segunda-feira, 17 de abril de 2017

Paralisia da insônia

Todo mundo já procrastinou alguma vez na vida sobre alguma coisa. Na verdade podemos realizar esse pecado capital moderno algumas vezes durante o dia, todos os dias, e ainda continuarmos sendo cidadão exemplares dentro dos parâmetros da exigente máquina de produção na qual estamos inseridos. Porém sempre há o risco de cair em um ciclo onde esse processo não seja mais agudo, mas crônico, nos levando ao que vou chamar de Paralisia da Insônia só para ilustrar de maneira fácil de lembrar.

Você faz sua lista de tarefas para o feriado de três dias: um exercício de língua estrangeira, a revisão de um conto, o estudo de uma matéria, três textos para ler, dois resumos, um questionário. . . Logo sua página está inteira preenchida e você se lembra de que tem uma família para dar atenção, um jogo que adoraria retomar, uma série para assistir, aquele encontro com amigos que já estava marcado há dois meses. . . Você então entra em pânico.

Aproveitar o feriado se torna um massacre e trabalhar sem parar nos seus afazeres também, pois você está negligenciando sua família, cachorro, tamagochi ou seja lá o que for. É uma situação onde você perde ou perde. E daí você escolhe a "terceira via duvidosa": não fazer nenhuma coisa, nem outra. Você entra na Paralisia da insônia.

Procrastinar gera uma sensação de culpa que é difícil de engolir. Porém não somos máquinas guiadas por um programa de computador que leva em consideração as prioridades pragmáticas. Lembramos à todo momento que somos humanos, que (talvez) nos amemos e queiramos nos proporcionar algum tempo de prazer nos raros momentos em que não somos impelidos para o trabalho, estudo, ou qualquer outra obrigação para convívio dentro da sociedade que tenhamos. Queremos ter a ilusão de ser livres e ter escolhas sobre nossa rotina, mas esse desejo não é capaz de desligar o senso de dever e culpa que esse prazer "mundano" trás.

Sem alternativa, nos tornamos como vegetais, incapazes de fazer uma coisa ou outra. Nos escondemos de tudo em aplicativos, em navegação inútil ou em algum livro que nem temos mesmo interesse em ler, só estamos usando de escudo para encarar os fatos.

Assim, uma lista de tarefas se torna uma bomba que explode no nosso colo nos tornando incapazes de dormir, de nos divertir, de nos sentir satisfeitos com os três dias de descanso proporcionados pelo feriado que nem sabemos o sentido. Estamos paralisados, insones, frustrados e irritados. Escrevemos um texto para fingir que superamos tudo, mas na verdade temos toda aquela lista nos esperando, pronta para nos degolar na manhã seguinte.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Nada Pessoal


Abstrair conceitos da realidade é parte da nossa rotina. Abstraímos lugares para assim os conhecer; abstraímos acontecimentos e fazer relações que escapam do óbvio. É assim que compreendemos o mundo. Porém existe um tipo de movimento de abstração que é ao mesmo tempo necessário e perigoso:  somos capazes de separar o conceito das pessoas de quem elas realmente são.

Quem nunca ouviu a frase “não leve isso para o pessoal” após receber alguma ofensa que com certeza já lhe tirou da seriedade de ânimos? Dia desses descobri que uma antiga amizade com a qual tinha contato atualmente só pela internet havia perdido o interesse no nosso vínculo e me excluído de suas redes. Não leve para o pessoal, ela disse em seu perfil, após ter feito a operação com várias pessoas além de mim, é que quero que minhas atualizações mostrem apenas coisas que me sejam de interesse.

E pra que lado eu poderia tomar aquele que não o pessoal? Havíamos trabalhado juntas em projetos artísticos, em um grupo que havia sido quase uma segunda família para os membros naquele ano. Agora que meu contato não era mais interessante era algo nada relacionado ao pessoal sair excluindo à mim e a outros colegas do mesmo período?

Abstraímos pessoas o tempo inteiro, tornando-as conceitos com os quais lidamos de maneira mais simples do que lidaríamos com essas massas de carne e incredulidade tangível da qual surgem essas abstrações. Precisamos simplificar e agrupar algumas vezes para entender como devemos nos comportar em determinadas situações. Pessoas da empresa, colegas da faculdade, amizades da época da escola. . . Criamos grupos conceituais e encapsulamos os outros modelos metafóricos que representam vagamente as pessoas com quem convivemos.

