quarta-feira, 15 de junho de 2016

À procura de emprego

Procura-se emprego nos ramos artísticos


Sabe-se escrever prosa em língua clara
Além de desenhar em linguagens gráficas diversas
Canto
Poesia
Sabe-se inclusive pensar
E ser crítico sem sair da racionalidade para adotar a paixão
(Diga-se de passagem um diferencial e tanto na Era das Curtidas)


A remuneração pretendida não é ostensiva
Talvez o mínimo para comprar lápis e papel
Quem sabe apenas um cumprimento já valha o mês de esforço
Ou apenas um sorriso


Por favor entrar em contato através da rede social menos popular
E utilize como identificação o assunto
“Compram-se seus sonhos”

LKMazaki 2016

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Manifesto da Calma

Manifesto da Calma
por LKMazaki
Vivemos em tempos caóticos. Mais do que em qualquer época da História conhecida o ser humano vive nos limites da razão, atormentado pela massa esmagadora de informação e acontecimentos que permeiam o dia-a-dia atribulado da sociedade padrão globalizada do ocidente e oriente. E, para aplacar as angústias constantes do viver, as pessoas, ao invés de buscarem se afastar momentaneamente do caos urbano, pelo contrário, mergulha na miríade do entretenimento que lhe aliena de tudo ao seu redor.


Seja no estudo, trabalho ou lazer, as pessoas estão se entupindo de conteúdo banal e extremamente passageiro, afim de lacrar seus pensamentos à qualquer coisa que possa lhes causar um impacto real aos sentidos.


Em resumo, o mundo está distraído demais para viver.


Este manifesto tem como objetivo opor-se a essa que chamamos de Cultura da Distração, ou mesmo Cultura da Falta de Importância. Um tipo de comportamento que ganha a cada dia proporções alarmantes e causa efeitos terríveis para indivíduos e o ambiente ao seu redor.


O Manifesto da Calma não é um grito de oposição, afinal isto seria em si uma contradição. Queremos, silenciosamente, abrir nossos olhos para a realidade imediata e, ao mesmo tempo, eterna que cerca cada momento de nossas vidas. Não queremos deixar passar os significados tão especiais de todas as coisas que parecem estar desvalorizadas em relação ao que é brilhante, barulhento e absolutamente insignificante.


Detestamos passar por uma rua sem observar ao menos por um momento sua arquitetura. Igualmente os sons urbanos, tão disformes, também nos são bem vindos de vez em quando. Claro que apreciamos músicas aos nossos ouvidos, como a maioria faz, porém, de vez em quando, pensamos ser bom dar um tempo para pensar com nossos próprios neurônios.


Não gostamos de repetir as frases deflagradas nas mídias novas e antigas. Queremos expor nossos pensamentos com nossa própria maneira de construir sentenças. Clichês são bons, mas usá-los demais nos parece uma armadilha para tornar nossa mente preguiçosa.


Muitos de nós gostam de coisas que a maioria considera velha. Muitos nos confundem com esses maníacos por “retrô”, mas não é esse o caso. A verdade é que nós sabemos que uma década, um século, ou mesmo alguns séculos, não são muito tempo. O mundo e a humanidade está aí a tanto tempo que seria uma tolice acreditar que uma música composta a duas décadas é algo antigo. Mesmo o mundo moderno, que começou a ser costurado a alguns séculos, é algo extremamente novo e por isso tem toda a nossa atenção e respeito.


Essa valorização que costumamos a dar ao que os outros acreditam ser passado distante tem várias consequências em nossas vidas. Isso por que não somos capazes também de esquecer as abominações que a poucas décadas e séculos assolaram a face do nosso pequeno planeta. As grandes guerras, genocídios e torturas contra tudo e todos. Os seres humanos já provaram muito bem serem capazes do pior e isso jamais sai de nossas mentes.


E é por isso que damos tanto valor à paz e à fraternidade entre os povos. Não somos tolos, sabemos que o mundo está em constante conflito, mas não fazemos parte daqueles que amam este tipo de situação. Pelo contrário.


Sabemos que não somos capazes de mudar o mundo apenas agindo com mais calma diante da loucura imposta e nem é esse nosso objetivo. Queremos primeiro mudar a nós mesmos. Se nos tornarmos serenos a tal ponto talvez vejamos com mais clareza o que podemos fazer para ajudar a clarear a visão dos que nos estão próximos. Este é só um pequeno passo, mas para nós é o que basta até então.


Convidamos a todos para que, nem que seja por um único instante, pare de correr e distrair-se para então pensar e sentir o mundo ao seu redor.


Veja, você está vivo. A sua vida dura apenas uma ínfima porção de tempo e por isso ela é tão preciosa. Ao mesmo tempo, veja as infinitas formas de vida que existem ao seu redor. Não só na Terra, mas em todo o Universo. Vidas mais breves e mais longas do que a sua. Todas tão preciosas quanto as outras.


Sinta, você.


Pode ser uma sensação assustadora de primeira, perceber o quão frágil e preciosa a vida é na verdade, mas garantimos que, se fizer isso ao menos uma vez, jamais poderá se distrair a ponto de esquecer disto.




quarta-feira, 13 de abril de 2016

[Opinião] "O Brasil vai ficar sem internet"? Calma lá. . .

Sobre a atual polêmica em relação aos planos com limites de franquia para internet banda larga no Brasil é preciso, antes de mais nada, esclarecer que é ilegal bloquear a navegação de consumidor sem que o mesmo esteja em débito com a operadora do seu serviço, ok?
 
