terça-feira, 7 de novembro de 2017

Mundo Cyberpunk

O Cyberpunk não morreu, ele virou nosso café da manhã todos os dias quando abrimos os jornais virtuais.

O mundo vai ser destruído pela histeria. Vivemos na Era da Histeria, sucessora maléfica da Era da Informação. Neste momento utilizamos todos os meios de alta-tecnologia desenvolvidos até então para gerar ondas de ódio e reações descomunais pela menor das coisas. Não existe mais uma satisfação do Eu que não seja o Eu Virtual. Todos são avatares de si mesmos, alguns com o próprio nome e foto, outros com imagens de quaisquer naturezas e nomes de qualquer origem que lhe agrade mais do que o da sem graça realidade.

O conceito de realidade e de vida se tornou obsoleto. Realidade é uma mensagem de internet, vida é o tempo que você desprende consumindo a avalanche interminável de conteúdo supérfluo que te deixa feliz e anestesiado das ondas de histeria. Para sobreviver é preciso enlouquecer e matar por qualquer coisa estúpida como opinião.

A maioria das pessoas vive conectada. Seus rostos estão vazios enquanto elas olham para o buraco infinito na palma da mão. A Internet. São capazes mesmo de esquecer do que acontece ao redor, das pessoas ao redor, e muitas vezes o fazem propositalmente para anular qualquer sentimento que a realidade imediata possa lhes trazer. Esquecer-se é o mais importante. Esquecer-se de quem é, de onde vive, das suas falhas, dos seus sucessos. Esqueça de tudo, viva quatrocentas e cinco vidas diferentes nestes nossos quatrocentos e cinco sites/jogos/mmos/redes distintos! Seja o que você jamais poderia ser, de graça! Claro que para os assinantes premium tudo isso será liberado, sem propagandas!
Os dias passam, os meses passam, os anos passam. Por mais que sejamos obcecados pelo buraco infinito da Internet nossos cérebros e corpos foram feitos para um mundo de carne e osso. Não percebemos o tempo no digital. Ontem parece hoje, dez anos traz é mais longínquo do que a Primeira Guerra Mundial. Criamos novas possibilidades de guerras porque estamos entediados, porque nosso ego fraco é massageado todas as vezes que alguém curte uma postagem nossa.

Desplugar parece impossível, inviável. Ninguém pode viver sem informação. Como o dia de alguém poderia estar completo se essa pessoa não ver a última da última selfie publicada por aquela idol lindinha na rede? Essencial. Ler todas as traduções oficiais e piratas dos conteúdos especializados que tanto se cultua. Imprescindível. Ver o mais novo ataque de ódio ao estilo medieval vindo de pessoas que nunca ouviram falar da palavra empatia. Sim, sem isso não daria para viver.

Ninguém propaga o amor, só o ódio. O ódio contamina, se espalha e nos devora antes que sejamos capazes de enxergar o que estamos fazendo. Nos tornamos zumbis da rede e zumbis do ódio. Odiamos o filme novo da DC, odiamos quem odeia o filme novo da DC. Odiamos os odiadores que odeiam pessoas que só não queriam ser odiadas por serem que são. . . Há regras para todos os lados. Seja isso, seja aquilo, não seja um devorador de criancinhas. . . Penso que cabeça terão as tais criancinhas, crescendo nesse mundo de gente que tem mais medo de gente do que gente tinha medo de pecado na tal Idade Média.

Talvez pareça impossível se desplugar, mas falando por experiência digo que é a melhor coisa. Talvez seja impossível mesmo escapar desse mundo cyberpunk que nos vem à mesa todos os dias, mas alguém tem que ser da Resistência e, para isso, basta vencer o medo do silêncio absoluto de estar sozinho num mundo onde até pensamentos já nascem em bytes.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

[Conto] A Primeira nota

Link para leitura no Wattpad: (em breve)





O tempo passara sem que ela tivesse notado. Os sonhos tinham se tornado apenas vontades não realizadas e as esperanças foram sufocadas pela rotina e as obrigações que ela nem sabia mais se eram realmente necessárias.

Estava com trinta e cinco, morando em um apartamento pequeno dividido apenas com seu gato, Nícolas. Assistia TV a cabo nos fins de semana, mas muitas vezes terminava por ver filmes repetidos por não estar prestando atenção o bastante no que via até a cena final. Visitava a casa dos pais uma vez por mês e sempre ignorava as perguntas sobre casamento ou filhos. Se nem a si mesma tinha tido sucesso em conhecer, como poderia pensar em conhecer outra pessoa ou criar uma nova vida? Nícolas era possessivo demais para deixar-lhe ter esse tipo de liberdade.

O choque de realidade lhe ocorreu em uma manhã de sábado, ao acordar bruscamente de um pesadelo qualquer. Seu coração disparava e o silêncio do seu quarto, iluminado pela luz que atravessava a persiana foram as únicas testemunhas daquele instante de revelação.

Quem ela era? O que ela deveria ser?

Tinha certeza de que em algum lugar de um passado já muito distante ela tivera sonhos, vontades e anseios para o futuro. Se soubesse naquela época que terminaria daquela maneira medíocre talvez não tivesse sido tão doloroso. Havia sido doloroso? Já nem lembrava mais.