Ninguém faz isso com o objetivo de ser frio simplesmente. É que somos incapazes de dar total atenção para cada uma das pessoas que estão em nosso convívio. Nossa consciência é incapaz de suportar a quantidade de informação necessária para ter uma visão complexa e completa de cada um dos vizinhos, dos clientes do lugar onde se trabalha ou de alunos das ênfases mais desconhecidas da Letras. Precisamos desse espaço precioso de raciocínio para trabalhar outras coisas inúmeras que nos assaltam a todo o momento. A música na playlist do celular, ou o tamanho da fila do R.U. precisam de espaço e para isso simplificamos aquelas centenas de pessoas enfileiradas à um grupo sem distinção que está tornando nosso horário de almoço mais caótico.

Tornar pessoas coisas com as quais não fazemos relação ao lado pessoal é também perigoso. Todos se tornam coisas e coisas podem ser colocadas de lado com facilidade. Tratadas como quantidades ou apenas como acúmulo de espaço.

No fim eu também excluí aquela antiga grande amiga de projeto do meu feed do Twitter e do Facebook. Não quero gastar meus olhos lendo suas opiniões inconstantes ou vendo suas divulgações de projetos que não me interessam. Não é nada pessoal, eu só quero poder deletar a abstração dela da minha realidade.

sábado, 4 de março de 2017

Corrida contra o Infinito das Idéias

Por algum motivo não existe tempo o suficiente em um dia para fazer tudo o que gostaríamos. Mesmo que o dia tivesse 200 horas é certo de quem não seria o suficiente. Sempre queremos fazer mais, queremos ser mais, aproveitar mais da vida e fazer com que cada minuto que temos dessa parca vida sirva para algo útil, ou pelo menos divertido. Ao buscar fazer tudo, é fato de que o tempo nunca parece se adequar aos nossos desejos ilimitados.

Desde meus 17 anos eu venho desenvolvendo mais e mais projetos pessoais em paralelo. São livros que começo a escrever, são séries em tiras de quadrinhos que começo a desenhar, são blogs, são participações em outros blogs, são ainda mais blogs. . . e por aí vai. O tempo nunca é o suficiente, ainda mais quando você tem a obrigação de trabalhar em uma empresa se quer manter-se no jogo do capitalismo. Ainda mais se você decidir começar uma segunda faculdade alguns anos depois de ter largado a primeira. . .

Sim, o tempo nunca é o suficiente, mas é melhor que seja assim. Ainda que seja frustrante não ter como realizar tudo, a sensação de ter que apressar-se para que a vida não termine sem que façamos o primeiro movimento no tabuleiro deste jogo complexo do viver é uma motivação que pode também nos enlouquecer. Mas daí enlouquecemos com qualquer coisa mesmo, pelo menos sendo por um bom motivo é algo positivo. Mesmo que fiquemos deitados durante a noite e trabalhando com pasmaceira durante o dia, isso não significa que a vida irá desacelerar - pelo contrário. A vida passa rápido, não importa se você faz uma ou vinte coisas ao mesmo tempo. O nosso tempo esgota cada vez mais rápido e isso é algo que está além do nosso controle.

Sigo me enfiando em mais projetos, mesmo sabendo que é impossível ser tudo. Com os anos vou aprendendo a finalizar alguns desses projetos no meio do caminho, sem que isso diminua realmente a ansiedade que é correr sem parar. O tempo passa rápido, mas pelo menos minha checklist me lembra da quantidade de coisas que fiz e experienciei por sacrificar um tanto de descanso ou mesmo a sanidade.