Saiu uma matéria bastante esclarecedora no site da Zero Hora (Clique para ir para o site da Zero Hora) com perguntas e respostas diretas sobre o tema. Se você não tem certeza sobre o que afinal poderá acontecer e acha que "O Brasil vai ficar sem internet" de uma hora pra outra, por favor, leia esta matéria, ou busque orientação com especialistas em Direito do Consumidor para informar-se.
 
Este texto é apenas para deixar registrada mais uma opinião de contrariedade à esta ideia ridícula das operadoras de vender planos por franquias. Na prática isto é apenas um meio de conseguir cobrar mais caro do consumidor médio de internet, que utiliza, e muito, serviços de streaming como You Tube e Netflix (observa-se que é o mesmo tipo de consumidor que vem substituindo a televisão tradicional pelo entretenimento por nicho da rede) e de inviabilizar o consumo maior de dados por boa parcela da população. De certa forma isto é cercear a liberdade de acesso à informação que, semanticamente, se adquire ao contratar um serviço de internet banda larga.
 
Ok, como dito antes, na prática é crime cortar a internet do cliente, mas nem todos reclamam por seus direitos, ainda que sejam claros, não é verdade? É neste ponto que se criam as estratégias cretinas de ganhos de alguns empresários (vide os abusos contra empregados praticados em larga escala por corporações que sabem que apenas 10% destes irá protestar na justiça o que tem direito).
 
Toda a manifestação de contrariedade à simples possibilidade desse tipo de mudanças nos planos de banda larga é, mais do que correta, necessária de ser feita. Os empresários precisam ser cercados críticas ferrenhas para convencer-se de que esse tipo de política não vai ser aturada pelo consumidor brasileiro. Ainda que muito estardalhaço acabe ultrapassando os limites do bom senso também no tom da crítica, é ainda preferível que seja desta maneira do que passar a impressão de um consentimento emudecido de algo que, para dizer pouco, seria um revés tecnológico.
 
Sim, vamos nos manifestar contra isso, mas também vamos nos informar muito bem sobre o assunto, para caso essa galhofa em forma de proposta empresarial gananciosa siga em frente.
 
 

terça-feira, 12 de abril de 2016

Retomando as atividades

Já faz um longo tempo desde que publiquei pela última vez neste blog. Se essa é a primeira vez que você o acessa só irá notar isso depois de perceber a data das últimas publicações.
 
Durante mais de um ano pensei em unir a ideia deste blog com um dos meus outros, o Mundo Mazaki. Por este citado ser mais antigo, ter um alcance maior, imaginei que seria uma boa fazer essa fusão. Porém, o tempo, como carrasco que é das ilusões as quais nos submetemos mostrou que este fora mais um empreendimento mau-sucedido.
 
Então, cá estamos retornando para o Creative 1000%.
 
Muita coisa mudou na minha vida desde a última vez que escrevi aqui. Entre essas mudanças talvez a mais relevante tenha sido o fato de eu deixar de usar o Facebook (entrar na graduação de Letras PT-JP é detalhe perto disso). Ainda tenho perfil, mas de fato só lembro de acessá-lo por volta de uma vez por mês.
 
É maravilhoso. Vocês deviam experimentar isto.
 
De qualquer modo, esta mensagem é apenas para pontuar um recomeço. Talvez um começo, se você for um destes visitantes novos. Para saber mais do que venho trabalhando ao longo da última década, basta navegar um pouco por este endereço e você terá alguma noção.
 
Pretendo utilizar este espaço para a publicação de resenhas simplificadas de livros e obras de outras mídias, reflexões sobre escrita, algum texto ficcional e, com sorte, alguma opinião ou texto mais solto a respeito da vida, do mundo, da Academia ou afins.
 
Sejam bem-vindos, mais uma vez. E vamos em frente.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

[Opinião] Dúvidas do pós-eleitoral

Reprodução de texto publicado no meu perfil pessoal, no facebook:


Ao refletir sobre o cenário político que irá entrar em vigor a partir de 2015 cheguei a um questionamento: como um cidadão comum pode acompanhar e entender o que acontece nas entidades governamentais que tanto influenciam sua vida?

Me lembro lá de 2010, da polêmica campanha do humorista Tiririca: "se eleito, eu te conto o que um deputado federal faz". Mas, todo esse tempo depois, acho que ainda ninguém ficou sabendo o que um deputado faz mesmo.

Será que uma das causas do distanciamento claro que existe entre sociedade e seus políticos não está fundamentada na falta de meios de compreender o que afinal esses caras todos fazem? 

Só de olhar por cima esse sistema caótico soa assustador, onde centenas de deputados apresentam milhares de projetos e apenas uma dezena ou mais são, de fato, úteis e chegam a ser aprovados. E como funcionam seus gabinetes? Pra que serve as verbas que tornam os deputados brasileiros uns dos mais caros do mundo?

É muito fácil e óbvio que a pessoa comum, sem acesso a essa informação, vai chegar a conclusões simplistas como "o dinheiro vai pro bolso deles". Não que isso não possa ser em parte verdade, MAS, não seria muito melhor saber do que se está falando?
Fica aqui essa minha questão e questionamentos. Como fazer para que a política não seja "aquele assunto chato que nos incomodada de 2 em 2 anos, nas votações"?