Talvez tivesse algo haver com arte. Adolescentes sempre colocam na cabeça que podem ser grandes artistas e que isso irá mudar não só suas vidas como todo o Universo. Tolices que só nos damos a chance de pensar quando ainda não temos que pagar nossas próprias contas ou temos que enfrentar um rotina de escritórios abafados e com pessoas cheias de rancor afim de destruir uns aos outros.

Talvez tivesse algo haver com arte. Mas que arte? Não lembrava de desenhar alguma vez fora das aulas do Fundamental. Teatro? Logo alguém sem qualquer vontade de se expressar? Música. . . Sim, poderia ter haver com música. Affe, qual era o sentido de se debater com o que havia ficado para trás?

Sentou na cama e ligou a televisão. Passou vários canais e seus dedos distraídos congelaram quando passou por um dos canais de filme de sempre. Não fora a imagem a responsável por seu estupor, mas a melodia dramática que acompanhava a cena.

O som límpido do clarinete soava em destaque e aquilo levou lágrimas ao seu rosto antes que fosse capaz de perceber. Havia embarcado em uma máquina do tempo antes que fosse capaz de deter-se.

A apresentação da banda da escola na entrada do Médio. Havia uma moça de óculos redondos, cabelos crespos presos em tranças grossas. Ela tocava o clarinete e era tão lindo. . . Tinha tentando encontrar aquela outra aluna por todos os três anos, mas só havia tido sucesso uma vez que vira a tal aos beijos com um rapaz corpulento, talvez do segundo ano.

Não valia a pena insistir. Nem no clarinete, nem na tocadora de clarinete. Aquele fora o fim do seu curto sonho de ser algo além de uma pessoa qualquer.

Lembrava de ter pensado em entrar para aulas quando estava na faculdade. Mas o medo de falhar, de não ser boa o bastante, de ser criticada pelos pais, pelos amigos. . . Aquilo era demais. Além do mais uma mulher de dezoito anos já era velha demais para começar algo daquele estilo. Não tinha nascido com o dom. Se tivesse com certeza teria sido descoberto, por algum milagre, já que nunca havia sequer segurado um instrumento de sopro nas mãos durante a vida.

Aquilo já fazia tanto tempo, pensou ao retornar à realidade. Era tão pequeno e estúpido e ainda assim havia sido sua única esperança. Esperança que havia sido varrida completamente junto com a necessidade de largar Jornalismo para trabalhar em período integral.

Naquela tarde não ficou em casa vendo reprise de As Branquelas.

Foi para o centro da cidade e caminhou sem muita intenção. Seus pés sabiam onde queriam ir e assim ela se viu diante de uma loja de eletrônicos de instrumentos. Havia um clarinete na vitrine.

Tinha algum limite disponível no cartão, o suficiente para comprar o instrumento. Mas para quê? Começar a tocar clarinete com trinta e cinco anos? Perturbar os vizinhos de cima e do lado com notas desafinadas e receber uma advertência do síndico? Provavelmente Nícolas iria ficar irritado com o som, afinal tinha um gosto muito mais refinado do que ela.

Idiotice. Era impossível. Tirou-se dali e seguiu sem um rumo. Não iria se deixar levar por um par de pés que não sabia os limites do razoável.

Comeu numa cafeteria elegante e então passou por duas livrarias de rede que nem lembrava existirem. Folheou algumas coisas sobre música, sem qualquer motivo, e retomou a caminhada. Sentia-se uma estranha na sua própria cidade. Não parecia reconhecer nenhum lugar e todas as esquinas continham surpresas. Quando menos percebeu estava na frente do prédio que abrigava a escola de música da orquestra municipal.

Estavam com inscrições abertas. O valor era bem abaixo do mercado (sem intenção havia reparado nos cartazes de outras escolas). A secretaria estaria funcionando ainda por meia hora. Apenas meia hora para resistir à tentação de tomar uma atitude estúpida.

Não tinha motivos para tentar. Não tinha qualquer esperança de que aquilo fosse dar em alguma coisa. Por que não se virava e ia embora? Sim, ia fazer isso.

E fez. Virou de costas e começou a se afastar. Porém as portas da escola se abriram e as vozes entusiasmadas lhe chamaram a atenção. Ela se virou.

Um grupo de cinco jovens falava animado, acompanhando uma mulher mais velha. Levavam cases nas mãos e a mulher parecia comentar suas impressões sobre as performances da aula recém-terminada.

Óculos redondos. Cabelos crespos curtos ao redor da cabeça. Era como um delírio muito real. Uma miragem legítima. Ainda que fosse apenas uma mentira, era tudo o que precisava para mudar a direção de seus passos.

Quinze minutos deveriam ser suficientes para realizar uma matrícula.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

[Conto] Um motivo qualquer


y 400 h 2 w z 56 2 112
"Eu canto porque o instante existe"
o 20 o - 556 h e d f 123 az
"E minha vida está completa."
h 11 G J B 5 5 67sE e a !H
"Não sou alegre, nem sou triste"
P m 4 h 56764 gFy2 a 4 00 0 1 22
"Sou poeta."

