabemos que é impossível. É impossível.

Mas precisamos enganar nossa mente viciada no fracasso. Lembrar de algo bom, fingir que ainda estamos fazendo aquela prova na qual nos saímos perfeitos. Fazer de conta que somos aquela pessoa que em um único momento de bravura deu aquela resposta certeira à uma pessoa inconveniente. Mentir pode nos tornar muito mais próximos de fazer tudo o que não faríamos se pensássemos de maneira, digamos, sensata.

Realmente faz tanto tempo desde que cantei Haruhi com meus amigos antes de partir sozinha para o outro lado do país por acreditar em amor?

Claro que não, dez anos são quase nada. Sinto como se tivesse acabado de acordar de um sonho maluco como o da Alice. Não sou mais aquela garotinha de 18 anos, mas ainda tenho toda a força para fazer o que só ela faria, enquanto cantarola a mesma God Knows.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Seria a consciência uma ilusão narrativa?

O texto a seguir é um fluxo de pensamento. Não é algo estruturado, mas sim um conjunto de idas e vindas de ideias transcritas da forma mais crua o possível, no momento em que foram colocadas em linguagem.

Trilhões de neurônios. Robôs que criam robôs e que geram uma consequência inusitada: a consciência.
A consciência é o ruído proveniente da ação desses bilhões de robôs celulares?
Somos ruído.
O fluxo de consciência não é único nem linear. Ele repete fatos e falas, mas também cria coisas novas, o tempo inteiro.
Se somos ruído, somos ruídos capazes de desvendar o Universo?
Ruído.
Se somo ruídos, basta que uma máquina também tenha bilhões de bilhões de partes lógicas independentes que esse mesmo tipo de ruído irá surgir naturalmente.
E então estará provado.
Somos consequência, não consciência.
Somos ruído.
Ruído que cria ruídos, que constrói o que não existe. Somos o ruído capaz de criar Universos novos, intangíveis. A cada segundo, para toda a eternidade.
Narramos a nós mesmos como se fôssemos um único personagem.
Obedecemos esse personagem
Ele é apenas um personagem
Não existe um Eu real, apenas uma forma narrativa que é resultado tanto de fatores químicos internos e inerentes ao caos dos robôs celulares, quanto à nossa própria capacidade de acreditar que existe um Eu real que determina como nós agimos.

A pergunta fundamental (Quem sou Eu?) é uma bobagem, afinal o Eu não é Ninguém e é todos ao mesmo tempo.
A consciência é o Tudo e o Nada.

A consciência surgiu apenas por conta da evolução? Essa evolução foi deliberada?
É possível, afinal um sujeito consciente é capaz de compreender abstrações do que um sujeito que age apenas em função de seus instintos subconscientes. É a diferença entre um cão e um homem. O homem é capaz de fazer coisas completamente sem sentido físico direto, mas que o levam à situações mais confortáveis ou favoráveis à sobrevivência.

A consciência é um ruído, mas não é um acidente.
A consciência é um ruído descontrolado, guiado pela linguagem, moldado para nos tornar capazes de sobreviver à muito mais do que os outros animais.
Mas somos falhos, nosso egoísmo e nossos impulsos violentos nos tornam destrutivos para com os outros.
Egoísmo, pensar apenas em si. Parece estranho que uma coisa ilusória como a consciência se preocupe tanto consigo mesma.
Ao mesmo tempo
É apenas sendo egoísta que a consciência consegue atingir seu potencial máximo de evolução. É assim que ela nos torna capaz de sobreviver à custa de outros, objetificá-los, ter vantagem, confortos e segurança extra. Segurança nunca é demais para a evolução.

Ou talvez seja.
Pois quando chegamos ao mundo onde conceitos importam mais do que perigos reais começamos a acreditar que realmente o tal Eu é algo que precisa ser entendido e elevado.
Nosso Eu é mais importante que o Eu dos outros.

A capacidade de abstrair estar no centro disso tudo.
Mas é notório que nossa consciência tem muitas falhas.
Ela é fraca e limitada
Pois nos prendemos à ilusão do eu
Pois somos incapazes de perceber o futuro com clareza
Por isso criamos perspectivas falsas
Criamos cenários irreais e acreditamos em falácias com muita facilidade

Somos nossas consciências?
Talvez no estado atual das coisas podemos dizer que sim
Somos os seres desse ruído
O ruído proposital
Porém estamos tão mergulhados no mundo dos ruídos que ganhamos novas camadas de complexidade que podem nos fazer bem, ou fazer mal
É a capacidade de ter crença. A mesma que pode nos fazer sobreviver às estações do ano ou pode nos levar à matar milhões de outros seres vivos sem piedade.
Mas afinal isso é mesmo algo ruim?
Os valores são coisas criadas por nós.
Mas do ponto de vista evolutivo criar violência não é inteligente quando ela gera a possibilidade de revanche, de retorno dessa violência contra nós.