Talvez seja impossível chegar a esse ideal da informação simples, mas não custará nada tentar. Pelo menos só assim sentirei que, como membro da sociedade, estarei fazendo minha parte.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Como estruturar um enredo ficcional

Olá a todos! Hoje iremos tratar de uma parte fundamental para a criação de qualquer obra literária ficcional: a estruturação do enredo. Vamos abordar este assunto de maneira prática, através de recomendações e passos práticos que podem ser experimentados e livremente adaptados à rotina de trabalho de qualquer autor ou aspirante a autor de ficção.

É bom deixar claro de antemão que a forma de desenvolver a estrutura de um enredo apresentada neste texto é apenas uma sugestão baseada na metodologia aplicada pela autora do mesmo no seu trabalho literário. Cada um encontra sua própria fórmula de trabalho, porém é sempre saudável conhecer novos métodos. Isso pode criar possibilidade de enriquecer a forma de trabalho pessoal de quem observa sem preconceito a metodologia distinta.

Dito isto, vamos para a parte prática.

Como estruturar um enredo ficcional



Para que este texto se desenvolva de maneira mais direta o possível, vamos adotar etapas enumeradas e desenvolver um exemplo genérico, visando a construção de um enredo para um conto. Isso com a ajuda de um aplicativo para Android chamado "Plot Generator". Posteriormente podemos postar o conto terminado, para que fique mais interessante e seja possível ver a execução da metodologia que se apresenta. 

Para quem tiver preconceito com a utilização de "geradores", acreditando que nenhum enredo que soe natural possa sair do mesmo gostaria de fazer o convite para que leia um dos últimos trabalhos que publiquei no grupo NUPO. Um conto de ficção-científica intitulado "Extinção" que foi baseado totalmente em um plot gerado por este programa. Confiram neste LINK.

Etapas e exemplos, vamos lá.

1 - Crie seu plot central

O plot central é um pequeno conjunto de frases que vão dizer o que se trata o enredo no cerne. Pode haver um ou outro detalhe mais específico da trama neste plot, o importante é poder descrever sua trama como um todo.

Exemplo: utilizando o Plot Generator, cheguei a este enredo (traduzido livremente do inglês):

Plot: Você está viajando em uma nave-colônia em direção a um novo lar. Um novo computador quântico desenvolvido é capaz de prever um evento catastrófico no futuro próximo. A previsão acidentalmente se torna pública, levando toda a sociedade ao pânico. Seu personagem estava se programando para um dia voltar à Terra. Uma guerra de larga-escala começa na Terra.

Comentário: caramba ein, esse enredo é tão abrangente que poderia resultar em um livro com facilidade. Mas vamos nos deter ao contexto de conto.

Comentário 2: Percebe como o primeiro ponto do plot dá a possibilidade de narrar-se em primeira pessoa? Este é um ponto a ser pensado posteriormente, na fase de execução da obra.


1.5 - Anote os objetivos centrais

Os objetivos de uma trama não estão expressos no plot, isso é algo que precisa ficar bem claro ao autor. Enquanto o plot demonstra o início ou até algum detalhe importante do meio de um enredo, os objetivos centrais devem tratar daquilo que será o guia para o andamento do começo ao desfecho da história.

Este é um bom momento para decidir qual será o final do enredo, para que assim se possa ter um guia para elaborar os objetivos de forma coerente.

Exemplo: Vamos tentar abstrair pelo menos dois objetivos para guiar este enredo sem criar a necessidade de uma grande extensão de narrativa:

Objetivo 1: O desejo do protagonista em retornar para a Terra em conflito com a realidade contrária a este anseio.

Objetivo 2: Demonstrar o caos que se pode gerar em uma sociedade graças a informação de um possível desastre futuro. Será essa previsão verdadeira?

Comentário: Perceba que apesar de serem guias, ainda não existe um desfecho? Vamos então criar um desfecho direto, mesmo que genérico para saber para onde devemos levar o enredo:

Desfecho: O protagonista não consegue voltar para a Terra.


2 - Divida em etapas principais

Etapas genéricas, guiando o início para o final. Não é preciso nenhum tipo de detalhamento, apenas tente pensar quais partes devem existir para que a trama saia do ponto inicial e chegue com naturalidade ao seu desfecho.

Exemplo: Agora é a hora de transformar essas diversas idéias que o plot criou em algo ordenado e sequencial

Etapas:

a) Apresentar o protagonista e sua realidade na nave-colônia
b) A previsão catastrófica que se espalha como um boato
c) As notícias da guerra na Terra
d) Caos
e) A chegada a um novo Planeta


3 - Detalhe cada etapa em acontecimentos-chave

Agora abrimos cada uma das etapas em acontecimentos menores.

Exemplo

a) Apresentar o protagonista e sua realidade na nave-colônia
    - O protagonista em seu trabalho como engenheiro de manutenção da colônia
    - A realidade da colônia: sociedade, famílias, modo de vida e valores.
b) A previsão catastrófica que se espalha como um boato
    - Um conselho de cientistas, estarrecido pela previsão do novo computador
   - O relatório com o desastre passa de mão e mão na alta cúpula de cientistas que governam a nave-colônia
    - O vazamento da notícia
c) As notícias da guerra na Terra
    - Protagonista tenta contato com os amigos deixados para trás
    - Chegam notícias de que os conflitos na Terra explodiram em uma guerra de proporções planetárias
d) Caos
    - O pânico se tornando generalizado
    - Os governantes da nave tentam acalmar a população, com pouco efeito
    - Engenheiros são convocados para ajudar a controlar a situação, visto que são poucos os agentes de segurança existentes na nave-colônia
    - Uma verdadeira guerra civil se instaura dentro da nave
    -  Medidas extremas para conter o caos são tomadas
e) A chegada a um novo Planeta
    - Mesmo com a perda de mais da metade da população, a nave-colônia chega a um novo Planeta
    - Apesar das tentativas de contato com a Terra, a nova colônia planetária não mais consegue respostas do Planeta-mãe.