Agnus piscou uma, duas, quatro e seis vezes antes de enfim reconhecer o estranho padrão infiltrado em meio a comunicação. Fazia tanto tempo, mas tanto tempo que ele não via algo daquele tipo que, num primeiro momento, lhe soou como algo aleatório, solto. Um ruído de fundo na informação que realmente lhe era importante. Afastou-se do deck para observar melhor aqueles caracteres:

"Algum problema aí? " Perguntou Valkyria, sentada em uma poltrona logo ao seu lado. "Parece ter visto um fantasma na rede, Ag."

O homem voltou seus olhos para a piloto. Sua mente só então começou a absorver os sons ao redor. A música agitada vinda dos alto falantes nos decks auxiliares. O zunido constante do hyperespaço. Ele olhou para frente e viu, logo após o para-brisa blindado distorções coloridas com padrões absurdos.

De fato, ele estava viajando em um cruzador em dobra espacial:

"Não foi nada, eu só. . . " Ele começou, com a garganta seca. "Me distraí com alguns fantasmas. "

"Você está pálido, cara. " Falou a piloto, meio humana, meio andróide, de pele azulada e traje roxo colado ao corpo. "Talvez esteja exagerando nos estimulantes."

"Talvez. . ." Admitiu Agnus. "Tenho dormido pouco. "

Atrás dele um rapaz sardento observava curioso. Apesar da aparência juvenil ele tinha a idade somada de Agnus e Valkyria:

"Que fantasma foi esse? " Perguntou ele, a voz oscilando de tom. "Alguma informação útil?"

"Não mesmo. Foi só que. . . Era algo parecido com a minha língua original."

Valkyria assoviou:

"Que sinistro. Ninguém fala essa língua fora daquele buraco que você nasceu, Ag. Não tem como ter algo escrito naquele código arcaico estar infiltrado nos dados bidimensionais. "

"Mas, mas. . ." Interveio o rapaz de voz complicada. Seu nome era Laius. "Mas e se for realmente um fantasma? E se alguém está usando essa língua para transmitir algo secreto. Pode ser vantagem que o Agnus consiga ler essa informação sigilosa pra nós. "

"Não tinha pensado nisso, mas parece razoável. " Concordou a piloto, esboçando um sorriso de ganância. "O que cê acha, Ag? É algo que pode ser útil?"

Agnus olhou novamente para seu deck. Havia mais coisas infiltradas nos dados. Ele leu e releu algumas vezes as informações naquela língua a tanto deixada pra trás. Que sentimento estranho. Por um instante ele sentiu-se de volta ao litoral de um planeta insignificante, numa outra galáxia tão insignificante quanto possível:

"Se isto tem um motivo, não acredito que seja algo especial. São frases soltas e elas mal fazem sentido. " Ele disse, depois de analisar aquilo mais algumas vezes.

"Pena. " Disse Laius. "Eu me diverti com a ideia de um código em língua arcaica por um momento. "

A viagem seguiu sem maiores problemas, porém Agnus não conseguiu mais esquecer aqueles códigos. Frases mais sem sentido. Não era a toa que ninguém nesta galáxia tinha ouvido falar do tal Português.

hG 5r 667r As F D b N
"Sei que canto. E a canção é tudo."
S F 6 778 9897 dfs ¨D¨7%$
"Tem sangue eterno e asa ritmada."
:a3 Dd$54 dd4 % as 44
"E um dia sei que estarei mudo:"
^] 87 Gg6& 6g¨¨5% J
"mais nada."

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

[Conto] Traços no chão

Link para leitura no Wattpad: https://www.wattpad.com/484534022-tra%C3%A7os-no-ch%C3%A3o



Verônica não precisava de muita coisa para ser feliz. Um pedaço de giz branco ou rosa era o bastante. Ela traçava linhas compridas e tortas no pátio de cimento puro e fazia desenhos sobre alguns lugares.

Uma ondinha pra cá, uma ondinha pra lá. Uma volta aqui, uma volta ali. Pronto, estava marcado o território mais perigoso.
"Menina, vem almoçar!" Chamava sua mãe.

"Shh, você vai acordar os Marci-peronautas!" Alertava Verônica, se abaixando para se esconder dos terríveis alienígenas.

Donos de boa parte do centro do pátio, os marci-peronautas não eram nada amigáveis. O importante era caminhar bem quietinha para que não ouvissem seus passos, senão. . . Bom, aí teria problemas. Porém o risco sempre valia a pena quando Verônica lembrava que depois dos enormes domínios do marci-peronautas estava o reino dos Pôneis, onde a diversão era garantida e o sol era tapado pelo muro de trás do quintal.

Toda essa encrenca poderia ser evitada se ela entrasse pelos Labirintos Óptico-Finais, mas isso sempre acabava em uma briga feia, pois os anões do labirinto sempre lhe seguiam para chegar ao reino dos pôneis, para roubar tudo. Quando estava sem paciência para andar em silêncio, Verônica deixava que o caos se instaurar.

Afinal, quando as coisas ficassem mesmo bagunçadas ela sabia que os nobres heróis-peixe iriam vir saltitando com suas carruagens puxadas por cavalos-marinhos mágicos de dentro da floresta de NuíNuin (que ficava em algum lugar secreto atrás do pé de carambola).