Está dizendo que não existe a moral ou a bondade?
Nunca existiu.
É tudo coisa desse ruído maluco
Esse ruído

Agora, voltando à questão narrativa
Nós criamos personagens e nós mesmos interpretamos um personagem
Mas por que é assim?
Penso que possa ser uma questão de limitação
Assim como não somos capazes de falar diversas frases ao mesmo tempo, pois só temos uma boca,
Não somos capazes de nos compreender como seres diferentes ao mesmo tempo
Ainda que sempre sejamos diferentes
Somos a pessoa da faculdade
A pessoa do trabalho
A pessoa da família
A pessoa com nós mesmos
Buscamos, em alguns casos, harmonizar essa visão de quem somos
Criar uma narrativa coesa
Pois a falta de coerência é algo que nos incomoda
Mesmo em nós mesmos
Cria um tal "peso na consciência"
Por que não somos capazes de lidar com o fato de não sermos uma pessoa só
Nem mesmo de um minuto para o outro
Nem mesmo de hoje para amanhã
Somos o ruído
Uma resposta de instintos domados por pensamentos abstratos
moldados por linguagem
Linguagem oral, na maioria das vezes,
Mas também linguagem gestual, por libras, por imagens

Talvez seja difícil pensar que existe pensamento sem linguagem porque somos totalmente emoldurados sobre essa estrutura comunicativa
A língua
Mas isso não é uma verdade
Não somos capazes de pensar hoje sem palavras
Por que já crescemos tempo demais pensando com palavras

O pensamento por si só é uma questão muito interessante.
O que é o pensamento?

Tudo tem um motivo instintivo e biológico
Tudo é satisfação e segurança
Tudo
Mesmo o amor
Mesmo o ódio
Talvez seja fácil notar no medo
Mas é nebuloso se pensar nisso à respeito da ética
Mas todos são biológicos

O que leva à busca do conhecimento?
Satisfação
Nos tornamos complexos à ponto de compreender abstrações em níveis muito superiores à Abstração Primeira
Nós mesmos
O Ruído
Abstração Primeira
Eu
Consciência
Não existe nenhuma consciência?
É como a tela do celular
Uma cara
Na frente de sistemas muito mais complexos

Só vivemos de maneira narrativa
Não entendemos o espaço
o tempo
eu
o outro
o mundo
sem ser por narrativa
construímos narrativas desde que aprendemos sobre o tempo
mas só aprendemos sobre o tempo por termos memória do que já aconteceu
memória
marca do tempo que passou
aprendemos à duras penas sobre ação e reação
chorar nos deixa sem ver televisão
nossos pais nos ensinam sobre tudo isso
através da moldura da linguagem
Língua
As línguas são moldes de realidade
Realidade
A Abstração Segunda
Vem logo após o Eu
A Realidade é uma abstração do que nosso sentidos são capazes de captar
Com fatores lógicos e abstratos que construímos a partir de memórias e sensações

Se não somos os mesmos de cada segundo no passado
Escrever é o ato de colocar a expressão linguística desse ruído interminável em um espaço
seja digital
seja físico
Escrever é gravar o fluxo de linguagem que existe em uma parte do nosso pensamento
A ficção e a realidade são abstrações no mesmo nível
São Abstração Segunda
Pois ambas se passam em nosso Ruído
e ambas são intangíveis
ambas dependem só da nossa visão
ambas são reconstruções de conceitos apreendidos externamente
ou pelo menos reconstruções desses mesmo conceitos
repetição e reaparecimento
releitura
aprender palavras é aprender novas maneiras de construir abstrações

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Por que escrevo literatura?

Escrever é como uma forma de magia muito antiga e extremamente poderosa. Ela encanta quem lhe conhece e confere aos seus artífices capacidades extraordinárias.

Apenas através da escrita é possível imortalizar um sentimento. É através desse meio que se pode lançar uma emoção de dentro de um alguém para outras tantas pessoas, em tantos outros lugares do mundo e do futuro.

Escrever literatura pode servir ao bem e ao mal, pois está além desses conceitos fracos. A literatura influencia, marca e constrói a alma humana. Também esta tem a capacidade de destruir, desconstruir tudo o que havia antes no intuito de recriar uma alma mais forte.

Literatura pode ser apenas um entretenimento ou ser a mais ambiciosa possível e, em todos os casos, ainda carregará sempre consigo pelo menos uma semente daquilo que é intangível. Do mais profundo do que é a existência humana e do que é o mundo que construiu aquele autor. Mesmo quando o enredo em nada tem haver com a realidade é tudo sobre a realidade que de fato se vê.