Comentários: Talvez vocês, assim como eu enquanto trabalhava nesta etapa do exemplo, tenham notado que algumas coisas parecem não se encaixar com perfeição no seguimento da trama. Isso é natural e até desejável. Em uma etapa mais à frente da estruturação iremos tratar destes casos.

4 - Se possível, detalhe ainda mais

Esta etapa é fundamental para enredos longos, de noveletas e romances propriamente ditos. Em contos não é possível um detalhamento tão grande, até porque o objeto (o conjunto total do enredo) é muito mais limitado e o espaço para desenvolver o mesmo também. Porém dê bastante atenção para este enredo


5 - A lista de cenas

Aqui é onde irão ser enumeradas todas as cenas. Atenção para o tamanho das descrições de cada cena. É interessante que cada cena seja resumida em uma frase simples ou um par de orações coordenadas. Deixe os detalhes para uma etapa mais à frente e foque-se no conteúdo central e valor de cada cena para a construção do enredo como um todo.

Exemplo: Para criar a lista de cenas apartir de uma lista bem detalhada de acontecimentos é até bastante simples. A grosso modo basta perceber quais linhas devem ser mescladas e fazê-lo e, o restante, transcrever do modo como foram feitas a princípio

Lista de cenas - Conto sci-fi

01 - O protagonista em seu trabalho como engenheiro de manutenção da colônia
02 - A realidade da colônia: sociedade, famílias, modo de vida e valores.
03 - Um conselho de cientistas, estarrecido pela previsão do novo computador & O relatório com o desastre passa de mão e mão na alta cúpula de cientistas que governam a nave-colônia
04 - O vazamento da notícia
05 - Protagonista tenta contato com os amigos deixados para trás & Chegam notícias de que os conflitos na Terra explodiram em uma guerra de proporções planetárias
06 - O pânico se tornando generalizado
07 - Os governantes da nave tentam acalmar a população, com pouco efeito
08 - Engenheiros são convocados para ajudar a controlar a situação, visto que são poucos os agentes de segurança existentes na nave-colônia
09 - Uma verdadeira guerra civil se instaura dentro da nave & Medidas extremas para conter o caos são tomadas
10 - Mesmo com a perda de mais da metade da população, a nave-colônia chega a um novo Planeta
11 - Apesar das tentativas de contato com a Terra, a nova colônia planetária não mais consegue respostas do Planeta-mãe.

Observação: em sublinhado estão cenas que acabaram sendo fundidas nesta etapa.

6 - Analisando a fluidez das cenas de acordo com os objetivos

"Nem tudo precisa ser mostrado" é a máxima que rege esta etapa do desenvolvimento. Este é o primeiro ponto de crítica que se fará a respeito do enredo que está sendo construído. Tudo o que estiver "a mais" deverá ser cortado para que uma nova versão, mais refinada, da lista de cenas surja.

Exemplo: desde que comecei a estruturar essas cenas percebi que essa parte relacionada à Terra não estava combinando com o restante da trama. Acredito que seja melhor retirar essas partes e deixar apenas alguma citação breve através do protagonista. Isso também dizendo respeito ao final do enredo. É preciso dar menos espaço a essa distância da Terra graças à misteriosa guerra e focar-se mais nas angústias e frustrações do protagonista que ao final da história irá perceber que jamais seus anseios serão realizados.


7 - A segunda versão da lista

Depois de analisada e repensada, a lista de cenas está pronta para ser refinada, em algo mais coerente com a proposta inicial.

Atenção: em enredos longos é provável que seja necessário repetir algumas vezes as etapas de análise-corte e construção de novas listas de cenas. O importante é chegar o mais próximo possível do ideal.

Exemplo:

01 - O protagonista em seu trabalho como engenheiro de manutenção da colônia. Citar guerra na Terra  &  A realidade da colônia: sociedade, famílias, modo de vida e valores.
02 - Um conselho de cientistas, estarrecido pela previsão do novo computador & O relatório com o desastre passa de mão e mão na alta cúpula de cientistas que governam a nave-colônia
03 - O vazamento da notícia
04 - O pânico se tornando generalizado
05 - Os governantes da nave tentam acalmar a população, com pouco efeito
06 - Engenheiros são convocados para ajudar a controlar a situação, visto que são poucos os agentes de segurança existentes na nave-colônia
07 - Uma verdadeira guerra civil se instaura dentro da nave & Medidas extremas para conter o caos são tomadas
08 - Mesmo com a perda de mais da metade da população, a nave-colônia chega a um novo Planeta
09 - Protagonista em sua nova rotina trabalhando para o estabelecimento no novo planeta. Suas reflexões sobre a impossibilidade de retornar.

 Comentário: em sublinhado as mudanças relacionadas ao que mencionei que deveria ser excluído, no tópico anterior. Percebam também que ouve outra fusão de cenas.

8 - A "Passagem de Cenas"

A Passagem de Cenas aqui citada é inspirada diretamente no procedimento conhecido como "Passagem de Cenas Expandida" onde cada cena antes enunciada como uma frase curta é desmembrada em alguns parágrafos, contado de forma resumida como irá se dar o desenrolar da cena. É aconselhado que cada cena seja adaptada para pelo menos meia página de escrito.