Assim eram os dias de Verônica, vivendo essa constante disputa de reinos mágicos rivais. Por sorte havia escapado inteira sempre.

Sua vida de grande aventuras terminou quando se mudaram daquela casa para um apartamento no centro da cidade. Fora apenas ela e sua mãe, o que fizera Verônica se perguntar se seu pai havia decidido tomar seu lugar como embaixadora das nações do quintal. Para sua surpresa, quando foi visitá-lo, ele também não estava mais na casa.

Verônica passou muito tempo pensando se as coisas haviam ficado em paz entre anões e pôneis. Se os marci-peronautas tinham mostrado enfim seu poder e dominado todo o pátio. Aquilo era tão preocupante que ela chegou a escrever algumas cartas de aconselhamento político para os diferentes reinos. Mesmo sua mãe tendo ficado encarregada de levar os documentos diplomáticos, a verdade é que nenhuma resposta chegou. Era possível que o inverno gélido das montanhas ao sudoeste das florestas dos heróis-peixe tivesse impedido a saída do mensageiro.

O tempo foi passando e Verônica foi esquecendo do pátio. A escola ocupava cada vez mais espaço em sua vida e a ignorância de seus amigos em relação aos marci-peronautas havia deixado de irritá-la para apenas lhe fazer parar de insistir no assunto.

Estranhamente não houve nenhum inverno desde que ela saíra de perto dos reinos do pátio. Era sempre quente, sempre. Equatorial úmido, dizia a professora e os livros da quinta, sexta, sétima e oitava. Verônica percebeu naquele natal que nunca havia visto neve.

Os assuntos das amigas se tornaram seus assuntos. Ouviu as músicas delas, viu os filmes delas, sonhou com os garotos do Terceirão, assim como elas. Ainda que se divertisse, Verônica sentia-se cada vez mais parecia com os outros e mais diferente de si mesma.

E quando viu o mundo havia se tornado todo igual e ela igual a todos. Que lugar chato, vamos sair e beber na sexta-feira. Não posso, tenho que terminar um trabalho da facul. Que isso, o pessoal do escritório vai fazer um happy hour e o chefe não vai. Mas minha mãe está no hospital, é a idade. Na verdade eu agora moro sozinha e às vezes visito meu pai. A minha madrasta vive querendo saber quando vou casar. Vamos sair e beber de uma vez.

Não parecia haver nada capaz de divertir Verônica depois de um dia monótono e estressante de trabalho. Nem bebida, nem jogos, nem conversa fiada com as amigas pelo whatsapp. Tinha como ser diferente?

Uma ondinha pra cá, uma ondinha pra lá. Uma volta aqui, uma volta ali.

"Que pixação estranha essa." Comentou o colega de serviço, vendo que Verônica havia parado para olhar a parede coberta de cartazes de shows sobrepostos uns sobre os outros.

Verônica não respondeu nada. Por segurança, se afastou dali em silêncio. Algo dentro do peito chiou. Alguma coisa parecia uma pista de algo que ela não lembrava mais.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

[Conto] Telefone




Raquel estava na sala de casa. Agulhas nas mãos e tutorial no Youtube, ela aprendia a dar os primeiros pontos apenas para preencher o tempo excessivo que tinha. O filho não estava em casa e ainda era muito cedo para fazer o jantar.

Foi então que o telefone tocou.

O telefone, uma bela peça dos tempos de seus pais. Verde lima, com números dispostos em círculo com um discador de plástico por cima. Detalhes metálicos e um fio grosso marrom ligavam aparelho e gancho. Ele estava disposto no canto do balcão antigo, logo do lado de um porta-retratos.

Ele tocava. Raquel pausou o vídeo no smartfone e foi até o ancestral telefone de disco. Um soar alto e estridente que não se poderia ignorar vinha do aparelho. Autêntico toque que lembrava desde a época que era uma menininha, na casa de sua avó Cida.

Atendeu:

"Oi, amor. Que demora pra atender." Reclamou uma voz especialmente familiar.

― Borges? ― Raquel perguntou, sabendo ser ele.

"Sim, eu." Respondeu o marido. "Escuta, amor. O Alceu vai me liberar mais cedo hoje. Tô ligando pra dizer que eu adoraria se você fizesse aquele camarão com massa que é sua especialidade. Quero aproveitar nosso tempo juntos de uma maneira especial."

Raquel ouvia a voz do marido enquanto contemplava seu rosto no porta-retrato ao lado do telefone. Uma foto das antigas, que máquina de filme,  um homem de rosto magro e cheio de energia nos seus trinta e poucos anos:

"Agora tenho que voltar ao trabalho. Até mais tarde, meu bem." Despediu-se ele, desligando a seguir. Os tons da linha cortada ficaram martelando na cabeça de Raquel durante um tempo até que ela deixou o gancho de lado, pendurado para fora da mesa.

Esse Borges. Sabe que é alérgico a camarão e mesmo assim sempre está se arriscando. Era sempre um problema. Volta e meia iam parar em uma emergência porque o marido comia algo na volta do trabalho e chegava todo embolotado em casa.