Melhor assim. Melhor assim. . .

quarta-feira, 15 de junho de 2016

À procura de emprego

Procura-se emprego nos ramos artísticos


Sabe-se escrever prosa em língua clara
Além de desenhar em linguagens gráficas diversas
Canto
Poesia
Sabe-se inclusive pensar
E ser crítico sem sair da racionalidade para adotar a paixão
(Diga-se de passagem um diferencial e tanto na Era das Curtidas)


A remuneração pretendida não é ostensiva
Talvez o mínimo para comprar lápis e papel
Quem sabe apenas um cumprimento já valha o mês de esforço
Ou apenas um sorriso


Por favor entrar em contato através da rede social menos popular
E utilize como identificação o assunto
“Compram-se seus sonhos”

LKMazaki 2016

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Manifesto da Calma

Manifesto da Calma
por LKMazaki
Vivemos em tempos caóticos. Mais do que em qualquer época da História conhecida o ser humano vive nos limites da razão, atormentado pela massa esmagadora de informação e acontecimentos que permeiam o dia-a-dia atribulado da sociedade padrão globalizada do ocidente e oriente. E, para aplacar as angústias constantes do viver, as pessoas, ao invés de buscarem se afastar momentaneamente do caos urbano, pelo contrário, mergulha na miríade do entretenimento que lhe aliena de tudo ao seu redor.


Seja no estudo, trabalho ou lazer, as pessoas estão se entupindo de conteúdo banal e extremamente passageiro, afim de lacrar seus pensamentos à qualquer coisa que possa lhes causar um impacto real aos sentidos.


Em resumo, o mundo está distraído demais para viver.


Este manifesto tem como objetivo opor-se a essa que chamamos de Cultura da Distração, ou mesmo Cultura da Falta de Importância. Um tipo de comportamento que ganha a cada dia proporções alarmantes e causa efeitos terríveis para indivíduos e o ambiente ao seu redor.


O Manifesto da Calma não é um grito de oposição, afinal isto seria em si uma contradição. Queremos, silenciosamente, abrir nossos olhos para a realidade imediata e, ao mesmo tempo, eterna que cerca cada momento de nossas vidas. Não queremos deixar passar os significados tão especiais de todas as coisas que parecem estar desvalorizadas em relação ao que é brilhante, barulhento e absolutamente insignificante.


Detestamos passar por uma rua sem observar ao menos por um momento sua arquitetura. Igualmente os sons urbanos, tão disformes, também nos são bem vindos de vez em quando. Claro que apreciamos músicas aos nossos ouvidos, como a maioria faz, porém, de vez em quando, pensamos ser bom dar um tempo para pensar com nossos próprios neurônios.


Não gostamos de repetir as frases deflagradas nas mídias novas e antigas. Queremos expor nossos pensamentos com nossa própria maneira de construir sentenças. Clichês são bons, mas usá-los demais nos parece uma armadilha para tornar nossa mente preguiçosa.


Muitos de nós gostam de coisas que a maioria considera velha. Muitos nos confundem com esses maníacos por “retrô”, mas não é esse o caso. A verdade é que nós sabemos que uma década, um século, ou mesmo alguns séculos, não são muito tempo. O mundo e a humanidade está aí a tanto tempo que seria uma tolice acreditar que uma música composta a duas décadas é algo antigo. Mesmo o mundo moderno, que começou a ser costurado a alguns séculos, é algo extremamente novo e por isso tem toda a nossa atenção e respeito.


Essa valorização que costumamos a dar ao que os outros acreditam ser passado distante tem várias consequências em nossas vidas. Isso por que não somos capazes também de esquecer as abominações que a poucas décadas e séculos assolaram a face do nosso pequeno planeta. As grandes guerras, genocídios e torturas contra tudo e todos. Os seres humanos já provaram muito bem serem capazes do pior e isso jamais sai de nossas mentes.


E é por isso que damos tanto valor à paz e à fraternidade entre os povos. Não somos tolos, sabemos que o mundo está em constante conflito, mas não fazemos parte daqueles que amam este tipo de situação. Pelo contrário.


Sabemos que não somos capazes de mudar o mundo apenas agindo com mais calma diante da loucura imposta e nem é esse nosso objetivo. Queremos primeiro mudar a nós mesmos. Se nos tornarmos serenos a tal ponto talvez vejamos com mais clareza o que podemos fazer para ajudar a clarear a visão dos que nos estão próximos. Este é só um pequeno passo, mas para nós é o que basta até então.


Convidamos a todos para que, nem que seja por um único instante, pare de correr e distrair-se para então pensar e sentir o mundo ao seu redor.