Em particular também acrescento um cabeçalho com informações da cena em questão como POV (point-of-view), objetivo da cena e, em alguns casos, qual "tom" a mesma deve passar.

Para o exemplo irei destrinchar apenas uma das cenas do conto que estruturamos neste exemplo para a postagem.

Exemplo

01 -  O protagonista em seu trabalho como engenheiro de manutenção da colônia. Citar guerra na Terra  &  A realidade da colônia: sociedade, famílias, modo de vida e valores. 
Objetivo: Apresentar Protagonista e detalhes daquela sociedade
  * Protagonista indo para seu trabalho diário de engenheiro;
  * Protagonista passa por vários setores da nave no caminho. Aqui ele explica sobre a estrutura daquela sociedade;
  * Protagonista encontra com um colega também engenheiro. Ele sabe que o amigo perdeu a família ainda na Terra. Seus pensamentos são levados à Terra e ele cita a situação difícil que o Planeta-mãe estava quando partiram;
   * Protagonista começando a fazer seu trabalho diário de manutenção dos sistemas que mantém a vida de toda a nave-colônia
[Fim da cena]

Agora sim, tudo pronto

Com a Passagem de Cenas, seja a mais tradicional até uma versão simplória e improvisada em mãos é possível declarar que já se tem toda a estrutura de um enredo em mãos.

Uma observação importante é: NADA É ABSOLUTO, ainda mais falando de ficção. É bem provável que nas primeiras vezes em que se for tentar desenvolver uma narrativa apartir de uma estrutura organizada se encontre vários pontos que precisem ser alterados na execução para que o enredo não se perca dos objetivos, ou não dê destaque demais a personagens secundários em desfavor do protagonista. . .  Enfim, toda a sorte de mudanças podem ser necessárias e devem ser feitas durante a execução. Nenhuma estrutura, por mais bem pensada que seja, é um mapa absoluto para o sucesso de uma ficção, mas sim um guia que irá ajudar o autor a não chegar a pontos onde se perguntará "e agora? O que acontece a seguir?".

Mas cadê os personagens?

Sim, você deve ter notado que não foi citado em nenhum momento o trabalho necessário para elaborar e aprofundar os personagens que irão dar vida ao enredo ficcional elaborado.

Essa "falha" foi proposital e o motivo é simples: Personagens são um tópico fundamental e extremamente complexo da ficção, portanto necessitam ser tratados e analisados em sua elaboração em um momento separado. Neste artigo cabe apenas deixar claro que o desenvolvimento da estrutura do enredo deve caminhar praticamente em paralelo com o desenvolvimento dos personagens para que esses dois elementos acabem não se tornando pouco associados, o que criaria uma estranheza enorme tanto na hora de escrever quanto depois, quando tal enredo fosse mostrado a um leitor.

Futuramente iremos tratar aqui no Creative 1000% sobre a parte teorica e prática do desenvolvimento de Personagens, pois este é um ponto fundamental da Ficção.

Finalizando

Gostaria de fechar este artigo apenas relembrando que esta metolodia é fruto de conhecimento empírico, fortemente apoiada sobre estudos de técnicas já consagradas nos meios literários e cinematográficos. Acredito profundamente que o bom de conhecer metodologias de outros artistas seja exatamente para poder refletir e aperfeiçoar suas próprias técnicas. E é com este intuito que apresentei neste texto com a maior clareza possível minha metodologia "padrão" de trabalho. Nem sempre sigo meus próprios métodos, mas esta sistemática é sempre um norte interessante para referenciar-se.


Lilian K. Mazaki

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Até onde “Literatura Cinematográfica” é algo bom?


Não é de hoje que outras mídias vem influenciando a Literatura e vice-versa. Porém, de  algumas décadas para cá é crescente a influência do Cinema (referindo-se também aos roteiros cinematográficos) e sua linguagem própria sobre o ato de contar histórias por escrito. É bem mais fácil notar este fenômeno em livros mais voltados para um público casual, praticamente os “blockbusters literários”, onde muito mais do que um influência sutil, é possível perceber a intenção total do autor em fazer sua história formar um filme na cabeça do leitor, exatamente como os filmes que se veem na tela grande.

A questão neste fenômeno é: Literatura e Cinema são mídias assim tão semelhantes? Não faria falta a uma obra literária as características que são únicas e exclusivas dessa mídia?  Essa mistura de linguagens é apenas boa, apenas ruim? Aliás, dentro dessa profusão de “livros-roteiros” alguém ainda sabe quais são as possibilidades únicas que a narração ficcional tem?

Até onde “Literatura Cinematográfica” é algo bom?
Literatura de ficção é um formato de expressão assim como o Teatro, Cinema e Quadrinhos, sendo um dos mais antigos entre estes. Cada uma dessas linguagens possui uma série de signos e significados próprios que podem ser aplicados em sua execução.

O que roteiros e filmes podem fazer que livros não?
É preciso ter bem claro o viés visual que o Roteiro possui por natureza. Em um roteiro não se descreve nada que não seja visível, e mesmo este é retratado da forma mais sucinta o possível, em detrimento do objeto principal dessa forma de escrita: as Ações.

Em um filme propriamente dito, outros recursos são aderidos sobre as descrições e falas de um roteiro. Ângulos de câmera, trilha sonora e efeitos de pós-produção ajudam a pontuar o ritmo e clima que a trama segue. Ainda que, fundamentalmente, o ritmo das ações seja determinado pelo roteiro, essas ferramentas são de grande valia na hora de alcançar os sentidos (visual e auditivo) do expectador.