Claro que ela não ia fazer o prato, claro. Ainda assim arrumou a bolsa e catou o celular de cima do sofá. Tinha algo à fazer agora, e talvez fosse uma boa passar no consultório da Rosângela na volta, apenas para dizer que estava indo tudo bem.

No corredor para a saída, Raquel olhou na direção do quarto do filho. A porta estava aberta. Sorriu e saiu, mas não sem antes mandar uma mensagem para a secretária da terapeuta.

A casa ficou em completo silêncio. Desde o segundo quarto, sempre de porta aberta para o vazio do seu interior, sem qualquer móvel ou decoração, até a sala e seu antiquado cantinho de velharias.

A secretária teria ligado para a casa para avisar que não tinham como encaixar uma consulta em cima da hora, porém o telefone do consultório não conseguia ligar para celular e na ficha de Raquel não constava nenhum número fixo.

Nos tempo de smartfone, ninguém mais tinha um telefone funcionando em casa. Nem mesmo a viúva e aposentada precoce. O aparelhos de antigamente haviam se tornado peça de decoração. Como aquele verde e marrom, enfeitando ao lado do último retrato do falecido.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Quando verdade e ficção são vistas como coisas iguais

Uma das minhas intuições pessoais favoritas é a de que para nós a ficção e a realidade tem o mesmo peso. Essa intuição só foi se fortalecendo com o tempo e leituras sobre o tema. Descobri que ao lembrar de algo não fazemos mais do que uma encenação mental de detalhes que registramos dos acontecimentos. Por termos uma capacidade limitada de guardar as informações que muitas vezes lembramos das coisas de maneira muito diferente do que outra pessoa que estava lá.

De certa forma lembrar é o mesmo que imaginar. Quando imaginamos uma cena de um livro estamos fazendo um processo bem similar ao de lembrar do primeiro dia de aula do Ensino Médio (aquela merda de dia). Ou seja, não há diferença mental entre coisas que realmente aconteceram e coisas que aconteceram em filmes ou livros.

Ficção e Realidade estão no mesmo nível. Ótimo! Comprovei minha intuição e todos foram felizes. . . Certo?

Hoje na aula de Estudos Portugueses I (a qual eu carinhosamente apelidei de Filosofia 2017/2) os debates culminaram em uma constatação no mínimo estarrecedora do momento em que vivemos: Estamos em um mundo onde alguém pode dizer que o Nazismo nunca existiu e isso ser tratado no mesmo nível do que uma declaração de um historiador com décadas de experiência do assunto sobre o oposto.

Indo para outros exemplos, estamos em um momento em que pessoas são capazes de defender a Terra Plana e dizer que toda a ciência dos séculos que nos antecederam são apenas "mentiras feitas para beneficiar os vendedores de globos terrestres pra aulas de geografia mentirosa". Não importa o quanto isso seja estúpido, simplesmente tudo é tratado como se fosse tão relevante quanto as descobertas feitas pelas pesquisas mais recentes dos astrônomos que dedicassem suas vidas nas missões bilionárias da NASA.

A mentira deixou de ser mentira para se tornar pós-verdade, para se tornar apenas mais uma versão da ficção que a verdade também se tornou. Mentira e Verdade são a mesma coisa.

Agora o que me parecia uma questão teoria interessante, que criava a possibilidade de que Sofia e Heidi e Nós estivéssemos numa igualdade de existências se ligou a um viés de violência ideológica e obscurantismo histórico que atormenta nosso convívio social diário. Vivemos em um tempo onde tudo acontece muito rápido, então não há como saber se essa onda de pensamento retrógrado irá passar em uma década e afundar nossa sociedade em um século de retrocesso perigoso em todos os níveis.

Vivemos uma histeria controlada ao limite. Aqui no Brasil estamos sendo enganados todos os dias pela classe política, engolindo um Golpe e ouvindo um bando de babacas falando em colocar um racista homofóbico como próximo presidente. Está tudo tão relativizado que isso outrora seria uma piada e agora é medo real.

Será que realmente é uma boa ideia que ficção e realidade sejam iguais?

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Como o acordar de um sonho

Se existe uma coisa que não existe realmente é esse tal de tempo. Pode parecer bem esquisito falar sobre isso, mas o fato é que o tempo é uma convenção que tem tanta utilidade prática quanto um lado desfavorável: o de nos tornar distante de coisas que poderíamos estar sempre próximos. Tudo porquê acreditamos realmente que dias, meses e anos são algo relevante.

Apenas ontem percebi que faz mais de dez anos desde o lançamento de uma das séries de animação que mais influenciou meu pensamento criativo: Suzumiya Haruhi no Yuutsuu. Aquilo foi uma pancada no peito. Nossa, dez anos, mas isso é tanto tempo!

Espera, é realmente tanto tempo?