Veja, você está vivo. A sua vida dura apenas uma ínfima porção de tempo e por isso ela é tão preciosa. Ao mesmo tempo, veja as infinitas formas de vida que existem ao seu redor. Não só na Terra, mas em todo o Universo. Vidas mais breves e mais longas do que a sua. Todas tão preciosas quanto as outras.


Sinta, você.


Pode ser uma sensação assustadora de primeira, perceber o quão frágil e preciosa a vida é na verdade, mas garantimos que, se fizer isso ao menos uma vez, jamais poderá se distrair a ponto de esquecer disto.




quarta-feira, 13 de abril de 2016

[Opinião] "O Brasil vai ficar sem internet"? Calma lá. . .

Sobre a atual polêmica em relação aos planos com limites de franquia para internet banda larga no Brasil é preciso, antes de mais nada, esclarecer que é ilegal bloquear a navegação de consumidor sem que o mesmo esteja em débito com a operadora do seu serviço, ok?
 
Saiu uma matéria bastante esclarecedora no site da Zero Hora (Clique para ir para o site da Zero Hora) com perguntas e respostas diretas sobre o tema. Se você não tem certeza sobre o que afinal poderá acontecer e acha que "O Brasil vai ficar sem internet" de uma hora pra outra, por favor, leia esta matéria, ou busque orientação com especialistas em Direito do Consumidor para informar-se.
 
Este texto é apenas para deixar registrada mais uma opinião de contrariedade à esta ideia ridícula das operadoras de vender planos por franquias. Na prática isto é apenas um meio de conseguir cobrar mais caro do consumidor médio de internet, que utiliza, e muito, serviços de streaming como You Tube e Netflix (observa-se que é o mesmo tipo de consumidor que vem substituindo a televisão tradicional pelo entretenimento por nicho da rede) e de inviabilizar o consumo maior de dados por boa parcela da população. De certa forma isto é cercear a liberdade de acesso à informação que, semanticamente, se adquire ao contratar um serviço de internet banda larga.
 
Ok, como dito antes, na prática é crime cortar a internet do cliente, mas nem todos reclamam por seus direitos, ainda que sejam claros, não é verdade? É neste ponto que se criam as estratégias cretinas de ganhos de alguns empresários (vide os abusos contra empregados praticados em larga escala por corporações que sabem que apenas 10% destes irá protestar na justiça o que tem direito).
 
Toda a manifestação de contrariedade à simples possibilidade desse tipo de mudanças nos planos de banda larga é, mais do que correta, necessária de ser feita. Os empresários precisam ser cercados críticas ferrenhas para convencer-se de que esse tipo de política não vai ser aturada pelo consumidor brasileiro. Ainda que muito estardalhaço acabe ultrapassando os limites do bom senso também no tom da crítica, é ainda preferível que seja desta maneira do que passar a impressão de um consentimento emudecido de algo que, para dizer pouco, seria um revés tecnológico.
 
Sim, vamos nos manifestar contra isso, mas também vamos nos informar muito bem sobre o assunto, para caso essa galhofa em forma de proposta empresarial gananciosa siga em frente.
 
 

terça-feira, 12 de abril de 2016

Retomando as atividades

Já faz um longo tempo desde que publiquei pela última vez neste blog. Se essa é a primeira vez que você o acessa só irá notar isso depois de perceber a data das últimas publicações.
 
Durante mais de um ano pensei em unir a ideia deste blog com um dos meus outros, o Mundo Mazaki. Por este citado ser mais antigo, ter um alcance maior, imaginei que seria uma boa fazer essa fusão. Porém, o tempo, como carrasco que é das ilusões as quais nos submetemos mostrou que este fora mais um empreendimento mau-sucedido.
 
Então, cá estamos retornando para o Creative 1000%.
 
Muita coisa mudou na minha vida desde a última vez que escrevi aqui. Entre essas mudanças talvez a mais relevante tenha sido o fato de eu deixar de usar o Facebook (entrar na graduação de Letras PT-JP é detalhe perto disso). Ainda tenho perfil, mas de fato só lembro de acessá-lo por volta de uma vez por mês.
 
É maravilhoso. Vocês deviam experimentar isto.
 