Ainda que seja possível reproduzir toda a sorte de ações complexas mostradas na tela do cinema em forma de narração, é um labor em demasia traduzir algumas sequências que duram poucos minutos para palavras sem pecar na agilidade e intenção. Além disso, como uma linguagem visual, o cinema é capaz de utilizar-se de diversos recursos gráficos que não possuem tradução em palavras (algo semelhante ao que é possível fazer com quadrinhos). Ou seja, nem sempre tentar reproduzir na Literatura o que se pode fazer com o básico da arte cinematográfica.

O que livros podem fazer que roteiros não?
Enquanto o roteiro é uma mídia voltada para o visual a Literatura está  mais voltada para o plano Racional e mesmo Subjetivo de uma trama.

Em um livro é possível haver passagens rápidas, contadas ao leitor, intercaladas com outras mais lentas, onde os acontecimentos são “mostrados” através da narrativa sequencial. Saber quando e como empregar essas duas formas de narrativa é um dos segredos para uma literatura bem sucedida e merece ser objeto de estudo de modo mais aprofundado.

Porém um dos maiores pilares de diferença da Literatura para o Cinema está em um plano mais íntimo. Isso porque na Literatura é possível mergulhar no mais profundo dos pensamentos e sentimentos dos personagens de maneira ímpar. Algo que só consegue ser mais aproximadamente emulado nos quadrinhos, através de recursos gráficos complexos e subjetivos com tais objetivos.

Desde que aprendemos a falar nossos pensamentos passam a ser expressos através de um fluxo contínuo de palavras. Um diálogo interior que muitas vezes é anacrônico e mesmo multifacetado. E é essa característica que torna a narração literária de um fluxo de pensamento e sentimentos muito mais “realista” para alguém lendo um livro (ou seja, reverberando no primeiro plano do consciente as palavras escritas pelo autor) do que quando se vê e mesmo se escuta o lamento de um personagem em uma projeção cinematográfica ou encenação teatral onde, por mais verossímil que seja a atuação do artista, tudo ainda ficará sujeito à capacidade de empatia visual do expectador.

Na Literatura, mais do que em qualquer outra mídia, devido às suas características únicas, é possível para o expectador/leitor SER e SENTIR o personagem. Ainda que nosso cérebro tenha a capacidade extraordinária da projeção dos nossos sentimentos de maneira tão nítida para figuras exteriores ao nosso corpo, como um personagem diante dos nossos olhos, conseguir acesso aos pensamentos e sensações físicas de uma personagem como é possível através da escrita é algo ainda pouco provável em outros formatos.

Influências podem ser boas
Não há de se pensar também que características cinematográficas são algo totalmente nocivo para a boa Literatura. Dependendo do contexto, do objetivo da obra e do público visado, possuir características que relembrem o Cinema, pode ser algo extremamente positivo para a literatura ficcional.

Para compreender isto é preciso ter algo bastante claro nos pensamentos: Literatura não existe para uma única função ou propósito. Tanto aquela considerada como “Boa Literatura”, como clássicos e obras mais conceituais e profundas, não tem nada mais especial do que um bom livro de ficção policial ou uma série adolescente. Ainda que seja possível sim perceber uma maior qualidade técnica ou mesmo um maior valor moral em determinadas obras, isso em nada denigre a função de obras que visam o entretenimento.

Este aliás é um tópico delicado e que merece ser tratado com mais profundidade em particular. Mas é possível neste momento explicitar algo que deveria ser (mas infelizmente não é) de conhecimento comum: Entretenimento é uma necessidade humana primária, assim como a busca por conhecimento é um instinto primário. É muito comum se incorrer em erro quando se julga material de Entretenimento, como se este fosse algo “menor” ou “menos importante”.

Quando uma obra literária se utiliza de nuances de outras mídias como o Cinema (e mesmo outras) isto não significa necessariamente que esta Literatura está “se rebaixando” a outra coisa (até porque não existe mídia mais relevante, ou significante, do que outra). Ela está somente agregando a si características exteriores, o que pode criar algo muito rico. Além disso é também extremamente comum que as outras mídias busquem na Literatura características para adicionar ao seu leque de capacidades.

Um exemplo

Gostaria de dar um exemplo de obra literária que utiliza recursos únicos que tornam sua leitura muito mais interessante do que poderia ser feito em qualquer outro formato. Porém, em vista de não revelar detalhes do enredo, irei apenas citar essa obra e tentar aguçar um pouco a curiosidade para que se confira em pessoa este elemento ao qual faço referência.

“O Assassinato de Roger Ackroyd”, de Agatha Christie, é um dos seus romances mais famosos, considerado por muito a sua obra-prima. Uma trama policial, onde o consagrado personagem Hercule Poirot,  juntamente com o narrador-protagonista, Dr. James Sheppard, investigam o assassinato do personagem-título.

Sem entrar em detalhes é preciso apenas dizer que a “grande sacada” desse livro foi tão impactante que ficou conhecida como um marco dentro do gênero e mesmo dentro da Literatura da época. Um marco que só foi possível graças à capacidade da autora em manipular a característica subjetiva que apenas a narração Literária é capaz (mais uma vez enfatizo que tal tipo de experimento só seria possível com impacto semelhante na mídia de Quadrinhos, ainda que não do exato modo feito por Agatha em sua obra).

Resumindo. . .

Não há nada de errado em fazer “Literatura Cinematográfica” se esse for seu objetivo. Porém, nunca renuncie totalmente à gama gigantesca de possibilidades da Literatura sem ter certeza de que é isto que sua obra de fato necessita.