De maneira inevitável meu pensamento se tornou um mar de historiografia pessoal: a época em que era uma feliz tola que organizava eventos de karaokê de músicas de anime; os dias trabalhando eventos; a capacidade de cantar mais uma vez "God Knows. . .", uma das músicas presentes na primeira temporada de Haruhi; Depois veio o desafio de mudar de um canto para o outro do país; afastamento de amigos e uma inevitável perda de boa parte da confiança e obstinação para realizar o que quer que fosse, pelo fato de ter que lidar com a jornada nada simples de aprender a viver sozinha, trabalhando para pagar aluguel em uma cidade nada convidativa como Rio Grande; então veio Porto Alegre, uma nova faculdade, a construção de novas amizades verdadeiras e então. . . Haruhi outra vez.

A música tem a capacidade de gerar um sentimento único em cada um de nós e esse sentimento não está necessariamente preso ao passado. Ouvimos música para sentir novamente o que sentíamos na época em que aquele som ficou marcado, mas nada diz que não possamos dizer que esse tempo realmente passou.

Qual a diferença entre ouvir God Knows há dez anos e ouvir agora se a sensação de ser capaz de fazer qualquer coisa no mundo em busca de sonhos ingênuos é a mesma? E daí que as leis secretas da sociedade dizem que você não pode mais ter sonhos depois dos vinte e cinco? O tal "mundo adulto" é uma chatice sem fim, com empregos medíocres e rotinas que destroem qualquer capacidade de ir além. Qual o problema de trazer de volta a força de vontade que já mudou a vida uma vez para si?

Parece uma asneira sem tamanho pensar que somos realmente incríveis e temos capacidade de realizar o que desejamos. Somos críticos e sabemos muito bem de nossas limitações, de que o caminho é longo e doloroso. Acrescentamos no nosso olhar a dose de negatividade diária e sabemos que é impossível. É impossível.

Mas precisamos enganar nossa mente viciada no fracasso. Lembrar de algo bom, fingir que ainda estamos fazendo aquela prova na qual nos saímos perfeitos. Fazer de conta que somos aquela pessoa que em um único momento de bravura deu aquela resposta certeira à uma pessoa inconveniente. Mentir pode nos tornar muito mais próximos de fazer tudo o que não faríamos se pensássemos de maneira, digamos, sensata.

Realmente faz tanto tempo desde que cantei Haruhi com meus amigos antes de partir sozinha para o outro lado do país por acreditar em amor?

Claro que não, dez anos são quase nada. Sinto como se tivesse acabado de acordar de um sonho maluco como o da Alice. Não sou mais aquela garotinha de 18 anos, mas ainda tenho toda a força para fazer o que só ela faria, enquanto cantarola a mesma God Knows.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Seria a consciência uma ilusão narrativa?

O texto a seguir é um fluxo de pensamento. Não é algo estruturado, mas sim um conjunto de idas e vindas de ideias transcritas da forma mais crua o possível, no momento em que foram colocadas em linguagem.

Trilhões de neurônios. Robôs que criam robôs e que geram uma consequência inusitada: a consciência.
A consciência é o ruído proveniente da ação desses bilhões de robôs celulares?
Somos ruído.
O fluxo de consciência não é único nem linear. Ele repete fatos e falas, mas também cria coisas novas, o tempo inteiro.
Se somos ruído, somos ruídos capazes de desvendar o Universo?
Ruído.
Se somo ruídos, basta que uma máquina também tenha bilhões de bilhões de partes lógicas independentes que esse mesmo tipo de ruído irá surgir naturalmente.
E então estará provado.
Somos consequência, não consciência.
Somos ruído.
Ruído que cria ruídos, que constrói o que não existe. Somos o ruído capaz de criar Universos novos, intangíveis. A cada segundo, para toda a eternidade.
Narramos a nós mesmos como se fôssemos um único personagem.
Obedecemos esse personagem
Ele é apenas um personagem
Não existe um Eu real, apenas uma forma narrativa que é resultado tanto de fatores químicos internos e inerentes ao caos dos robôs celulares, quanto à nossa própria capacidade de acreditar que existe um Eu real que determina como nós agimos.

A pergunta fundamental (Quem sou Eu?) é uma bobagem, afinal o Eu não é Ninguém e é todos ao mesmo tempo.
A consciência é o Tudo e o Nada.

A consciência surgiu apenas por conta da evolução? Essa evolução foi deliberada?
É possível, afinal um sujeito consciente é capaz de compreender abstrações do que um sujeito que age apenas em função de seus instintos subconscientes. É a diferença entre um cão e um homem. O homem é capaz de fazer coisas completamente sem sentido físico direto, mas que o levam à situações mais confortáveis ou favoráveis à sobrevivência.

A consciência é um ruído, mas não é um acidente.
A consciência é um ruído descontrolado, guiado pela linguagem, moldado para nos tornar capazes de sobreviver à muito mais do que os outros animais.
Mas somos falhos, nosso egoísmo e nossos impulsos violentos nos tornam destrutivos para com os outros.
Egoísmo, pensar apenas em si. Parece estranho que uma coisa ilusória como a consciência se preocupe tanto consigo mesma.
Ao mesmo tempo
É apenas sendo egoísta que a consciência consegue atingir seu potencial máximo de evolução. É assim que ela nos torna capaz de sobreviver à custa de outros, objetificá-los, ter vantagem, confortos e segurança extra. Segurança nunca é demais para a evolução.