De qualquer modo, esta mensagem é apenas para pontuar um recomeço. Talvez um começo, se você for um destes visitantes novos. Para saber mais do que venho trabalhando ao longo da última década, basta navegar um pouco por este endereço e você terá alguma noção.
 
Pretendo utilizar este espaço para a publicação de resenhas simplificadas de livros e obras de outras mídias, reflexões sobre escrita, algum texto ficcional e, com sorte, alguma opinião ou texto mais solto a respeito da vida, do mundo, da Academia ou afins.
 
Sejam bem-vindos, mais uma vez. E vamos em frente.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

[Opinião] Dúvidas do pós-eleitoral

Reprodução de texto publicado no meu perfil pessoal, no facebook:


Ao refletir sobre o cenário político que irá entrar em vigor a partir de 2015 cheguei a um questionamento: como um cidadão comum pode acompanhar e entender o que acontece nas entidades governamentais que tanto influenciam sua vida?

Me lembro lá de 2010, da polêmica campanha do humorista Tiririca: "se eleito, eu te conto o que um deputado federal faz". Mas, todo esse tempo depois, acho que ainda ninguém ficou sabendo o que um deputado faz mesmo.

Será que uma das causas do distanciamento claro que existe entre sociedade e seus políticos não está fundamentada na falta de meios de compreender o que afinal esses caras todos fazem? 

Só de olhar por cima esse sistema caótico soa assustador, onde centenas de deputados apresentam milhares de projetos e apenas uma dezena ou mais são, de fato, úteis e chegam a ser aprovados. E como funcionam seus gabinetes? Pra que serve as verbas que tornam os deputados brasileiros uns dos mais caros do mundo?

É muito fácil e óbvio que a pessoa comum, sem acesso a essa informação, vai chegar a conclusões simplistas como "o dinheiro vai pro bolso deles". Não que isso não possa ser em parte verdade, MAS, não seria muito melhor saber do que se está falando?
Fica aqui essa minha questão e questionamentos. Como fazer para que a política não seja "aquele assunto chato que nos incomodada de 2 em 2 anos, nas votações"?





Talvez seja impossível chegar a esse ideal da informação simples, mas não custará nada tentar. Pelo menos só assim sentirei que, como membro da sociedade, estarei fazendo minha parte.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Como estruturar um enredo ficcional

Olá a todos! Hoje iremos tratar de uma parte fundamental para a criação de qualquer obra literária ficcional: a estruturação do enredo. Vamos abordar este assunto de maneira prática, através de recomendações e passos práticos que podem ser experimentados e livremente adaptados à rotina de trabalho de qualquer autor ou aspirante a autor de ficção.

É bom deixar claro de antemão que a forma de desenvolver a estrutura de um enredo apresentada neste texto é apenas uma sugestão baseada na metodologia aplicada pela autora do mesmo no seu trabalho literário. Cada um encontra sua própria fórmula de trabalho, porém é sempre saudável conhecer novos métodos. Isso pode criar possibilidade de enriquecer a forma de trabalho pessoal de quem observa sem preconceito a metodologia distinta.

Dito isto, vamos para a parte prática.

Como estruturar um enredo ficcional



Para que este texto se desenvolva de maneira mais direta o possível, vamos adotar etapas enumeradas e desenvolver um exemplo genérico, visando a construção de um enredo para um conto. Isso com a ajuda de um aplicativo para Android chamado "Plot Generator". Posteriormente podemos postar o conto terminado, para que fique mais interessante e seja possível ver a execução da metodologia que se apresenta. 

Para quem tiver preconceito com a utilização de "geradores", acreditando que nenhum enredo que soe natural possa sair do mesmo gostaria de fazer o convite para que leia um dos últimos trabalhos que publiquei no grupo NUPO. Um conto de ficção-científica intitulado "Extinção" que foi baseado totalmente em um plot gerado por este programa. Confiram neste LINK.

Etapas e exemplos, vamos lá.

1 - Crie seu plot central

O plot central é um pequeno conjunto de frases que vão dizer o que se trata o enredo no cerne. Pode haver um ou outro detalhe mais específico da trama neste plot, o importante é poder descrever sua trama como um todo.