Lilian K. Mazaki


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A importância da não-ficção

No início desta semana acabei participando de uma corrente de postagens no Facebook, algo que normalmente não faço. Abri esta exceção pelo fato da corrente em si ser um "desafio" de listar 10 livros importantes de sua vida. Pois bem, depois de montar minha lista acabei reparando em algo que posteriormente foi até citado por alguns amigos: a quantidade de livros de não-ficção que coloquei no meu "Top 10" leituras. Não creio que esse fato seja motivo para que eu me "vanglorie" de alguma individualidade ínfima de gosto (o que seria ridículo da minha parte), mas abriu espaço para uma breve reflexão que gostaria de dividir com vocês, leitores do Creative 1000%

A não-ficção é, ou deveria ser, relevante para quem escreve ficção?



A importância da não-ficção



Fantasias épicas, jornadas espaciais deslumbrantes, romances apaixonantes. . . São muitos os aspectos que podem fazer de uma leitura uma experiência insubstituível para uma pessoa. Talvez um personagem de um filme tenha uma passagem de fala que toque o mais profundo do ser do expectador, tornado essa criatura imaginária permanente nos sentimentos desse alguém. Porém, é preciso lembrar sempre que nenhuma ficção vem de outro lugar que não. . .

Da Realidade.

Livros de não-ficção se dividem em várias modalidades. Desde didáticos, até históricos e de auto-ajuda. Cada um tem sua função dentro das necessidades do mercado consumidor de literatura (mesmo aqueles gêneros tão criticados, sem razão, como a Auto-Ajuda) e tem objetivos diversos entre si. Porém o material de trabalho de boa parte destes livros é debater, ou explanar, sobre algum aspecto da realidade, seja de maneira educativa, científica ou emocional.

Existem livros que falam sobre História, onde os autores são especialistas que buscam informações concretas sobre o período que é objeto de estudo. Apesar de ocorrerem erros históricos em alguns casos, devido à escassez de informação (ou ventura de incapacidade do autor em buscar boas fontes) é comum que muita informação real seja trazida em uma obra deste tipo.

Também existem livros que falam de teorias de menor conhecimento da população em geral, de modo mais simplificado. Citando aqui exemplos como Universo em uma Casca de Noz, de Stephen Hawking, Cibercultura, de Pierre Lévy, e O Homem e Seus Símbolos, organizado por Carl Jung. 

Se pudermos abrir um pouco mais o horizonte de fatos poderemos ver que mesmo livros de empreendedorismo, ou de inteligência emocional, podem ser material de grande valia para pessoas que ocupam sua mente e vida com a Ficção. O valor de tais obras reside exatamente em retratar algo da Realidade, pois tudo da Realidade pode ganhar nova figura quando jogado sobre a Ficção.



A não-ficção trata de temas de forma concreta e, muitas vezes, sistêmica. São trabalhos nem sempre voltados para um público leigo, porém existem diversas entre essas publicações que exigem apenas um pouco de paciência e interesse por parte do leitor para revelar uma gama de conhecimentos novos e profundos sobre um assunto.

E é essa a palavra chave da não-ficção: Conhecimento. Um livro como "O homem e seus símbolos", que organiza e apresenta em linguagem acessível todo o Universo de ideias de Jung tem a incrível capacidade de trazer para uma pessoa que jamais fez faculdade de Psicologia a chance de conhecer (mesmo que com várias limitações) uma gama de conceitos que jamais encontraria de modo tão claro e sistêmico em um livro de ficção (ainda que, uma infinidade de obras sejam construídas sobre os preceitos do arquétipos enumerados por Jung em suas pesquisas).

Um bom livro de história pode apresentar fatos trazidos com muito trabalho por seus autores para os olhos de pessoas que jamais teriam como saber sobre tal período.

Mesmo um livro de filosofia antiga, como por exemplo o Tao Te Ching, pode trazer a um autor um ramo de pensamentos e sentimentos novos dos quais poderá se aproveitar para seu futuro trabalho. Como poderíamos mergulhar mais fundo na alma de uma pessoa do que com suas poesias sobre a Alma e o Universo?

Ou seja, não é apenas lendo ficção, assistindo séries de ficção ou comentando sobre a Jornada do Herói que é possível obter conhecimentos a serem utilizados para criar ficção. A Realidade, retratada através de livros de não-ficção, é uma janela aberta para chegar a novos conceitos e entendimentos sobre questões que talvez, sem o auxílio destes, jamais poderia se alcançar.



Nem tudo serve a todos

Não poderia fechar esta breve reflexão sem deixar claro que influências e conhecimentos são coisas que se moldam ao olhar de cada um de maneira individual. Ou seja, não é porque ler não-ficção seja bom para algumas mentes criativas que deva ser uma obrigação a todos aqueles que querem ser aspirantes à escritores ou roteiristas. É apenas mais uma via, de tantas que o mundo coloca à nossa frente a cada novo amanhecer.

O que tudo isso significa: ler não-ficção pode ser enriquecedor pra caramba. Experimente, talvez você venha a gostar, mas, se não for o caso, tudo bem, cada um tem seus gostos mesmo.

Lilian K. Mazaki

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Regras: Seguir ou Descontruir?

Existe um debate infindável entre escritores e aspirantes a escritores quando o tópico é: "Regras, seguí-las ou pervertê-las?". Existem opiniões formadas em ambos os lados e parece impossível em alguns momentos se chegar a um consenso a respeito. Porém, com uma visão um tanto mais distante e racional é possível ver o quanto ambos os lados são complementares e devem ser levados em consideração por autores e potenciais autores na hora do trabalho literário. É a velha máxima do "nem um, nem outro, mas sim ambos."