Escrever é construir a si mesmo. É destruir suas certezas sobre si e sobre tudo. É tornar-se capaz de ouvir o outro e tirar disso palavras para tentar expressar o que se sente. É descobrir lugares ocultos da própria alma. É sentir como se a realidade de dentro e de fora de si fossem equivalentes ao ponto de uma não poder viver sem a outra.

Ainda que a maestria na arte da escrita seja algo para poucos, todos somos livres para experimentar dessa magia. Basta coragem, paixão e um fraco senso de praticidade. Afinal, num mundo de objetificações e urgências, sentar-se para escrever um romance é um ato de rebelião. Escrever é ir contra o que manda a regra. É como toda e qualquer arte, tão fundamental à vida e ao mesmo tempo massacrada pelas normas de um mundo do comum e do mais do mesmo.

Escrevo literatura pela chance de me sentir livre.

Escrevo sonhando com o momento em que aquela parte de mim será conhecida por um outro alguém. Faço pensando em todos esses alguém.

Escrevo porque já me acostumei à sonhar em texto e minha cabeça fica pesada todos os dias em que não jogo no papel digital um parte de toda aquela profusão de sons e vidas imaginárias.

Escrevo porque espero reconhecimento. Quero ser aceita por aqueles que leem e quero que eles se sinta mais aceitos ao ler o que escrevo. Por esse motivo muitas vezes escrevo sobre coisas que me dizem muito respeito. Sobre ser mulher, sobre ser lésbica, sobre ser alguém distante da sua terra natal, por ser alguém que vê o mundo inteiro como algo misterioso e incompreensível.

Escrevo porque só assim sou capaz de compreender uma pequena parte da minha própria alma. Escrevo porque não saberia viver de outra forma.

Não busco a maestria. Quero me emocionar e viver tudo o que só é possível viver nos sonhos de palavras. Nesse meu estranho universo individual não existe nada mais poderoso do que literatura.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Promessas de começo de semestre ainda valem de algo?

Hoje começou o quarto semestre da minha segunda graduação (não ter feito o TCC da primeira não muda o fato de eu ter cursado tudo, afinal) e tudo foi bem péssimo. Essa é a impressão que uma enxaqueca horrível causada pelas crises constantes de sinusite deixou, mas a verdade é que me sinto sempre muito bem em começar novos desafios e rever as amizades de curso (todas pessoas com as quais aprendo muito e sempre).

Para tentar aguentar a dor da enxaqueca enquanto estava no trabalho me dei um tratamento de "alegria instantânea": fui reler comentários de meus antigos fanfictions postados no Kono-ai-Setsu. Ainda que muitas pessoas desprezem o valor dos fics (um assunto que rende um debate quase infinito) devo dizer que não apenas gostei de já tê-los escrito como ainda gosto de escrevê-los quando a rotina permite. Um bom fanfiction é tão valioso quanto um fanart bem feito, ou quanto um doujinshi pensado e desenhado com alta técnica artística. E, apesar da falta de valor, tenho cá meu orgulho com meu saudoso Mastered Negima e seu texto simplório.

Mas o que isso tem haver com promessas de começo de semestre? Bom, já faz mais de dez anos que comecei a publicar aqueles fanfictions e minha vida sofreu transformações quase surreais nesse meio tempo (algum dia terei que detalhar isso), mas fato é que ainda estou só no começo do meu trabalho como escritora. Recém consegui terminar a reescrita da quarta versão de um romance original longo de ficção-científica, o que mal pode ser considerado metade do caminho para que esse texto consiga chegar à algum público que o queira consumir.

Mesmo depois de dez anos, ainda estou no começo. Mesmo que já soubesse usar técnicas bem desonestas para provocar sentimentos variados no leitor com  "Lives", minha técnica de escrita melhorou muito nesse período e ainda tem muito à melhorar. Dá um sentimento muito estranho perceber o quão cumprido é caminho que ficou para trás e também o que vem pela frente.

Não tenho como fazer promessas de começo de semestre que não seja "tentar sobreviver à carga de leituras e trabalhos do quarto período," mas ainda assim me sinto cheia de esperança em perceber que tenho sempre esse longo caminho diante de mim, se abrindo ao infinito das possibilidades, esperando que eu dê aos anseios escolhidos, a vazão em realidade que tanto merecerem.

Que sorte estar no quarto período, a professora de Produção Textual do segundo e terceiro períodos iria me matar se encontrasse um texto tão pessoal e nada "objetivo" meu online.