Exemplo: utilizando o Plot Generator, cheguei a este enredo (traduzido livremente do inglês):

Plot: Você está viajando em uma nave-colônia em direção a um novo lar. Um novo computador quântico desenvolvido é capaz de prever um evento catastrófico no futuro próximo. A previsão acidentalmente se torna pública, levando toda a sociedade ao pânico. Seu personagem estava se programando para um dia voltar à Terra. Uma guerra de larga-escala começa na Terra.

Comentário: caramba ein, esse enredo é tão abrangente que poderia resultar em um livro com facilidade. Mas vamos nos deter ao contexto de conto.

Comentário 2: Percebe como o primeiro ponto do plot dá a possibilidade de narrar-se em primeira pessoa? Este é um ponto a ser pensado posteriormente, na fase de execução da obra.


1.5 - Anote os objetivos centrais

Os objetivos de uma trama não estão expressos no plot, isso é algo que precisa ficar bem claro ao autor. Enquanto o plot demonstra o início ou até algum detalhe importante do meio de um enredo, os objetivos centrais devem tratar daquilo que será o guia para o andamento do começo ao desfecho da história.

Este é um bom momento para decidir qual será o final do enredo, para que assim se possa ter um guia para elaborar os objetivos de forma coerente.

Exemplo: Vamos tentar abstrair pelo menos dois objetivos para guiar este enredo sem criar a necessidade de uma grande extensão de narrativa:

Objetivo 1: O desejo do protagonista em retornar para a Terra em conflito com a realidade contrária a este anseio.

Objetivo 2: Demonstrar o caos que se pode gerar em uma sociedade graças a informação de um possível desastre futuro. Será essa previsão verdadeira?

Comentário: Perceba que apesar de serem guias, ainda não existe um desfecho? Vamos então criar um desfecho direto, mesmo que genérico para saber para onde devemos levar o enredo:

Desfecho: O protagonista não consegue voltar para a Terra.


2 - Divida em etapas principais

Etapas genéricas, guiando o início para o final. Não é preciso nenhum tipo de detalhamento, apenas tente pensar quais partes devem existir para que a trama saia do ponto inicial e chegue com naturalidade ao seu desfecho.

Exemplo: Agora é a hora de transformar essas diversas idéias que o plot criou em algo ordenado e sequencial

Etapas:

a) Apresentar o protagonista e sua realidade na nave-colônia
b) A previsão catastrófica que se espalha como um boato
c) As notícias da guerra na Terra
d) Caos
e) A chegada a um novo Planeta


3 - Detalhe cada etapa em acontecimentos-chave

Agora abrimos cada uma das etapas em acontecimentos menores.

Exemplo

a) Apresentar o protagonista e sua realidade na nave-colônia
    - O protagonista em seu trabalho como engenheiro de manutenção da colônia
    - A realidade da colônia: sociedade, famílias, modo de vida e valores.
b) A previsão catastrófica que se espalha como um boato
    - Um conselho de cientistas, estarrecido pela previsão do novo computador
   - O relatório com o desastre passa de mão e mão na alta cúpula de cientistas que governam a nave-colônia
    - O vazamento da notícia
c) As notícias da guerra na Terra
    - Protagonista tenta contato com os amigos deixados para trás
    - Chegam notícias de que os conflitos na Terra explodiram em uma guerra de proporções planetárias
d) Caos
    - O pânico se tornando generalizado
    - Os governantes da nave tentam acalmar a população, com pouco efeito
    - Engenheiros são convocados para ajudar a controlar a situação, visto que são poucos os agentes de segurança existentes na nave-colônia
    - Uma verdadeira guerra civil se instaura dentro da nave
    -  Medidas extremas para conter o caos são tomadas
e) A chegada a um novo Planeta
    - Mesmo com a perda de mais da metade da população, a nave-colônia chega a um novo Planeta
    - Apesar das tentativas de contato com a Terra, a nova colônia planetária não mais consegue respostas do Planeta-mãe.

Comentários: Talvez vocês, assim como eu enquanto trabalhava nesta etapa do exemplo, tenham notado que algumas coisas parecem não se encaixar com perfeição no seguimento da trama. Isso é natural e até desejável. Em uma etapa mais à frente da estruturação iremos tratar destes casos.