Regras: Seguir ou Desconstruir?



Muitas vezes o motor dessa questão começa com uma pergunta semelhante a: "Será que eu posso fazer isso com minha história/personagem?". O autor busca então algum marco de referência ou opiniões sobre situações semelhantes à sua para encontrar uma luz para seu problema. É neste momento que, normalmente, se encontram as duas linhas de opinião:

1 - Você pode/não pode devido às regras X, Y e Z, ou

2 - Você pode, afinal tudo é possível quando se trata de Literatura de Ficção.

No primeiro tópico é comum que idéias mais ousadas ou que esteja foram dos paradigmas até então mais comuns sejam rejeitadas ou mesmo tolhidas. 

Um exemplo que atualmente é até recorrente é dos palavrões e linguagem obscena. Quando se pergunta a esse respeito, ou se procura por informação (seja online, ou offline, com contatos) logo surgem opiniões negativas, baseadas em uma série de conceitos pré-estabelecidos (seja por senso comum, ou pela própria ideologia pessoal de quem tem esse tipo de argumento).

Já no segundo tipo de opinião, muitas vezes se encontram dois tipos de atitudes: a impaciência ou a prepotência de quem pensa desta maneira. Explicando melhor:

A impaciência surge, muitas vezes, quando esse tipo de opinião acaba sendo repetida à exaustão, pois todos os dias surgem novos aspirantes, e mesmo os veteranos aparecem com dúvidas que toquem neste ponto. Quando alguém é da opinião de que "tudo pode", praticamente qualquer resposta que terá para uma pergunta de conceitos ou "o que se pode fazer quando" será algo como: faça o que quiser fazer; você pode fazer; faça de uma vez. A repetição do argumento simplório acaba criando esse estresse nessa opinião, o que muitas vezes termina por criar uma visão...

Quanto à prepotência é bom frisar que, ainda que não seja algo na íntegra, boa parte dessas atitudes são precedentes de autores que utilizam este argumento para validar a própria ignorância quanto a alguns tópicos. Ou seja, para tornar sua própria atitude justificável



Os erros de ambos os lados



Falar de Literatura, assim como qualquer forma de Arte, acreditando que tudo é regido por um sistema de regras universais inquebráveis é uma atitude que encaminha para um ponto perigoso: a mediocridade. O famoso "fazer mais do mesmo" ou então algo como "está bem feito, mas não parece ter valor em si."

Em oposição acreditar que todas as regras são normas engessadas que apenas irão tolher o pensamento revolucionário que a Criação precisa possuir e, portanto, devem ser ignoradas ou mesmo combatidas, é uma visão igualmente torpe do trabalho literário enquanto criação e técnica.

Existem momentos em que as regras irão servir ao artista, lhe mostrando meios de solucionar questões sem perder a tão buscada Verossimilhança. 

É preciso ter em mente que as regras nunca precederam qualquer obra, mas sim o oposto: Não foi o termo Ficção-científica que possibilitou Mary Shelley escrever Frankenstein ou Asimov a criar as Três Leis da Robótica. Foram essas obras e tantas outras abarcadas neste gênero que, ao serem observadas, foram agrupadas em um termo conhecido como Ficção-Científica (e todas as suas ramificações). Os termos, regras, observações e sugestões são criados a partir da observação, num viés típico da natureza humana de organizar e classificar tudo o que existe.

O que quero dizer com tudo isso é: as "regras" nunca são absolutas. É preciso ao menos conhecê-las para então saber que é possível ir contra elas de uma tal maneira que não se perca nenhum dos grandes chefes da ficção: a Coerência, a Coesão e a Verossimilhança.

Querer segurar-se à "leis" que não existem é esconder-se na zona de conforto a tal ponto de sufocar e cair na insignificância. Fazer sempre do mesmo ou proibir-se uma criação por aquilo não se encaixar no que é mais "correto" ou mesmo "aceito" dentro do senso comum é um tipo de censura poderosíssima, pois ocorre em um nível onde é possível intervir: o pensamento original do artista.

Acreditar que a criação livre de qualquer influência é a única forma Correta de fazê-lo é pecar com a humildade que deveria existir dentro de cada autor e também negar que todo o trabalho até então produzido possa servir para o aprendizado de uma nova geração de autores. É como negar-se a subir nos ombros dos gigantes passados para ir mais além nessa infinita subida da criatividade.


Existe equilíbrio entre regra e liberdade?



Sim, existe.

O velho "conheça as leis antes de quebrá-las" é uma forma simplória de responder a esta questão, mas ainda assim é uma forma válida. Claro que existem momentos onde um autor, seja por desinformação ou falta de oportunidade para tal, chegue a momentos de decisão onde não irá encontrar uma regra que poderá se orientar, ficando apenas à vontade de sua intuição, devendo assim seguí-la. 

Porém, dentro das possibilidades de cada um, é preciso sempre dá valor aos conceitos existentes, fazendo uma avaliação sobre tais antes de tomar uma decisão. "Será que essa regra funciona para o que quero dizer com minha obra?" deve ser o pensamento do autor. Se a resposta for negativa, e se souber os motivos de ser negativa, então não a culpa em seguir longe de tais preceitos.

Enfim: Nada supera a intuição do autor, mesmo quando essa diz que se deve aproveitar o conhecimento já construído anteriormente como base para seu trabalho.


Lilian K. Mazaki