-LKMazaki - Agosto de 2017

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Micro-conto

O rapaz assistia toda noite ao show da banda famosinha. Conhecia as músicas, seguia o site e fazia parte dos grupos.
A banda logo deveria se tornar uma sensação nacional, mas de alguma forma isso deixava o rapaz preocupado.
Não saberia como lidar com as fãs do guitarrista, seu namorado. 

Impulso

Dois textos para terminar
Quatro livros para resenhar
Três cadeiras da faculdade com matéria acumulada
Um pensamento
O banal dos sonhos incontidos

Naves espaciais
Magos sombrios
Cidades sujas e frias, não parecidas com as que conheço
Um único pensamento
Me carrega para longe de todas as prioridades

Inversão de papéis
Num abandono de forma e rima
Métrica ou quadra,
Quarta, quinta. . .

Devaneio sem freio me leva de encontro
À parede de tijolos das responsabilidades

Ainda assim não há receio
Ou preocupação
Quando nasce o impulso do pensamento
Os sonhos despertam
E o restante parece apenas um único mar de baboseiras

LKMazaki - Agosto de 2017

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Dança Sombria

Estávamos nós, eu e Gustavo, de mãos dadas, girando tristemente ao redor de coisa alguma. Tudo era cinza e sem forma no mundo. Apenas nós dois ali, rindo e chorando, sabíamos existir. De onde havia vindo isto? Como poderia ter sido diferente?

Fazia algum tempo desde nosso último encontro. A vida agitada, os compromissos reais e os fantasiosos com os ditos sonhos, haviam nos feito distantes por mais tempo do que eu poderia lembrar.

Mas em nada ele havia mudado, não mesmo. O Gustavo nunca mudava. Sempre a mesma cara cansada, de manchas escuras ao redor dos olhos por conta da insônia. Sempre as roupas escuras e a pele sem marcas de sol. Que aparência deprimente ele tinha.

Ainda assim eu sabia, e sempre soube, que estávamos destinados a dançar novamente. Mais uma vez e para todo o sempre, girando e girando pelos dias e noites que se sucedem ao nossos passos.

Eu sou felicidade e ele é tristeza. Enquanto construo os pilares dos nossos sonhos, ele apenas espalha a terra para que tudo afunde. Eu sonho e ele grita. Mas é quando meu canto se torna um grito que ele mostra a sua força.

Foi assim que nos reencontramos. Pois por maior que seja a felicidade ela não é feita sem momentos ruins. Na solidão da minha desgraça chorei por não ser capaz de controlar o passado nem o futuro. Ele então apareceu, ouvindo meus lamentos e segurou minhas mãos:

"Aceite o desespero e nós dois poderemos nos fazer companhia por toda a jornada."

Como eu fora tola. Exibindo meus sorrisos e me gabando da minha habilidade precária. Enquanto me enchia de cores eu deixava meu lado mais frágil favorável a levar um golpe fatal. Por sorte eu apenas caí, sem ar, com dor e medo. Não morri, e Gustavo me abraçou quando me colocou de volta sobre meus pés.

Ele era quente como o abraço da nossa amada. Macio toque do seu casaco preto. Seus cabelos um tanto desgrenhados se pareciam mais familiares do que jamais eu notara. Talvez esse tenha sido o primeiro passo para que eu entendesse, uma vez mais, que não tinha como existir sem ele comigo.

As lágrimas se tornaram apenas ardor e eu esqueci sobre o passado e o futuro. Do que importava se tudo era apenas desespero? Pra quê lamentar-se do que já era feito de desgraça? Por que estive tanto tempo esquecendo daquela parte tão podre e deliciosamente viva da minha própria alma?

Dançamos. Cantamos à desgraça e à confusão. Sorrimos e rimos da nossa mesquinharia e reafirmamos nossos gostos em comum pelas sombras da alma. Somos opostos e ao mesmo tempo iguais. Gêmeos indissociáveis. Em mundos paralelos e mais próximos que pés e mãos.

Foi um belo reencontro esse nosso. Me ajudou a perceber minha tolice e achar que posso estar nessa sozinha. Eu preciso de Gustavo e de todos os outros. Todos eles. Cada um tem muito a me ensinar e apenas com a força de cada um é que poderei continuar traçando esse caminho torno, nessa estrada torta que é a vida.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Falsa Equivalência, ou a lógica do Tempo do Obscuro

Se todos os machistas são pessoas
E todos os homens são pessoas
Logo
Todos os homens são machistas

Se todas as feministas são pessoas
E todas as mulheres são pessoas
Logo
Todas as mulheres são femininas

Se todas as mulheres são feministas
E todos os homens são machistas
Logo
Todos os homens são mulheres
E todos os homens são feministas
E todas as mulheres são machistas
E todos os machistas são feministas
E você não é ninguém

LKMazaki - Agosto de 2017