Ou talvez seja.
Pois quando chegamos ao mundo onde conceitos importam mais do que perigos reais começamos a acreditar que realmente o tal Eu é algo que precisa ser entendido e elevado.
Nosso Eu é mais importante que o Eu dos outros.

A capacidade de abstrair estar no centro disso tudo.
Mas é notório que nossa consciência tem muitas falhas.
Ela é fraca e limitada
Pois nos prendemos à ilusão do eu
Pois somos incapazes de perceber o futuro com clareza
Por isso criamos perspectivas falsas
Criamos cenários irreais e acreditamos em falácias com muita facilidade

Somos nossas consciências?
Talvez no estado atual das coisas podemos dizer que sim
Somos os seres desse ruído
O ruído proposital
Porém estamos tão mergulhados no mundo dos ruídos que ganhamos novas camadas de complexidade que podem nos fazer bem, ou fazer mal
É a capacidade de ter crença. A mesma que pode nos fazer sobreviver às estações do ano ou pode nos levar à matar milhões de outros seres vivos sem piedade.
Mas afinal isso é mesmo algo ruim?
Os valores são coisas criadas por nós.
Mas do ponto de vista evolutivo criar violência não é inteligente quando ela gera a possibilidade de revanche, de retorno dessa violência contra nós.

Está dizendo que não existe a moral ou a bondade?
Nunca existiu.
É tudo coisa desse ruído maluco
Esse ruído

Agora, voltando à questão narrativa
Nós criamos personagens e nós mesmos interpretamos um personagem
Mas por que é assim?
Penso que possa ser uma questão de limitação
Assim como não somos capazes de falar diversas frases ao mesmo tempo, pois só temos uma boca,
Não somos capazes de nos compreender como seres diferentes ao mesmo tempo
Ainda que sempre sejamos diferentes
Somos a pessoa da faculdade
A pessoa do trabalho
A pessoa da família
A pessoa com nós mesmos
Buscamos, em alguns casos, harmonizar essa visão de quem somos
Criar uma narrativa coesa
Pois a falta de coerência é algo que nos incomoda
Mesmo em nós mesmos
Cria um tal "peso na consciência"
Por que não somos capazes de lidar com o fato de não sermos uma pessoa só
Nem mesmo de um minuto para o outro
Nem mesmo de hoje para amanhã
Somos o ruído
Uma resposta de instintos domados por pensamentos abstratos
moldados por linguagem
Linguagem oral, na maioria das vezes,
Mas também linguagem gestual, por libras, por imagens

Talvez seja difícil pensar que existe pensamento sem linguagem porque somos totalmente emoldurados sobre essa estrutura comunicativa
A língua
Mas isso não é uma verdade
Não somos capazes de pensar hoje sem palavras
Por que já crescemos tempo demais pensando com palavras

O pensamento por si só é uma questão muito interessante.
O que é o pensamento?

Tudo tem um motivo instintivo e biológico
Tudo é satisfação e segurança
Tudo
Mesmo o amor
Mesmo o ódio
Talvez seja fácil notar no medo
Mas é nebuloso se pensar nisso à respeito da ética
Mas todos são biológicos

O que leva à busca do conhecimento?
Satisfação
Nos tornamos complexos à ponto de compreender abstrações em níveis muito superiores à Abstração Primeira
Nós mesmos
O Ruído
Abstração Primeira
Eu
Consciência
Não existe nenhuma consciência?
É como a tela do celular
Uma cara
Na frente de sistemas muito mais complexos

Só vivemos de maneira narrativa
Não entendemos o espaço
o tempo
eu
o outro
o mundo
sem ser por narrativa
construímos narrativas desde que aprendemos sobre o tempo
mas só aprendemos sobre o tempo por termos memória do que já aconteceu
memória
marca do tempo que passou
aprendemos à duras penas sobre ação e reação
chorar nos deixa sem ver televisão
nossos pais nos ensinam sobre tudo isso
através da moldura da linguagem
Língua
As línguas são moldes de realidade
Realidade
A Abstração Segunda
Vem logo após o Eu
A Realidade é uma abstração do que nosso sentidos são capazes de captar
Com fatores lógicos e abstratos que construímos a partir de memórias e sensações

Se não somos os mesmos de cada segundo no passado
Escrever é o ato de colocar a expressão linguística desse ruído interminável em um espaço
seja digital
seja físico
Escrever é gravar o fluxo de linguagem que existe em uma parte do nosso pensamento
A ficção e a realidade são abstrações no mesmo nível
São Abstração Segunda
Pois ambas se passam em nosso Ruído
e ambas são intangíveis
ambas dependem só da nossa visão
ambas são reconstruções de conceitos apreendidos externamente
ou pelo menos reconstruções desses mesmo conceitos
repetição e reaparecimento
releitura
aprender palavras é aprender novas maneiras de construir abstrações

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Por que escrevo literatura?

Escrever é como uma forma de magia muito antiga e extremamente poderosa. Ela encanta quem lhe conhece e confere aos seus artífices capacidades extraordinárias.

Apenas através da escrita é possível imortalizar um sentimento. É através desse meio que se pode lançar uma emoção de dentro de um alguém para outras tantas pessoas, em tantos outros lugares do mundo e do futuro.