4 - Se possível, detalhe ainda mais

Esta etapa é fundamental para enredos longos, de noveletas e romances propriamente ditos. Em contos não é possível um detalhamento tão grande, até porque o objeto (o conjunto total do enredo) é muito mais limitado e o espaço para desenvolver o mesmo também. Porém dê bastante atenção para este enredo


5 - A lista de cenas

Aqui é onde irão ser enumeradas todas as cenas. Atenção para o tamanho das descrições de cada cena. É interessante que cada cena seja resumida em uma frase simples ou um par de orações coordenadas. Deixe os detalhes para uma etapa mais à frente e foque-se no conteúdo central e valor de cada cena para a construção do enredo como um todo.

Exemplo: Para criar a lista de cenas apartir de uma lista bem detalhada de acontecimentos é até bastante simples. A grosso modo basta perceber quais linhas devem ser mescladas e fazê-lo e, o restante, transcrever do modo como foram feitas a princípio

Lista de cenas - Conto sci-fi

01 - O protagonista em seu trabalho como engenheiro de manutenção da colônia
02 - A realidade da colônia: sociedade, famílias, modo de vida e valores.
03 - Um conselho de cientistas, estarrecido pela previsão do novo computador & O relatório com o desastre passa de mão e mão na alta cúpula de cientistas que governam a nave-colônia
04 - O vazamento da notícia
05 - Protagonista tenta contato com os amigos deixados para trás & Chegam notícias de que os conflitos na Terra explodiram em uma guerra de proporções planetárias
06 - O pânico se tornando generalizado
07 - Os governantes da nave tentam acalmar a população, com pouco efeito
08 - Engenheiros são convocados para ajudar a controlar a situação, visto que são poucos os agentes de segurança existentes na nave-colônia
09 - Uma verdadeira guerra civil se instaura dentro da nave & Medidas extremas para conter o caos são tomadas
10 - Mesmo com a perda de mais da metade da população, a nave-colônia chega a um novo Planeta
11 - Apesar das tentativas de contato com a Terra, a nova colônia planetária não mais consegue respostas do Planeta-mãe.

Observação: em sublinhado estão cenas que acabaram sendo fundidas nesta etapa.

6 - Analisando a fluidez das cenas de acordo com os objetivos

"Nem tudo precisa ser mostrado" é a máxima que rege esta etapa do desenvolvimento. Este é o primeiro ponto de crítica que se fará a respeito do enredo que está sendo construído. Tudo o que estiver "a mais" deverá ser cortado para que uma nova versão, mais refinada, da lista de cenas surja.

Exemplo: desde que comecei a estruturar essas cenas percebi que essa parte relacionada à Terra não estava combinando com o restante da trama. Acredito que seja melhor retirar essas partes e deixar apenas alguma citação breve através do protagonista. Isso também dizendo respeito ao final do enredo. É preciso dar menos espaço a essa distância da Terra graças à misteriosa guerra e focar-se mais nas angústias e frustrações do protagonista que ao final da história irá perceber que jamais seus anseios serão realizados.


7 - A segunda versão da lista

Depois de analisada e repensada, a lista de cenas está pronta para ser refinada, em algo mais coerente com a proposta inicial.

Atenção: em enredos longos é provável que seja necessário repetir algumas vezes as etapas de análise-corte e construção de novas listas de cenas. O importante é chegar o mais próximo possível do ideal.

Exemplo:

01 - O protagonista em seu trabalho como engenheiro de manutenção da colônia. Citar guerra na Terra  &  A realidade da colônia: sociedade, famílias, modo de vida e valores.
02 - Um conselho de cientistas, estarrecido pela previsão do novo computador & O relatório com o desastre passa de mão e mão na alta cúpula de cientistas que governam a nave-colônia
03 - O vazamento da notícia
04 - O pânico se tornando generalizado
05 - Os governantes da nave tentam acalmar a população, com pouco efeito
06 - Engenheiros são convocados para ajudar a controlar a situação, visto que são poucos os agentes de segurança existentes na nave-colônia
07 - Uma verdadeira guerra civil se instaura dentro da nave & Medidas extremas para conter o caos são tomadas
08 - Mesmo com a perda de mais da metade da população, a nave-colônia chega a um novo Planeta
09 - Protagonista em sua nova rotina trabalhando para o estabelecimento no novo planeta. Suas reflexões sobre a impossibilidade de retornar.