Escrever literatura pode servir ao bem e ao mal, pois está além desses conceitos fracos. A literatura influencia, marca e constrói a alma humana. Também esta tem a capacidade de destruir, desconstruir tudo o que havia antes no intuito de recriar uma alma mais forte.

Literatura pode ser apenas um entretenimento ou ser a mais ambiciosa possível e, em todos os casos, ainda carregará sempre consigo pelo menos uma semente daquilo que é intangível. Do mais profundo do que é a existência humana e do que é o mundo que construiu aquele autor. Mesmo quando o enredo em nada tem haver com a realidade é tudo sobre a realidade que de fato se vê.

Escrever é construir a si mesmo. É destruir suas certezas sobre si e sobre tudo. É tornar-se capaz de ouvir o outro e tirar disso palavras para tentar expressar o que se sente. É descobrir lugares ocultos da própria alma. É sentir como se a realidade de dentro e de fora de si fossem equivalentes ao ponto de uma não poder viver sem a outra.

Ainda que a maestria na arte da escrita seja algo para poucos, todos somos livres para experimentar dessa magia. Basta coragem, paixão e um fraco senso de praticidade. Afinal, num mundo de objetificações e urgências, sentar-se para escrever um romance é um ato de rebelião. Escrever é ir contra o que manda a regra. É como toda e qualquer arte, tão fundamental à vida e ao mesmo tempo massacrada pelas normas de um mundo do comum e do mais do mesmo.

Escrevo literatura pela chance de me sentir livre.

Escrevo sonhando com o momento em que aquela parte de mim será conhecida por um outro alguém. Faço pensando em todos esses alguém.

Escrevo porque já me acostumei à sonhar em texto e minha cabeça fica pesada todos os dias em que não jogo no papel digital um parte de toda aquela profusão de sons e vidas imaginárias.

Escrevo porque espero reconhecimento. Quero ser aceita por aqueles que leem e quero que eles se sinta mais aceitos ao ler o que escrevo. Por esse motivo muitas vezes escrevo sobre coisas que me dizem muito respeito. Sobre ser mulher, sobre ser lésbica, sobre ser alguém distante da sua terra natal, por ser alguém que vê o mundo inteiro como algo misterioso e incompreensível.

Escrevo porque só assim sou capaz de compreender uma pequena parte da minha própria alma. Escrevo porque não saberia viver de outra forma.

Não busco a maestria. Quero me emocionar e viver tudo o que só é possível viver nos sonhos de palavras. Nesse meu estranho universo individual não existe nada mais poderoso do que literatura.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Promessas de começo de semestre ainda valem de algo?

Hoje começou o quarto semestre da minha segunda graduação (não ter feito o TCC da primeira não muda o fato de eu ter cursado tudo, afinal) e tudo foi bem péssimo. Essa é a impressão que uma enxaqueca horrível causada pelas crises constantes de sinusite deixou, mas a verdade é que me sinto sempre muito bem em começar novos desafios e rever as amizades de curso (todas pessoas com as quais aprendo muito e sempre).

Para tentar aguentar a dor da enxaqueca enquanto estava no trabalho me dei um tratamento de "alegria instantânea": fui reler comentários de meus antigos fanfictions postados no Kono-ai-Setsu. Ainda que muitas pessoas desprezem o valor dos fics (um assunto que rende um debate quase infinito) devo dizer que não apenas gostei de já tê-los escrito como ainda gosto de escrevê-los quando a rotina permite. Um bom fanfiction é tão valioso quanto um fanart bem feito, ou quanto um doujinshi pensado e desenhado com alta técnica artística. E, apesar da falta de valor, tenho cá meu orgulho com meu saudoso Mastered Negima e seu texto simplório.

Mas o que isso tem haver com promessas de começo de semestre? Bom, já faz mais de dez anos que comecei a publicar aqueles fanfictions e minha vida sofreu transformações quase surreais nesse meio tempo (algum dia terei que detalhar isso), mas fato é que ainda estou só no começo do meu trabalho como escritora. Recém consegui terminar a reescrita da quarta versão de um romance original longo de ficção-científica, o que mal pode ser considerado metade do caminho para que esse texto consiga chegar à algum público que o queira consumir.

Mesmo depois de dez anos, ainda estou no começo. Mesmo que já soubesse usar técnicas bem desonestas para provocar sentimentos variados no leitor com  "Lives", minha técnica de escrita melhorou muito nesse período e ainda tem muito à melhorar. Dá um sentimento muito estranho perceber o quão cumprido é caminho que ficou para trás e também o que vem pela frente.

Não tenho como fazer promessas de começo de semestre que não seja "tentar sobreviver à carga de leituras e trabalhos do quarto período," mas ainda assim me sinto cheia de esperança em perceber que tenho sempre esse longo caminho diante de mim, se abrindo ao infinito das possibilidades, esperando que eu dê aos anseios escolhidos, a vazão em realidade que tanto merecerem.

Que sorte estar no quarto período, a professora de Produção Textual do segundo e terceiro períodos iria me matar se encontrasse um texto tão pessoal e nada "objetivo" meu online.

-LKMazaki - Agosto de 2017