 Comentário: em sublinhado as mudanças relacionadas ao que mencionei que deveria ser excluído, no tópico anterior. Percebam também que ouve outra fusão de cenas.

8 - A "Passagem de Cenas"

A Passagem de Cenas aqui citada é inspirada diretamente no procedimento conhecido como "Passagem de Cenas Expandida" onde cada cena antes enunciada como uma frase curta é desmembrada em alguns parágrafos, contado de forma resumida como irá se dar o desenrolar da cena. É aconselhado que cada cena seja adaptada para pelo menos meia página de escrito.

Em particular também acrescento um cabeçalho com informações da cena em questão como POV (point-of-view), objetivo da cena e, em alguns casos, qual "tom" a mesma deve passar.

Para o exemplo irei destrinchar apenas uma das cenas do conto que estruturamos neste exemplo para a postagem.

Exemplo

01 -  O protagonista em seu trabalho como engenheiro de manutenção da colônia. Citar guerra na Terra  &  A realidade da colônia: sociedade, famílias, modo de vida e valores. 
Objetivo: Apresentar Protagonista e detalhes daquela sociedade
  * Protagonista indo para seu trabalho diário de engenheiro;
  * Protagonista passa por vários setores da nave no caminho. Aqui ele explica sobre a estrutura daquela sociedade;
  * Protagonista encontra com um colega também engenheiro. Ele sabe que o amigo perdeu a família ainda na Terra. Seus pensamentos são levados à Terra e ele cita a situação difícil que o Planeta-mãe estava quando partiram;
   * Protagonista começando a fazer seu trabalho diário de manutenção dos sistemas que mantém a vida de toda a nave-colônia
[Fim da cena]

Agora sim, tudo pronto

Com a Passagem de Cenas, seja a mais tradicional até uma versão simplória e improvisada em mãos é possível declarar que já se tem toda a estrutura de um enredo em mãos.

Uma observação importante é: NADA É ABSOLUTO, ainda mais falando de ficção. É bem provável que nas primeiras vezes em que se for tentar desenvolver uma narrativa apartir de uma estrutura organizada se encontre vários pontos que precisem ser alterados na execução para que o enredo não se perca dos objetivos, ou não dê destaque demais a personagens secundários em desfavor do protagonista. . .  Enfim, toda a sorte de mudanças podem ser necessárias e devem ser feitas durante a execução. Nenhuma estrutura, por mais bem pensada que seja, é um mapa absoluto para o sucesso de uma ficção, mas sim um guia que irá ajudar o autor a não chegar a pontos onde se perguntará "e agora? O que acontece a seguir?".

Mas cadê os personagens?

Sim, você deve ter notado que não foi citado em nenhum momento o trabalho necessário para elaborar e aprofundar os personagens que irão dar vida ao enredo ficcional elaborado.

Essa "falha" foi proposital e o motivo é simples: Personagens são um tópico fundamental e extremamente complexo da ficção, portanto necessitam ser tratados e analisados em sua elaboração em um momento separado. Neste artigo cabe apenas deixar claro que o desenvolvimento da estrutura do enredo deve caminhar praticamente em paralelo com o desenvolvimento dos personagens para que esses dois elementos acabem não se tornando pouco associados, o que criaria uma estranheza enorme tanto na hora de escrever quanto depois, quando tal enredo fosse mostrado a um leitor.

Futuramente iremos tratar aqui no Creative 1000% sobre a parte teorica e prática do desenvolvimento de Personagens, pois este é um ponto fundamental da Ficção.

Finalizando

Gostaria de fechar este artigo apenas relembrando que esta metolodia é fruto de conhecimento empírico, fortemente apoiada sobre estudos de técnicas já consagradas nos meios literários e cinematográficos. Acredito profundamente que o bom de conhecer metodologias de outros artistas seja exatamente para poder refletir e aperfeiçoar suas próprias técnicas. E é com este intuito que apresentei neste texto com a maior clareza possível minha metodologia "padrão" de trabalho. Nem sempre sigo meus próprios métodos, mas esta sistemática é sempre um norte interessante para referenciar-se.


Lilian K. Mazaki